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Vitória, explosão demográfica e progresso

Capa do Livro: Vitória, Cidade Sol – Escritos de Vitória nº 25, Academia Espírito-Santense de Letras e Secretaria Municipal de Cultura, 2008

Nos anos de 1970, Vitória vivia novos tempos com a desordenada ocupação populacional vinda do interior do Espírito Santo e de outras regiões do país. Os censos demográficos, após essa década, registravam notadamente a presença de pessoas da Região Sudeste, as quais superavam as demais em números absolutos, e aumentando a cada censo. A explosão demográfica ocorrida devia-se, sobretudo, à decadência do modelo econômico primário-exportador e às possibilidades de trabalho ocasionadas pela implantação de grandes indústrias na cidade.

A coexistência de migrantes rurais e de diferentes cidades brasileiras com a população vitorienses caracterizou uma sociedade multifacetada, integrando valores e hábitos típicos do mundo rural com a inquietação ocasionada pela complexidade do processo de industrialização e urbanização que ocorria em Vitória. A dinâmica econômica, social e cultural que se processou na cidade mostra que seu cotidiano passou por transformações profundas, alterando a vida pacata da cidade e das pessoas que nela se aglomeravam.

Vitória, que, em 1970, tinha 133.019 habitantes, em 1980 já contava com a presença de 207.736 pessoas, e todas vivendo em uma área de apenas 81 quilômetros quadrados, pois nesse momento ainda não haviam sido feitos os aterramentos que prolongaram a cidade em mais 10 Km², em 2000, e mais 13,3 km², em 2002. A instalação dessa população no pequeno espaço físico da cidade gerou a denominada desorganização social e promoveu um processo de inchação populacional, além de acarretar uma maior e desordenada ocupação do solo. Na área oposta ao Oceano Atlântico, nas margens do canal que circunda a ilha, a população migrante foi morar no manguezal, onde a Prefeitura Municipal de Vitória despejava o lixo da cidade. No centro da ilha, estabeleceram-se favelas onde as pessoas se concentravam nas mesmas condições de miséria dos desassistidos, analfabetos e desempregados, dando origem a graves problemas sociais estigmatizados por doenças, promiscuidades e criminalidade.

Nos anos de 1980, a Ilha de Vitória já se urbanizara totalmente, tornando-se um centro populacional altamente congestionado. Estima-se que, em 1983, 47% da população de Vitória estavam vivendo em favelas e que a cada dia eram construídos cerca de 20 novos barracos de madeira e alvenaria. O governo municipal não tinha nenhuma política habitacional definida, nem mesmo uma política de assentamento urbano para receber a população que chegava. Em 1991, 13,44% da população estadual concentravam-se na capital capixaba.

As pessoas que vinham de diversas zonas metropolitanas do país, nas décadas de 1970 e 1980, superavam, contudo, em números absolutos, os migrantes procedentes de zona rural. Dentre esses migrantes urbanos, o número de mulheres se destacava. Em 1970, foram registradas pela Prefeitura de Vitória a chegada de 32.293 mulheres procedentes de todos os estados do país. Dessas, 22.983 eram procedentes de zona urbana, e a maioria delas tinha entre 15 e 19 anos.

Das pessoas que vinham das zonas rurais do Estado e de outras partes do país, também o número de mulheres superou o de homens. Em 1980, chegaram à capital capixaba 23.596 mulheres e 19.004 homens, procedentes de zonas rurais de todo o país. Contudo, muitas pessoas não declaravam sua origem e, por isso, esses dados podem ser muito mais volumoso.

O certo é que o caos que se estabeleceu com a chegada dessa população tornou-se mais expressivo nas seguintes, não apenas na aparência desordenada do crescimento da cidade, mas também na reprodução incontrolável da pobreza. A ausência de um projeto público anterior à chegada de um número enorme de migrantes e a ineficácia no atendimento de tantas pessoas que chegavam a cada dia proveu uma transformação na fisionomia da cidade, principalmente nas áreas de maior concentração de pobreza, alterando rápida e radicalmente a sociedade vitoriense.

Até os anos de 1950, a urbanização de Vitória devia-se ao desenvolvimento comercial de seu porto. Apesar de manter as características dos tempos coloniais, era uma cidade confortável para as famílias possuidoras de fortunas adquiridas com a exportação do café. Elas se aglomeravam nas áreas centrais da ilha, nos casarios amplos e modernos, construídos em ruas limpas, alargadas e calçadas por onde trafegavam bondes e automóveis.

Considerada por seus habitantes como uma cidade pacata e conhecida nacionalmente como Cidade Presépio do Brasil, Vitória mudou completamente de aspecto em trinta anos. As perspectivas advindas da nova dinâmica das atividades industriais deram margem à ampliação do comércio e do setor de serviços, motivando a concentração da população na cidade de Vitória e incentivando a ampliação dos setores de comércio e de serviços que abrangeram além das atividades produtivas de compra e venda, armazenagem, sistema bancário, telecomunicações, fornecimento de energias ligadas à administração pública. Galerias comerciais que, na década de 1970, comportavam de 3 a 7 lojas no pequeno centro urbano da cidade e pequenos estabelecimentos dispersos pelos bairros e em municípios vizinhos, deram lugar aos shopping centers que renovaram o comércio varejista da cidade. As lojas que se aglomeravam no centro da capital e atendiam à população de Vitória e de outros municípios foram deslocadas para a região norte da Cidade, promovendo um esvaziamento comercial no centro da cidade e a formação de outros núcleos comerciais nos demais municípios do Estado.

Do mesmo modo, os serviços especializados modernizaram-se, principalmente os ligados às atividades de luxo, como as clínicas médicas especializadas, agências de turismo e de lazer, galerias de arte, entre outros, criando um mercado de trabalho diversificado, típico de grandes centros empresariais, com atividades criadoras, agências de publicidade e centros de pesquisa e informática. Acrescente-se a tudo isso os serviços pessoais, as atividades financeiras, os serviços públicos e portuários que foram igualmente estimulados a se modernizar e a se afinar com as regras da "globalização".

O crescimento do comércio e do setor de serviços encontrou condições favoráveis para sua expansão e, grandes redes comerciais brasileiras e multinacionais instalaram suas filiais em Vitória, tais como lojas de departamento de dimensões da Mesbla, das Lojas Americanas e da C & A.

Também foram criados serviços para as atividades especializadas, tais como ensino superior, serviços e comércio de alto padrão. As cidades do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Campinas, de Belo Horizonte e de Juiz de Fora foram as maiores concorrentes de Vitória, pois ofereciam atividades específicas nesse setor, tais como cursos de especialização, pós-graduação e intercâmbios culturais. Mesmo assim, Vitória tornou-se a única cidade a oferecer, no Espírito Santo e em vasta área de Minas Gerais e Bahia, atividades de serviços especializados típicos de grandes centros urbanos, como hospitais especializados em determinados exames e cirurgias, conhecimentos técnicos especializados, como consultorias, instituições de pesquisa e pequenas empresas produtoras de bens com base em tecnologia de ponta, por exemplo.

Ainda dentro dessas atividades, voltadas para a produção de serviços, incluíam-se as da administração pública, que respondiam por aproximadamente 50% dos empregos da capital e as do conjunto de ocupações que representavam os mais altos salários, como as dos profissionais liberais, dos especialistas, dos associados em pequenas empresas ou dos autônomos, que atingiam a casa dos 30% dos empregos formais da cidade. Esses últimos criaram possibilidades de geração de outros empreendimentos, aumentando os postos de trabalho em Vitória.

Algumas empresas ligadas ao turismo, como agências de viagens, redes hoteleiras e restaurantes de porte nacional e internacional, também tinham um movimento crescente. No período de 1990 a 2000, o turismo de negócios e eventos foi-se constituindo em um importante fator de ocupação dos hotéis capixabas, principalmente aqueles situados na orla marítima da cidade. Em 1996, 26% dos motivos que trouxeram turistas à cidade era viagem de negócios e de eventos, como congressos, seminários, feiras, exposições e atividades do gênero. Em fins da década de 1990, o turismo de eventos realizado em Vitória representava 35% de todo o turismo no Estado, gerando em torno de 20 milhões de reais no ano de 1999. Segundo informações obtidas no Fórum Brasileiro dos Conventions x Visitors Bureaux, em 2000 essa espécie de turismo gerou 44 mil empregos diretos e indiretos no Espirito Santo, chegando a arrecadar, por pessoa, o equivalente a cem dólares por dia, espécie 300% maior do que o turismo de lazer.

Toda essa situação fez de Vitória uma cidade singular e refletiu-se na sociedade vitoriense, que sofreu uma descaracterização geral. A cidade tornou-se menos tradicional, pois, querendo ou não, as pessoas que aqui estavam, e as que vieram, tiveram seus valores, normas, símbolos e crenças modificados, além de encontrar uma heterogeneidade que acompanha a situação de cada um na hierarquia social, pois o meio urbano, enquanto estilo de vida, não deixa de atingir, ainda que em graus diversos, aqueles que dele participam.

Na realidade, Vitória perdeu o tradicional perfil de cidade com ares coloniais e tornou-se um aglomerado urbano que passou a absorver enorme quantidade de pessoas vindas do interior capixaba e de outras regiões do país m busca de emprego.

 

Fonte: Vitória, Cidade Sol – Escritos de Vitória nº 25, Academia Espírito-Santense de Letras e Secretaria Municipal de Cultura, 2008
Autora do texto: Beatriz Nader Maria Beatriz Nader, vitoriense, possui graduação em História pela Universidade Federal do Espírito Santo, é mestre em História e Filosofia da Educação e doutora em História Econômica pela Universidade de São Paulo. É Professora Associada da Universidade Federal do Espírito Santo e membro da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, setembro/2019

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