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Cerração (Poesia) - Convento da Penha

Convento da Penha, 1912

CERRAÇÃO

I

 

Um dia esplendoroso. O sol quente, escaldante

Suave azul do céu. O esmeraldino mar

Oscula, brandamente, a praia. Singular

Beleza e alacridade em torno... Mas, distante...

 

Forte esquadrilha avança — ousada e arrogante!

Um vento fresco vem as ondas encrespar,

Enquanto um nevoeiro, imenso, a se espalhar,

Encobre o litoral da terra exuberante.

 

Terror... Manobra à ré! Após, claro o horizonte,

Impetuosa volta. Então no mar, no monte,

O denso nevoeiro, novamente, cai...

 

Flotilha ao largo... É grande, enorme, a cerração

Que se interpondo, sempre, impede-lhe a visão...

Um bom terral a impele e... velozmente, sai...

 

CERRAÇÃO

II

 

Retorna, após ires dias, o estrangeiro. Brilha,

Refulge o louro sol. Esplendido o momento

De entrar na cobiçada e linda terra. O vento

É favorável, bom... e o mar, sereno. A ilha

 

É bela! É primorosa! Eterna maravilha!

Em frente à barra um monte — aonde tinha assento

Da Penha a capelinha — origem do Convento...

E o inimigo está, pertinho... a meia milha!

 

Medonha escuridão estende-se... Acordado

O mar, pelo tufão, alteia-se enraivado

E vai rumo à flotilha, dispersada agora!

 

Lampeja ao norte, ao sul... e o trovão ribomba!

 Em cone, nuvem plúmbea — semelhando tromba

Descendo vem... Oh! Santa! Oh! Virgem Mãe! Senhora!

 

CERRAÇÃO

III

 

Assim clamava o povo, aflito, angustiado.

Rugia o mar revolto! O vento sibilava.

Das nuvens, em zig-zag, o raio se arrojava

Sobre o virente e áureo ipê, eletrizado !

 

Horrísono trovão!... Seu eco, prolongado...

Se faz ouvir da furna. A chuva ameaçava

O plaino verde, imenso... o plaino que ondulava

Ultrapassando o rio majestoso e ousado.

 

Mas, dentro em pouco, o sol iluminou a terra

Reanimando tudo o que esta vida encerra

De precioso e bom. Transforma-se o cenário.

 

A Virgem — Mãe da Penha, é nossa protetora!

E vela sobre nós, fiel co-Redentora!

Conforme quis Jesus, na Cruz, sobre o Calvário!...

 

Fonte: Lendas e Milagres no Estado do Espírito Santo (Poesias 1551-1950) – Prêmio Cidade da Vitória, 1951
Autora: Orminda Escobar Gomes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2021

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