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Como Crepaz a viu - Por Mário Gurgel

Monumento - Mendiga Domingas

Nós a vimos passar na quase madrugada de setembro, em plena primavera, banhada pelos raios luminosos de um sol quase sem calor, iluminada no resplendor de uma claridade apoteótica, opala e rosa, sob listras de azul. Ela caminhava serena e indiferente aos olhares de todos os transeuntes apressados, alheia aos risos dos boêmios retardatários e dos varredores de rua, que se dirigiam para os seus abrigos depois da vigília ignorada e mortificante. Os pássaros cantavam pelos ramos verdejantes e orvalhados e ela não os ouvia nem os percebia, nem parecia sentir a brisa mansa e fresca que ondulava as vestes finas das mulheres que passavam em busca do trabalho ou conduziam filhos para as aulas.

Curvada sobre si mesma, numa atitude piedosa e humilde, seus olhos não se levantavam, nem se detinham, senão nos momentos em que a sua atenção se fixava sobre o objeto de sua marcha compassada. Então ela parava, na beleza do seu gesto e na magnificência da sua modéstia, e levantava do solo os papéis, os trapos, as caixas abandonadas pelos comerciantes e pelos fregueses, dobrava-os no seu embornal encardido e seguia mansamente como quem não tem pressa.

Na porta envidraçada da boutique, as folhas coloridas de papel de seda revelavam, pela qualidade, a perspectiva da festa elegante na recepção custosa que a jovem de quinze anos receberia na noite encantada da sua adolescência. Dali partiram, na ilusão dos anos em flor, meninas moças da cidade inteira, jovens mães enternecidas, matronas respeitáveis e venerandas, os braços carregados de sedas e perfumes, os carros repletos de adornos vistosos e resplandecentes. Mergulhados no seu devaneio, impulsionados pelas exigências irresistíveis da vida social, brilhante e movimentada, os vultos elegantes foram desfazendo as prateleiras, esvaziando as caixas encantadas e multicores, anotando no caderno minúsculo e bordado a ouro as cifras insignificantes que em faturas delicadas seriam resgatadas no dia exato.

Diante daquela exuberância de saldos, a mulher se deteve atônita e como que enternecida. Preta e simples como todas as pretas pobres da vida brasileira, moradora da favela, apanhadeira de papel, a trabalhadora compreendeu de pronto a significação daqueles pacotes desfeitos, a narrativa alvoroçada daquelas fitas amassadas nos depósitos de flandres que os lixeiros sem alma seguram com brutal atitude sem recolher a linguagem quase musical dos seus conteúdos. A preta, contudo, velha e simples, deteve-se perturbada. Via-se na singeleza dessa moça, talvez bela, de quinze anos, nos anos idos da sua vida do interior, criada nos limites confinados da Fazenda de cana, filha e neta de escravos, ligada pela tradição e pela gratidão aos donos do seu destino.

Os seus quinze anos foram dias sem destaque, segurando os meninos brancos, ninando as crianças maiores, olhando as filhas do seu patrão e senhor, que seguiam leves e sorridentes para as aulas e para as festas. A sua alegria e os seus deveres eram alisar os vestidos imensos das senhoras, guardar as joias, limpar os sapatos mimosos, passar a ferro as fitas com que elas enfeitavam os cabelos claros e perfumados. Quando as caixas chegavam da modista ou dos joalheiros, as meninas abriam os pacotes, tiravam os papéis, jogavam-nos pelo assoalho limpo e corriam para os espelhos imensos da sala ou dos dormitórios. O seu trabalho era recolher o papel, as caixas, as fitas e guardá-las no catre triste e sombrio nos fundos do quintal. Tantos anos se passaram...

A preta casou, teve filhos, morreram todos, ela continuou brava e decidida, lutando e trabalhando, lavando roupas, segurando meninos, e, agora, quando o corpo se curva cansado e oprimido pelo peso dos longos tempos sofridos... ela se revê, de novo, à beira da lata de lixo da loja chique, como nos dias da mocidade, recolhendo os papéis, dobrando as caixas perfumadas e caminhando mansamente pelo novo caminho, onde a vimos, agora, e onde Crepaz a viu, na glória do seu cinzel, e como a eternizou no protesto solene e incontido da sua inspiração...

(Tablóide Social de 10/11/63)

 

Fonte: Crônicas de Vitória - 1991
Autor: Mário Gurgel
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2019

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