Morro do Moreno: Desde 1535
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Defesa da Capitania do ES - Por Edward Athayde DAlcântara

Forte São Francisco Xavier - Acervo: Edward Athayde DAlcântara

Minuta resumida dos acontecimentos entre os séculos XVI e XX

Ao aproximarem-se do litoral da baia do Espírito Santo a bordo da caravela “Gloria”, os colonizadores perceberam um grupo de nativos curiosos ao longo da praia. Preocupados com recepção hostil desencadearam pesado fogo de artilharia sobre eles, que, munidos apenas de arco e flecha não puderam oferecer resistência, fugindo desordenadamente para o interior da floresta. Era o dia 23 de maio de 1535. Vitória para os colonizadores e infortúnio para os silvícolas.

Administrados pelo seu donatário Vasco Fernandes Coutinho, os colonizadores construíram suas residências e iniciaram o cultivo da terra.

Segundo registra Gabriel Soares, ali foi edificada a vila de Nossa Senhora da Vitória, sendo construídos quatro engenhos para fabricação de açúcar uma vez que havia obtido grande sucesso no cultivo da cana e fortificações para repelir os ataques dos indígenas.

Mais tarde, em paz com os índios, o donatário foi residir no lugar hoje conhecido por Sitio do Ribeiro. No local ainda se vê derrocados paredões, restos de alicerces e paredes em ruínas, tudo disseminado; ali residiu Vasco Fernandes Coutinho (filho) e D. Luiza Grinalda que fizeram diversas doações. Mais tarde pertenceu à família Freitas, dizendo a crônica que os padres jesuítas dela também foram senhores e que as escavações feitas ali, ou em trabalhos de agricultura encontraram dinheiro e objetos antigos. (Daemon).

Para manter a disciplina na Vila, providenciou a construção de um pelourinho para correção dos criminosos e levantou uma forca na ilha fronteira à praia de Inhoá. A partir desse ato, a ilha ficou conhecida como Ilha da Forca.(Daemon, página 54).

A segurança e manutenção da feitoria vieram a ser a grande preocupação dos colonizadores. Além de evitar as incursões dos nativos que atacavam e destruíam suas lavouras em represália à invasão de seu território, tinham de se resguardar da pilhagem de corsários de bandeira europeia que frequentavam o litoral da capitania. Mantinham no alto do Morro do Moreno um vigia para observar e identificar as embarcações que se aproximassem da barra.

Em fevereiro de 1557, ancorou em frente à aldeia de Santa Cruz a nau francesa “Grande Roberge” para tomada d’ água e mantimentos. Trazia a bordo o calvinista Jean de Lery que chegava ao Brasil com a missão de fundar a “França Antártica” (atual Rio de Janeiro), “um puro serviço de Deus”. Prosseguindo sua viagem para o sul, a nau se aproximou da barra da baía do Espírito Santo e foi surpreendida por três tiros de canhão enviados pelo forte existente (possivelmente, na praia de Piratininga).

Costeando a terra na direção que tínhamos em mira, ao fim de nove ou dez léguas apenas, deparamos com um fortim português denominado de Espírito Santo. O forte, reconhecendo-nos, bem como a caravela aprisionada que trazíamos, mandou-nos três tiros de canhão aos quais respondemos com juros. (Jean de Lery – Viagem a Terra do Brasil – editora Itatiaia – 1980).

Outras naus francesas se aproximaram da capitania e uma delas ancorou próximo da barra. O colono Simão de Azeredo, corajosamente resolveu ir a bordo à visita de cortesia levando um intérprete, francês, residente na vila. Recebidos e inquiridos, disseram que a vila tinha uma população numerosa, possuía muitos barcos, mosteiros franciscanos, fortalezas e outras seguranças. Com a desculpa de serem compradores de pau-brasil, levantou ferros na madrugada do dia seguinte e partiram com destino a Itapemirim.

Desconfiados das intenções dos franceses, os colonos decidiram persegui-los, porém, os índios chefiados pelo seu chefe Maracaiaguaçu (Gato grande) se anteciparam e quando eles lá chegaram os franceses já tinham sido derrotados e expulsos. (Cartas Jesuíticas II – Cartas Avulsas – Capítulo XXVII – p. 236).

Após a expulsão dos Franceses do Rio de Janeiro em 1560, a capitania do Espírito Santo ficou exposta a novos atentados, o que ocorreu no ano seguinte quando duas naus de guerra ancoraram defronte da vila; mais uma vez os moradores Ficaram sobressaltados, porque não tinham fortalezas e suas casas eram cobertas de palhas sujeitas ao incêndio.

Interinamente nomeado capitão-morda capitania em consequência da morte de Vasco Fernandes Coutinho, Belchior de Azeredo a frente dos colonos e índios lutou bravamente e os expulsou da baia de Vitória.

No ano seguinte uma chalupa, também de bandeira francesa, tentou entrar na barra da capitania e foi imediatamente rechaçada pelos moradores.

Os franceses insistiam em se apossar da vila, porém, os moradores convivendo em paz com os índios não os deixavam se aproximar repelindo-os sempre.

A amizade dos índios para com os colonos foi comprovada em 1581 quando ao se aproximar da capitania três naus vindas do Rio de Janeiro; o povo assustado pediu auxílio aos índios e estes, em tocaias os surpreenderam expulsando-os de barra afora.

Miguel de Azeredo adjunto da governadora Luiza Grinalda (1582), tomando conhecimento dos ataques do corsário inglês Tomás Cavendish ás costas do Brasil, armou ciladas sobre os penedos, construiu trincheiras e aguardou os acontecimentos.

Tão logo houve o atentado do corsário, os padres jesuítas acompanhados dos índios e moradores os combateram galhardamente. Impedidos de escalar a vila por ser reduzido o palco de batalha, os invasores bateram em retirada, morrendo muito deles afogados ou flechados, e presos os que se entregaram.

(Segundo Knivet, um dos soldados ingleses disse o número de mortos e feridos: ... foram a terra 120 homens, voltaram 80 e dos quarenta que voltaram não havia um que não estivesse ferido de flecha e alguns o estavam em cinco ou mais partes do corpo. = Cartas Jesuíticas – Volume III – Anchieta).

Religioso, Francisco de Aguiar Coutinho (1605/1627), dizia que tinha uma fortaleza na entrada da barra que era a ermida de Nossa Senhora.

(Frei Vicente do Salvador, sobre a capitania do espírito Santo comenta: ... nem fortificou-se a terra para defender-se dos corsários, sendo que, por meio do rio estreito, se poderá fortalecer com facilidade. Antes levando-o pelo espiritual, me disse Francisco de Aguiar Coutinho, senhor dela que dissera a Sua Majestade, que tinha uma fortaleza na barra de sua capitania que lha defendia, e não havia mister mais, e que esta era a ermida de Nossa Senhora da Penha...).

De fato, em 12 de março de 1625, o almirante holandês Pieter Heyn, chegou às costas da capitania e tentou saquear a Vila e foi repelido pelo heroísmo do padre franciscano Manoel do Espírito Santo e da mulher Maria Ortiz que auxiliaram o donatário. (Daemon, páginas 60/62).

Em 1637, houve nova invasão dos holandeses comandados pelo almirante Koin, depois de várias batalhas na ilha atacou Vila Velha no dia 30 de outubro. Os Capitães Adão Velho e Gaspar Saraiva, auxiliados pelo Capitão João dias Guedes, os derrotaram fazendo-os recolherem-se aos seus navios.

A capitania teve um período de grande prosperidade no governo do donatário Francisco Gil Araújo, causando despeito à capitania da Paraíba do Sul que era administrada na época por Vasqueanes (Visconde de Asseca). Gil Araújo, preocupado com a defesa da capitania mandou às suas custas construir a fortaleza de São Francisco Xavier em excelente sítio onde não é possível passar qualquer embarcação inimiga sem correr grande perigo de ir a pique. (A Terra Goitacá – À Luz dos Documentos Inéditos – Livro II – Alberto Lamego).

A construção da fortaleza foi de tal importância para a capitania que a câmara de vereadores da vila de Vitória concedeu ao donatário em sete de agosto de 1682, uma certidão enaltecendo as obras por ele executadas. ... fes o dito senhor na entrada da Barra desta capitania fundar a fotaleza Sam Francisco Xavier em sitio conviniente e de milhor segurança aonde não heposivel entrar nem sahirembarcaçam sem muito risco seu, esta fortaleza se fundou em doze palmos...

Arquivo Histórico Ultramarino – APE e A Terra Goitacá – À Luz dos Documentos Inéditos – Livro II – Alberto Lamego. ... Já dey a V. S. relação do miserável estado em que estava a fortificação desta praça quando Deus o trouxe a ela, hé bem que a torne a fazer do que a deixa no breve tempo em que nellaassistio e não o farey só do que toca á fortificação, mais também do muito que fica augmentada. ...

...Mandou V. S. fundaroforte S. Francisco Xaviera entrada da Barra em sitio muito conveniente pera este effeito e de melhor segurança com o qual não hé possível poder passar embarcação sem grande risco. A forma dellehé de laranja, o diametro de 80 palmos e a circunferencia de 240, a muralha héfortissima pois nace entre grandes penedos com doze palmos e nos mesmos continúaathé o pavimento do lageado e dahy sobe em nove de grosso com dez ameas, toda a praça lageada com hum grande telheiro, e sua casa de polvora: pode ser socorrida em qualquer conflicto e de prezente fica com oito pecas cavalgadas.

Na primeira relação que dey a V. S. se vê haver somente nesta praça 17 soldados de Infanteria, dois artilheiros e humcondestavel: hoje se contam 33 soldados, 6 artilheiros e o condestavel, então se socorriam aquelles poucos, apenas tinham sinco socorros pela falta de effeitos por andar a renda muy diminuta; hoje com os mais que V. S. acrecentou são mais que socorridos, então não rendiam os effeitos mais 25$000 rs. Deste se tiravam os gastos da Câmara com que ficava cousa muy limitada, aplicou V. S. todo o seu cuidado de acrescentar e vemos que subiu esta a perto de 400$000 rs. ...

... acudindo a tudo com zelo do serviço de Deus e de S. A não tendo hora ocioza que não fosse todas no emprego de melhorar esta capitanya e na verdade são as ações de V. S dignas de serem imitadas. Villa da Victoria em 27 de julho de 1682. 0 Provedor Manoel de Moraes.

Firmas reconhecidas pelo tabellião da villa da Victoria, Martim Damorim de Tavora e pelo Ouvidor Geral da BahiaDr. João Gois e Araújo.

A certidão do Provedor Manoel de Moraes datada da Vila de Vitória em 27 de julho de 1682, com as firmas reconhecidas pelo tabelião da Vila de Vitória e pelo Ouvidor Geral da Bahia, atestam que o Forte construído por Francisco Gil Araújo, tem a forma de laranja (redondo), o diâmetro de 80 palmos (17,60 m), e 240 palmos (52,80m) de circunferência (aproximadamente 2πR = 17,60mX3,14= 55,264m). Continuando a descrição: a muralha é fortíssima, pois, nasce entre dois penedos com doze palmos e nos mesmos continua até o pavimento lajeado e daí sobe em nove de grosso com dez ameas, toda a praça lajeada com um grande telheiro e sua casa de pólvora...

Tanto Basílio Daemon, José Teixeira de Oliveira e Maria Stella de Novais falam em 1702 conforme a inscrição, porém, citam: no local, mais ou menos, em que se achava o antigo Forte Piratininga, notável desde os primórdios do povoamento.

Se em 1682 a certidão já fala em São Francisco Xavier, porque em 1702, vinte anos depois, se haveria de construir um novo forte no mesmo local? Seria reconstrução? Por que não se confere as dimensões do atual? Seriam as mesmas?

Daemon afirma que a fortaleza foi edificada em 1702, pouco mais ou menos onde ficava o forte de Piratininga, no governo de Manoel Garcia Pimentel, sendo o governador geral do Brasil D. Rodrigo da Costa. Prova com a carta escrita por D. Rodrigo da Costa em 15 de dezembro de 1703 ao dito Capitão-mor que entre outras providências se ocupou da artilharia necessária para os fortes existentes na Capitania, assim como da nova fortaleza de São Francisco Xavier da Barra, remetendo dístico afixado acima do pórtico de entrada com os dizeres seguintes: Dom Rodrigo da Costa Reynando e muito Alto e poderoso Rey de Portugal Dom Pedro 2° Nosso Senhor mandou fazer esta fortaleza, Dom Rodrigo da Costa Governador e Capitão-mor Coronel deste Estado do Brazil no anno de 1702. (Daemon em História da Província do Espírito Santo).

Rocha Pita autor da Historia da América Portuguesa, lembra que conheceu Francisco Gil Araújo, elogiou seus feitos, e, como sua história alcança o ano de 1724 afirma que o filho do donatário Manoel Garcia Pimentel não veio à capitania do Espírito Santo por (ter que administrar suas importantíssimas fazendas na Bahia e morreu sem sucessão legítima. (Rocha Pita em História da América Portuguesa - Coleção Reconquista do Brasil).

Em 1725 o capitão-mor Dionísio Carvalho de Abreu lamentava o estado precário das fortalezas, que a peça que franqueava uma trincheira estava desmontada, e também desmontada estava a da praia de Vila Velha que executava a mesma função. (Arquivo Público do ES Conselho Ultramarino. ... fora desta fortaleza se acha huma pesa desmontada com q. em algu~ tempo se flanquiavahuma trincheira e na praia da Villa Velha outra q. tinha a mesma aplicação).

No ano seguinte seu sucessor, capitão-mor Antonio Pires Forsas escrevia ao rei D. João V informando que os dois engenheiros encarregados da restauração das fortalezas eram supérfluos e indicava para o lugar o capitão de artilharia Matias da Costa Torres, que havia servido na colônia de Sacramento no Uruguai e já vinha prestando serviços mais de vinte anos na capitania. (Arquivo Ultramarino...Pªaintendencia da fortificaçam tem vMag. nessa cap.nia a Matias da costaTorresoqual sérvio alg~sannosnanoutra Colônia do Sacram.to e nessa cap.nia mais de vinte e humannos no posto de cap.tam de Artilharia aquy delineando com acerto a fortificaçam ...)

As correspondências com referência à recuperação das fortalezas não paravam até que, preocupado com a demora, o vice-rei Vasco Fernandes César de Meneses, (conde de Sabugosa), recomendou ao provedor-mor da fazenda que se não encontrasse empreiteiro para a reforma das fortalezas, usasse a mão de obra dos índios que era mais barata.

Arquivo Público do ES Conselho Ultramarino - Carta de 22 de janeiro de 1727. ...visto não haver quem remate a obra de fortificação, se fará a dita de jornal, e se uzará dos índios para o trabalho, por serem os mais convenientes como me segurão; e assim a estes, como aos officiaes se dará o jornal que for estilo e merecer os empréstimos, e serviço; e para que a fazenda não receba prejuízo, servirá, de apontador o escriváo da fazenda, por cujo trabalho, terá doustostoens em cada hum dos dias que assistir, como tenha resolvido.

No mesmo ano, o Capitão-mor Antonio Pires Forsas informou ao rei o estado das fortalezas e a falta de contingente.

...be~ necessária na verdade, pois não há huma fortaleza, q. possa fazer resistência à alguã hostilidade. Nem há munições e pessoas que baste, ne~infanteria, co~q. se possão guarnecer as fortalezas, que se pretende~reedificar , pois consta todo o presídio desta capitania de huma companhia, e estaco~diminuição de m. tas praças, que cuido completar, e até dizem ne~ há armas capazes p.a a infanteria.

... pore~como a consignação de q. se costuma pagar a infanteria, não basta p.a fardar os soldados de huma, e nem ainda para os socorros, q. em todas as demais praças se praticão. ES. 20 de julho de 1727

Finalmente a obra foi executada cumprindo as ordens do conde de Sabugosa. Foi levantado o parapeito da fortaleza que havia caído, fez uma esplanada, uma guarita, casa de pólvora de abóboda, quartel, etc.; obras essas executadas sob a orientação do sargento-mor, o engenheiro Nicolau de Abreu Carvalho.

O sargento-mor engenheiro Nicolau de Abreu de Carvalho, em carta de 21 de abril de 1734 da Bahia responde ao Conde de Sabugosa informando a reforma executada no forte de São Francisco ou de Piratininga, também chamado da Barra, dizendo que mandou levantar seus parapeitos por estarem demolidos, fez uma explanada, uma guarita, casa de pólvora de abobada, um quartel para os soldados, reforma da porta de entrada ou subida e outras. Arquivo Público do ES Conselho Ultramarino.

 

Um incidente diplomático entre a corte portuguesa e espanhola abalou as relações diplomáticas dos dois países deixando o Brasil em estado de alerta.

 

Um grande número de soldados comandados por três oficiais dizendo obedecer às ordens de el-rei de Espanha acometeu a baioneta o palácio do embaixador português prendendo vários criados, devassando antecâmaras e outros desrespeitos.

 

Esta violência foi levada ao conhecimento do ministro de negócios estrangeiros e destefato resultou nas más negociações de fronteira que precederam ao “Tratado de Utreque”.  Na conclusão final da paz, Portugal teve de contentar-se com o reconhecimento de seus direitos sobre a França na Amazônia e a restituição da colônia de Sacramento aos espanhóis.

 

Em princípios de 1735, houve um incidente entre as cortes da Espanha e Portugal. O embaixador de Portugal em Madri, Pedro Álvares Cabral, conta que no dia 22 de fevereiro de 1735 fora cometido contra a sua residência uma violência ate então inaudita, e a qual dera parte ao ministro de negócios estrangeiros. ... um grande número de soldados, conduzidos por três oficiais, acometeu a baioneta o palácio dele embaixador, e prenderam vários de seus criados, penetrando até em algumas antecâmaras, dizendo que tinham ordem de el-rei para prender sem distinção todos que estivessem a serviço dele embaixador. Os soldados prenderam dezenove criados e os levaram pelas ruas de Madri com a própria libré, até a prisão. ... = Francisco Adolfo de Varnhagen em Historia Geral do Brasil – volume 2 – tomo IV – Nota III.

 

As retificações fronteiriças que o governo inglês prometera a Portugal não foram seriamente encaradas nas negociações que precederam o Tratado de Utreque. Na conclusão final da paz Portugal teve de contentar-se com o reconhecimento de seus direitos sobre a França na Amazônia e a restituição da colônia de Sacramento pelos espanhóis. D. João V permaneceu neutro a conflitos futuros, porem, enviou navios para a guerra do Egeu, a fim de ajudar as hostes navais papais e venezianas contra os turcos em 1716-1717. O rei português ofendeu-se com a corte espanhola por causa da infração das imunidades diplomáticas portuguesa da Embaixada Portuguesa em Madri, que conduziu ameaças mutuas de guerra e ao corte de relações diplomáticas entre as duas monarquias ibéricas de 1735 a 1737.  = C. R. Boxer – O Império Marítimo Português – 1415-1825 – paginas 163/164 - Edições 70 – Lisboa, 2000.

 

Em virtude destes acontecimentos, o capitão-mor, Silvestre Cirne da Veiga, escreveu ao rei D. João V dizendo que mediante os fatos ocorridos e tomando ciência dos mesmos pelo vice-rei do Brasil (conde de Galveias) em carta datada de 28 de setembro de 1735, recomendou que devesse tomar cautela sobre a entrada de alguns navios castelhanos e franceses, por ser a capitania do Espírito Santo de grande importância. Muito antes desta carta o capitão-mor já tinha tomado conhecimento pelo governo do Rio de Janeiro, das diferenças que a Corte de Lisboa tinha com a de Madri e a liga que esta tinha feito com a França e por isso, se preveniu com as forças que podia para a defesa da capitania, distribuindo instruções, mas infelizmente os recursos da capitania se achavam em miserável estado porque estava em falta de soldados e artilheiros para a sua defesa. A situação de todas as fortalezas, principalmente a da Barra que ficava na vila do Espírito Santo estavam com suas peças de artilharia em estado precário. Argumentava ao rei D. João V da necessidade de serem construídas duas fortalezas para a defesa da capitania, porque, sendo Vila Velha o melhor sítio da capitania para se construir uma grande cidade por se encontrar entre o Rio de Janeiro e a Bahia, e sua barra dá fundo a qualquer navio de guerra. Por isso, com a construção das duas fortalezas, uma na ilha da Baleia e outra na ponta do Tagano, a defesa seria completa.

 

 

 

Carta de 28/09/1735 do capitão-mor Silvestre Cirne da Veiga ao rei D. João V – A.H.U

 

 ... e alem desta diminuição esta casta de artilharia não hé capaz de defençap.ahumacapp.nia de tanta importância assim pella altura em q. fica como por ter huma barra por onde podem entrar livre m. te os mayores navios e sendo tomada do inimigo com mais segurança se podem defender da gente da terra porq. assim como se passa a barra à mão esquerda na terra firme fica a villa do Spírito Santo q. não chega a trinta moradores todos pobríssimos, sendo o milhor sítio q. tem toda a capp.niap.ahuma grande cidade e juntam.te fica entre a Bahia e o Rio de Janeiro e mais perto deste q. não sairá navio de huma parte pa a outra sem muito perigo, e na própria barra podem dar fundo quais quer navio de guerra, pello canal delle ser muy limpo, e de hum lodo duro e menos fundo de tres braças. ...

 

Para defender a entrada desta barra a natureza a fez de sorte que me parece que com duas fortalezas ficará em termos de defensa...

 

... uma delas, e, a mais importante me parece se deve fazer em um ilhote que chamam de Baleia, que fica junto da entrada da barra, o qual ilhote tem de comprido oitenta e cinco braças ...

 

... a comunicação da terra firme para a do ilhote, com a circunstancia que podem entrar e sair os soldados sem serem notados dos navios por onde a artilharia do inimigo não pode fazer dano.

 

... Este tal ilhote tem dois morros separados um do outro, no meio fica uma baixa muito funda e nela um poço de pedra que a natureza obrou, bastantemente fundo com água doce que se supõe é nativa.

 

...A outra fortaleza me parece se deve fazer na Ponta do Tagano que fica perto do Ilhote da Baleia com se declara no Mapa esta tal ponta é tudo um rochedo que principia do mesmo mar por onde com menor custo se pode fazer esta fortaleza; desta ponta se descortina a vila de Vitória com distancia de mais légua e de lá se vê a fortaleza de S. João e descobre o Ilhote que pode varejar a artilharia por cima dele; nenhuma das fortalezas descobre a vila de vitória exceto a que fica pegada a dita vila; por onde me parece que a dita ponta é própria para uma fortaleza por ter as circunstancias que ensina o governador de praças e juntamente todo o navio que entra pela barra, vem buscando esta ponta e se não pode encostar para a parte da Ilha do Boi que lhe fica defronte por serem baixos.

 

... A fortaleza que chamam da barra ficará com distancia a dita ponta meio quarto de légua, desta fortaleza se não vê vila nenhuma nem se vê as fortalezas que estão feitas nem das que se fizerem nos sítios sobre ditos. A fortaleza de S. João me parece se deve conservar assim por ser a melhor de todas como também que a face que fica para o rio abaixo descortina todo aquele rio até a barra, a qual face tem onze aberturas de canhoneiras que guarnecidas com boa artilharia farão uma grande resistência; porem o que me parece que feita à fortaleza no ilhote da Baleia como dispõe a arte com bons artilheiros e soldados , é capaz de defender a entrada da barra de esquadra de navios de guerra; mas com a fortaleza feita na Ponta do Tagano me parece ficará mais segura a defensa da entrada barra.

 

Enquanto V.M. não for servido mandar fazer uma das fortalezas sobre ditas, bastam duas companhias, cada uma de cinqüenta homens ,uma de infantaria e outra de soldados artilheiros mantendo as guardas vinte e cinco de uma e vinte e cinco de outra, na mesma forma que a infantaria e sendo tempo de paz ainda que faça uma das ditas fortalezas, poderão suprir as ditas companhias, porem havendo guerras e fazendo-se as fortalezas é necessário ao menos outra companhia ainda na consideração que na ocasião do rebate acodem prontamente as ordenanças, e alguns soldados dela mais capazes , poderem dar ajuda ao manejo da artilharia para os artilheiros darem melhor expedição no uso da artilharia.

 

Em 1737 a capitania foi assolada pela seca e o próprio capitão-mor Silvestre Cirne da Veiga foi verificar o sítio onde deveria mandar construir as fortalezas. Vendo as dificuldades que teria de enfrentar com a seca e as marés, descartou a construção de uma fortaleza na Ilha da Baleia.

 

Carta do capitão-mor ao rei em 09/07/1737 AHU/APE.

... remeti a V.M. o mapa deste rio com que me parecia que para a defensa desta barra necessitava de duas fortalezas fazendo menção da Ilha da Baleia para uma delas, porem depois achei haver dois inconvenientes grandes, porque sendo tempo em que chove menos nesta Capitania, fui por terra reconhecer assim o poço que tem na Ilha da Baleia, como a fonte que fica em terra firme mais perto da dita Ilha, e achei, estavam secas e nesta ocasião levei comigo três moradores que vivem naquela costa e por eles alcancei que os ventos leste alteravam os mares de tal sorte que não se pode conservar entulho na distancia de cinqüenta e seis braças que tem da Ilha a terra firme. Fazendo nesta, exame donde chegava o mar quando havia ventos leste rijos, me parece que será despesa inútil intenção nem fazer ponte assim pela altura do Mar quando há estes ventos frios, como também pela força do mar, por ser costa brava, por onde me parece que na ponta do Tagano é própria para uma fortaleza, que defenda a entrada.

 

A ideia de se construir uma ou duas fortalezas na Ilha da Baleia e Ponta do Tagano, é descartada em carta de 22 de junho de 1740, em que o vice-rei e governador geral do Brasil, André de Melo e Castro (Conde de Galveias), dizendo que a matéria referente à fortaleza competia à experiência do Sargento-mor engenheiro que por várias vezes a pedido do conde de Sabugosa examinou o projeto e considerou a idéia supérflua extravagante.

 

AHU/APE. Carta ao Rei D. João V de 22 de junho de 1740.

 

Logo o dito Capitão-mor, ao que ele não obedece nem faz caso algum das ordens que lhe vão deste governo, interpretando-as na forma a que mais lhe convém para não lhe dar algumas; e o que mais é que se atreve a intrometer-se com a fazenda de V. M. por cuja causa esquece muitos meses o provedor, e foi necessário um acordo desta relação para .......mandou servir ...lugar ...escrivão da fazenda a quem tocava, mas por um coronel da ordenança; o qual passava a dita aos soldados, assinava os pés da lista, e fazia muito mais daquilo que talvez não caiba na faculdade e jurisdições de um Vedor Geral.

 

No governo passado entrou na louca pretensão de que se lhe falasse por senhoria; e continuou por muito tempo não despachar petição alguma, que lhe não dava aquele tratamento; quando ia ao mar, em ocasião que passeava algum ouvidor ou juiz de fora por aquela Capitania, se fazia salvar de todas as fortalezas; e esta deve ser a maior razão por que procura, e pretenda que se lhe de um escaler, para o que sendo necessita de menos que de trezentos mil reis em cada um ano.

 

Finalmente seria cansar a atenção de V. M. , se lhe houvesse de referir uma pequena parte da extravagância deste homem pelo que se faz precisamente necessário que V. M. lhe dê por acabado o seu lugar livrando-me a mim da precisão de os mandar recolher para esta praça, no caso que continue, e persista nos seus desatinos, sobre o que determinará V. M. o que lhe parecer mais acertado.

 

A Rel pessoa de V. M. guarde Nosso Senhor com os seus vassalos havemos mister.

 

Bahia, junho 22 de 1740.

 

 Em 1767, o engenheiro Jose Antonio Caldas, oficia ao conde Conde André de Melo e Castro (Conde de Galveas) e ao Governador D. Antonio Rolim de Moura, o qual lhe dá explicações:  ... e diversas informações sobre a mesma capitania e a construção da fortaleza da ilha do Boi.

 

Em oficio datado de 11 de junho de 1791, D. Fernando Jose rei de Portugal para Martinho de Melo e Castro, recomendava que fosse feita uma fortaleza na ilha do Boi. (História do Estado do Espírito Santo - Jose Teixeira de Oliveira).

 

Em 1800 o governador da capitania Antonio Pires da Silva Pontes, em carta a D. Rodrigo de Sousa Coutinho (conde de Linhares) informou sobre o parque de artilharia e as fortificações existentes na capitania. Sobre a fortaleza de Piratininga, primeira defesa da barra, comentou sobre seus graves defeitos e as providencias tomadas.

 

... Senhor,

 

Tenho a honra de por na presença de Vossa Alteza Real, pelo seu tribunal da junta da fazenda real, Erário dessa Metrópole da Bahia, que tendo eu tomado posse deste novo governo em 29 de março do presente ano, achei a principal fortaleza desta barra, que é a de Piratininga, guarnecida com seis praças de soldados e um inferior para servirem as 15 peças, onze dos quais montadas e quatro sem reparos; além de que a pólvora, que fora algum dia encartuchada e que se achava em assas de ruína não estava a ordem do inferior existente, porque a chave do caixão a tinha o paisano João Martins Meireles, com o título de capitão da fortaleza, assistindo na sua fazenda da Serra, distante seis léguas do presídio.

 

... A fortaleza de Piratininga, que é a primeira defesa da Barra, se achava alem dos graves defeitos de sua restrita fortificação, em um estado de abandono tal, como Vossa Excelência sendo servido, pode colher da copia do oficio que fiz ao tribunal da junta da fazenda da Bahia para obter largarem-me os rendimentos da capitania, e por não tomar o tempo de Vossa Excelência como repetir o mesmo; me referi a aquela conta que tem por número letra = A =

 

... Os oficiais destacados da Bahia tiveram meios para se irem escolhendo a sua caixa, e por conseqüência os soldados inferiores, e assim se dissipou esta guarnição ao ponto em que se acha a Fortaleza de Piratininga guardada por um inferior, e quatro a cinco soldados; e estes andando pela povoação de Vila Velha de forma que as lanchas e sumacas que são obrigadas a dar entrada naquela fortaleza traziam em sinal de obediência alguma peça de palamenta de artilharia. (AHU. APE).

 

Em 1801 o governador Silva Pontes informou ao secretário Interino da Marinha e Ultramar sobre o número de tiros para as bocas de fogo montadas na defesa da capitania.

 

 ... Ilmo. E Exmo. Sr.

 

Na ultima revista que se passou no fim do ano que acabou se acham montadas 44 peças, destas sete com os ouvidos muito grandes, mas assim mesmo tudo está carregado com 225 linhas de pólvora e encartuchado nos caixões respectivo estão 352; e nos barris se acham 5136 libras de modo que para vinte e uma cargas a cada peça faltam ainda 227 libras. E como para a mosquetaria se estão sempre reformando os números de cartuchos que tenho em vários depósitos, não se pode contar, sendo com quinze tiros cada peça (AHU. APE).

 

 

 

A FORTALEZA/PRESÍDIO

A fortaleza de São Francisco Xavier serviu de presídio em diversas ocasiões.

 

a) - Em 1808 houve desentendimentos entre o governador Manoel Vieira de Tovar e o Ouvidor resultando na capitania duas correntes; uma a favor ao Governo e outra contrária. Nesse conflito, o Governador mandou prender alguns desafetos, homens de bem, na fortaleza.

 

b) - De outra feita em outubro de 1814, em greve de fome, suicidou-se na fortaleza, o alferes de Divisão do Corpo de Pedestres de Minas Gerais Manoel Rodrigues de Medeiros. Conta à lenda que o citado, junto a outros fez parte na missão de prender o vigário de Benevente (Anchieta)a mando do Governo silva Pontes. Segundo intrigas havia dito que não tinha medo dos canhões vermelhos em alusão à farda do governador. O vigário chegou a Vila Velha, amarrado em cordas dentro de uma rede e levado preso ao forte. Diz à crônica que acabaram desgraçados, isto é, loucos ou arruinados todos aqueles que fizeram parte daquela escolta de pedestres.

 

O alferes Luiz Correia fora comandante de escolta e trouxe amarrado numa rede o vigário deixando-o preso no forte São Francisco Xavier, porque, dali não quis passar em protesto a terem feito o sacristão e outras pessoas desfilarem escoltadas e amarradas nas ruas de Vitória á toque de caixa, humilhando-os desde Benevente. (DAEMON)

 

O vigário foi remetido a Portugal e se apresentou de pés amarrados à rainha D. Maria I que censurou o procedimento do governador.

 

Contam que o Governador Pontes antes de morrer disse: morreria de desgostos que lhe acarretara um clérigo.

 

Visitas.

 

Na passagem do Imperador D. Pedro II por Vila Velha em 28 de janeiro de 1860, teve a oportunidade de visitar o forte, guarnecido na ocasião por praças da Guarda Nacional composta de cinco pedestres efetivos.

 

Leu na inscrição do portão os seguintes dizeres: Reinando muito poderoso Rei de Portugal D. Pedro II N. S. mandou fazer esta fortaleza Dom Rodrigo da Costa Governador e Capitão general d’este Estado do BrazilAnno de 1702.

 

 

 

A FORTALEZA/ESCOLA

 

a) - No forte funcionou por duas vezes a Escola de Aprendizes Marinheiros; a primeira instalada em 1862 e extinta em 1866, e, a segunda em 1909 e extinta em 1913.

 

b) - Em 1917 chega a Vila Velha o 50º Batalhão de Caçadores oriundo da Bahia, ficando acantonado em prédios alugados na sede do Município. Com o nome de 3º Batalhão de Caçadores instala-se em Piratininga em 1919 vindo a ocupar também o forte, funcionando ali o Comando (Casa das Ordens). Pela nova organização do exército, em 1964, deixou de ser o Terceiro Batalhão de Caçadores para fazer parte do Trigésimo Oitavo Batalhão de Infantaria, tropa única sediada em Vila Velha. Atualmente, transformado em museu militar da região e hotel de trânsito para oficiais militares.

 

PESQUIZADO POR EDWARD ATHAYDE DÁLCANTARA

QUARTA FEIRA, 02-11-2011

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