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Depoimento de Renato José Costa Pacheco

Renato Pacheco ainda jovem - Foto ilustração

O mundo vive uma das suas mais difíceis crises, a da transição de um tipo de energia para outro. Caso não haja esforços concretos para o desarmamento, estaremos próximos de uma hecatombe nuclear. A era Reagan, nos Estados Unidos, é bem diferente dos tempos de Carter. Korbachev dá um novo tom à diplomacia soviética. Os dois grandes, Rússia e Estados Unidos se enfrentam, enquanto periféricos como Líbia e Nicarágua sofrem as conseqüências.

O Brasil, atolado numa dupla dívida (interna e externa) mascara a realidade com planos cujos resultados só poderão ser aquilatados dentro de 10 (dez), 20 (vinte) anos. Como serão analisados os Sarney, Funaro, Sayad, Arida, Lara Rezende, autores e executores do plano de estabilização monetária, em futuro remoto? Lembrar-se-á deles a história? Lembrar-se-á ao menos do plano cruzado? A desigualdade social atingiu aqui níveis insuportáveis. Só a mudança de mentalidade, uma austeridade absoluta dos ricos e poderosos, poderia com nova divisão de renda, levar avante um projeto coerente de um Brasil novo.

Vamos ao Espírito Santo, que é o que mais nos interessa.

Vivemos uma da mais estranhas secas dos últimos 50 anos. Ninguém se lembrou, como no passado, de trazer Nossa Senhora da Penha em procissão à Capital. Mas vieram aviões do Ceará, tentando conjurar esta crise natural. Mas há a crise de caráter, a crise econômica, algum tipo de insatisfação generalizada, entre os funcionários públicos (inclusive magistrados que são como que a cúpula do serviço civil), lavradores, povo em geral. A que leva isto, ninguém sabe. É um ano eleitoral. O pequeno Partido dos Trabalhadores lançou seu candidato a Governador: o economista e professor Arlindo Villaschi. Alegam que ele serviu ao Governo da Revolução (1964 – 1985) durante certo período. O PFL lançará certamente o ex-governador Élcio Álvares. O PMDB, no momento o majoritário, na Assembléia, e detendo o Governo tem pletora de candidatos: Max Mauro, Sergio Ceotto, Nyder Barbosa, José Ignácio Ferreira, José Moraes... Antes do fim de maio terá escolhido quem concorrerá às eleições em novembro, mas estou escrevendo em 25 de abril de 1986, manhã fresca, um bentevi canta na vizinha, como me alertando de que está vendo tudo que eu penso e escrevo.

O pequenino Espírito Santo vive, assim, centrado, numa também pequenina política aldeã. No campo das idéias, no mundo das artes notam-se alguns esforços, mais ou menos isolados, sem que, todavia, ganhem maior repercussão, Morreu faz dias um grande escritor: José Carlos Oliveira, o “Carlinho” Oliveira, que nos idos de 50 nós chamávamos de “precoce”. Grande perda, vale ressaltar.

Que mais? Nada mais. O futuro que nos julgue, se houver futuro. O resto, o resto é silêncio.

 

Vitória, 25 de abril de 1986 (quinta-feira).

 

Livro: Testemunho de nosso tempo – 28 depoimentos sobre o mundo, o Brasil e o Espírito Santo no primeiro semestre de 1986. Coleção Cadernos de História, nº 38. Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Vitória (ES), 2001
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2014

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