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Discurso de Posse como Presidente da AEL - Ester Abreu Vieira de Oliveira

AEL - Academia Espírito-Santense de Letras

Querido Presidente da AEL, Professor Francisco Aurelio Ribeiro, queridos Acadêmicos e queridas Acadêmicas que tiveram a coragem de me eleger para Presidente desta Academia, sucedendo a uma gestão tão significativa para esta Casa. Boa noite, Presidente do IHGES que nos concedeu a acolhida para esta cerimônia, Dr. Getúlio Neves, também nosso confrade. Boa noite, digníssima e querida Professora Presidente da AFESL, Renata Bomfim; minhas queridas acadêmicas da Academia Feminina Espírito-santense de Letras, minhas senhoras, meus senhores, e familiares. Inicialmente quero agradecer a presença de todos os que aqui estão neste dia (noite) muito especial de ritual de passagem, e muito particular para mim, que assumo a Presidência de uma Entidade tão importante para a cultura do nosso Estado e à qual não havia sequer ousado sonhar para nela entrar.

Aqui estou graças aos audaciosos acadêmicos, Francisco Aurélio Ribeiro, que tão carinhosamente escreveu a acolhida, e a Miguel Depes Talon, que fez a entrada de meu currículo para inscrição na AEL, mas que, por impedimento de saúde de Francisco Aurélio, o Miguel leu o texto do Francisco, no dia 31 de maio de 1996. Contudo, pelo texto de acolhida dupla para esta Casa, escrita por um e lida por outro, torna a minha entrada nesta entidade sui generis. Dessa forma, tornei-me a quinta mulher a entrar numa Entidade de, naquela época, 75 anos de fundação. Lembrando que nela, até 10 de set. de 1981, só após 60 anos de fundada, havia acolhido uma mulher, a insigne escritora e política Judith Leão Castello Ribeiro, para ocupar a cadeira número 12, cujo patrono é Gonçalo Soares da França; hoje, esta cadeira é ocupada por nosso querido colega Gabriel Bitencourt, aceitando tão somente a partir de 42 mulheres como correspondentes e admitindo uma patrona: Maria Antonieta Tatagiba, em 1937.

Confesso, também, que jamais havia sonhado com este momento tão comovente: estar hoje aqui para ser a segunda mulher a assumir a presidência da AEL, seguindo a queridíssima Maria Helena Siqueira de Teixeira, que de 2002 a 2004, ocupou esta presidência. Apesar de sempre ter colaborado com os presidentes que a dirigiram atuei, silenciosamente, e jamais cogitei viver esta cerimônia em que me vejo implicada, pela confiança que em mim depositaram os confrades e as confreiras. A expectativa é de que possa exercer a presidência com dignidade, justiça e paz, respondendo a este crédito à altura.

Claro que não se deve agradecer ou culpar pela votação, mas assumir este desafio, complexo é verdade, para ser a presidente (a) de todas e de todos, com respeito, pois a Casa nos transcende. Tenho a convicção de que o tempo que nos espera será, como ocorreu nas diretorias anteriores, de luta por dignificar sempre nossa cultura, e para isso conto com o espírito de colaboração democrática dos membros desta nova diretoria, e o respaldo do conjunto dos confrades e confreiras.

A AEL foi fundada em 04 de setembro de 1921, graças à idealização do jornalista Sezefredo Garcia de Rezende, que, para tornar realidade seu sonho de no ES haver uma Academia de Letras, obteve o apoio do jornalista Elpídio Pimentel, que mais tarde tornou-se o primeiro secretário da AEL, e do advogado Alarico de Freitas, filho de Afonso Claudio de Freitas Rosa, também um dos primeiros acadêmicos e primeiro governador do nosso Estado, patrono da cadeira 27, à qual eu pertenço, e teve como primeiro ocupante Eurípedes Queiroz do Valle, que foi 22 anos presidente desta Academia, ou seja, de 1941 a 1963. Nesse percorrer de tempo, seus membros efetivos, cada um identificados com as inquietações de suas respectivas épocas, deixaram atrás uma esteira de valiosas contribuições culturais. Fui precedida por notáveis homens de valor e de ideal que por aqui passaram. Da conservação de suas memórias cuidarei como presidente da Instituição autofinanciável.

Assumo a responsabilidade de uma Entidade de que não somos proprietários, mas lutamos por sua conservação. Guardando o passado, aceleramos o futuro, protegendo o seu acervo moral e cultural, e, principalmente, a sua biblioteca. Amar os livros é um princípio que deve ser cultivado. Lembro-me aqui do percalço sofrido pela AEL, que reporta ao capítulo 6, da obra DON QUIXOTE, quando a governanta e a sobrinha de Alonso Quijano consideraram que os livros eram a causa de sua loucura e resolveram queimar a maioria das obras, depois de examinadas. Os nossos livros não foram queimados, nem analisados, mas "despejados" quando a AEL estava situada no terceiro andar do edifício do Banco do Crédito Agrícola do ES, na Rua Jerônimo Monteiro, 240, e o gerente do banco determinou que eles fossem lançados na rua, melhor na Praça Oito, todo o arsenal que compunha a biblioteca Saul Navarro. A causa era a modernidade. O maior edifício da cidade, na época, seria erguido e seria edificada a nova sede do Banco de Crédito Agrícola, ou seja, o tradicional edifício da cidade, o Ruralbank, inaugurado em dezembro de 1967. Dali, do chão da rua, os livros foram resgatados e transladados para o porão da FAFl. O busto de Saul de Navarro, pseudônimo do crítico literário Álvaro Henrique Moreira de Souza, um dos acadêmicos fundadores da AEL, um dos doadores para a AEL de obras da literatura latino-americana, estava ao lado dos móveis, mesas e cadeiras e os empilhados livros de literatura da AEL. Os objetos, a literatura, ali ficaram até que o Prof. Nelson Abel de Almeida, Presidente naquela época da AEL, os transferisse para a casa do Prof. Barbosa Leão, em 1985.

Como um rio que corre no sentido do mar, esta diretoria, lutará para a divulgação de nossos saberes e para a justiça de desigualdade social, mostrando o valor do livro e da literatura, que é irmã da liberdade. E, apoiando-se no Estatuto, a diretoria valorizará as publicações de obras já esquecidas de nossos escritores. Terão destaque, sempre que possível, as antologias, que por abarcarem a produção de muitos em uma só obra, dão oportunidade de o leitor percorrer pensamentos vários.

Esta Diretoria procurará dar continuidade aos esforços de notáveis presidentes, que por ela passaram, e que impuseram a seus sucessores, cada um à sua maneira, um procedimento irrepreensível na condução dos destinos desta instituição. Desde a primeira presidência, a do bispo diocesano D. Benedito Paulo Alves de Souza, cada presidência deu substanciáveis conquistas à AEL, uma associação civil, como reza o seu Estatuto, "de caráter cultural e sem fins lucrativos, de duração ilimitada, com sede e foro na cidade de Vitória" cuja finalidade é "o cultivo da língua nacional e da cultura literária", que tem como lema Semper Ascendere, e tem a sua sede na Casa Kosciuzko Barbosa Leão, na Praça João Clímaco.

Portanto, assumo esta Presidência sob um regimento claro e rigoroso, sabendo que terei horas extras de trabalho, mas viver na Casa Kosciuszko Barbosa Leão é estar sob o regime da memória, mas diante de situações materiais desafiadoras, que enfrentaremos entre todas e todos. Nós, acadêmicos e acadêmicas, não procuramos fazer como os faraós do Egito que a cada renovação eliminavam os documentos. Ao contrário procuramos preservar a memória, para, também honrar a alcunha de imortal. A Academia nos atrai com a sua aura. Cada Acadêmica, cada Acadêmico assegurou, assegura e assegurará, com a biografia de cada um e com a continuidade de sua produção e de sua ação, a permanência do brilho, a sua consistência, a respeitabilidade que identifica a AEL junto à sociedade estadual e à brasileira, senão à universal. Por que não? Peço licença para ler o poema Imortalidade da alma de Kosciuszko Barbosa Leão, cuja Epígrafe é "Penso logo existo", de Descartes.

 

Quando escrevo ou leio ou apenas medito

E, contemplando a vida, a beleza eu devasso,

Quer no infinito tempo ou no infinito espaço,

Eu penso que também meu viver é infinito.

E, pensando horas passo.

E contemplando em mim mesmo a beleza da vida,

Mas nasce o sol cantando uma vida em começo,

Há mocidade em tudo e eu, no entanto, envelheço,

Assisto, em minha tarde, ao sol em despedida.

E, a pensar, estremeço.

Com pouco mais é noite e eu hei- de ver que, então,

Deixará de bater, por fim, meu coração.

Mas verei? Como ver meu coração parar?

Meu cérebro estará desfeito, nesse instante,

Na terra que o tragar, e, sem o órgão pensante,

Acaso, após a morte, ainda eu conservo o olhar?

E penso, enfim, triunfante.

E triunfante, afinal, meu pensamento acalma.

Essa luz misteriosa é impossível que eu corte.

A vida eu vejo, pois, pensando em minha morte.

É minha alma imortal aos olhos de minha alma.

 

E, pensando, horas passo.

E, a pensar, estremeço.

E penso, enfim, triunfante:

A beleza da vida em mim mesmo eu devasso.

Eu jamais envelheço. No cérebro pensante.

Tenho uma luz sem fim, igual ao tempo e ao espaço.

 

Valendo-me do poema de Barbosa Leão, digo que guardo em mim "uma luz sem fim, igual ao tempo e ao espaço", esta luz me acompanhará e, com o apoio desta Diretoria, que ora se firma e que tão gentilmente aceitou-me para presidi-la, procurarei honrá-la e a nossa Casa, templo, parte do que nós capixabas somos e somos capazes de conservar. Nela estão nossos valores e expedi-los, cultivar a paz e a generosidade entre nós promover assuntos culturais, incentivando a leitura, indo a colégios, apresentando-nos como acadêmicos e falando de nossos escritores é nosso dever. Porém, camonianamente, reflito: "as coisas árduas e lustrosas se conseguem com trabalho e com fadiga", mas, em compensação, o prazer de fazer, e fazer bem feito engrandece a alma, e para isso esta Diretoria permanecerá fiel à cláusula pétrea do Estatuto e aos princípios que fundamentam a atuação da Casa.

Queridos acadêmicos e queridas acadêmicas e, principalmente, diletos membros da diretoria, que a assumem agora e que estará totalmente engajada na busca dos objetivos determinados no Estatuto desta Casa, estaremos juntos, porque assim nossa representatividade ganhará mais peso. A missão de cada nova Diretoria implica continuidade e acrescentamento. Tem sido assim e deste modo seguirá sendo.

Em nome da nova Diretoria, agradeço à que, agora, nos transfere o cargo, principalmente aos secretários que contribuíram para a memória da instituição, Matusalém Dias de Moura e Álvaro José dos Santos Silva e nossos membros da tesouraria, Anaximando Amorim e Wanda Alckmim, pelo zelo de com um pouco distribuir um muito. Ao querido Presidente, Francisco Aurélio Ribeiro, que com elegância, integridade, competência e dinamismo vem, nesses vinte um anos, conduzindo a AEL com brilho, agradeço toda a sua atuação. Enfim, esta diretoria agradece a todos que partilharam com a mesma igualdade com a instituição.

Termino citando Getúlio Neves em ESTUDOS DE CULTURA DO ESPÍRITO SANTO DE LIVROS, LEITURAS E LEITORES, sobre o valor das Academias de Letras que "[...] funcionam como arquivos de grandes obras, grandes a critério não só de opinião pública, a dos meios de comunicação, mas também da opinião popular; do gosto contemporâneo, em suma. E é nela que vai buscar ressonância a fama dos acadêmicos, na repetição de sua obra assim guardada, e isso de acordo com o gosto dos tempos".

Assim, assumo a Presidência desta Academia sob o resguardo da honra, do trabalho, e da vida comunitária. Mas contarei com a experiência, cumplicidade e contribuição de toda a Diretoria. Seus esforços são imprescindíveis, pois se acontecer errar, o erro acontecerá com generosidade. Pesa sobre mim, nestes instantes, o aviso de que responderei, junto com esta Diretoria, e em estreita aliança com todos os Acadêmicos, pelo difícil e digno dever de conduzir, em 2021, a celebração do I Centenário da AEL. Uma data de emancipação do nosso espírito, e de história da Academia, Casa que promove a cultura da paz com o lema Semper Ascendere.

 

Fonte: Revista da Academia Espírito-Santense de Letras, vol. 1 – 1998, Vitória/ES
Autora do texto: Eester Abreu Vieira de Oliveira
Professora e Escritora. Pertence à cadeira 27 da AEL.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2021

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