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Dona Domingas - Por Elmo Elton

Monumento - Mendiga Domingas

Magra, negra, feia, desdentada, embodocada, lenta nos gestos e no andar, voz grave, parecendo de homem. Segundo suas declarações, teria sido escrava, o que talvez fosse real, tanto que, nos idos de 1950, já se dizia com mais de cem anos. Tipo sisudo, ninguém jamais a viu sorrindo, era encontrada, aqui e ali, arrastando, quase sempre, alguma acha de lenha comprida ou cascas de madeira, quando não, de saco às costas, catando papéis. Mas o interessante é que, mesmo sendo um tipo popular, não era molestada pelos moleques, tal o respeito que inspirava sua exótica presença. No bairro de Santo Antônio, onde residia, acompanhava, cabisbaixa, as repetidas procissões organizadas pelos padres pavonianos, aos quais encomendava missas em intenção da alma de escravos, mediante a prévia entrega de espórtulas, nem sempre aceitas pelos sacerdotes.

Carlo Crepaz, escultor italiano radicado em Vitória, modelou-lhe a figura com notável precisão, conforme bronze, sem título nem legenda, ora colocado (mal colocado) em área lateral da escadaria do Palácio Anchieta, nesta cidade.

Assim a retratou um de nossos cronistas:

"Para Dona Domingas não havia domingo. Era a semana inteira carregando um peso maior que sua própria dor. A velha vagava no vazio das ruas, no sentido oposto ao da esperança. Caminhava lado a lado com o tédio e o bonde. Um farrapo arrastando farrapos e restos.

A igreja de Santo Antônio, diariamente, recebia em seu canto o corpo magro da velhinha, que ficava horas aos pés da Milagrosa.

O andar, trôpego; o falar, nenhum; a comida, escassa; o peso, enorme. A velha no vácuo, bailando, e a amargura dos que escarneciam de sua travessia. Mas, no fim da longínqua estrada, era reconhecida pelos cães que ladravam, lamuriando tamanha dor.

Dona Domingas no crepúsculo da avenida Capixaba de antigamente, catando restos do dia. A caminhada para Santo Antônio, enquanto o bonde passava, a via crúcis diária. A solidão em vida, a solidão da estátua no jardim vazio, sem namoradores nem oradores, sem madrugadores nem pregadores, sem remessas nem promessas, sem papéis nem cem réis.

Dona Domingas vagueia pelas ruas etéreas do infinito, arrastando no ombro uma multidão de estrelas partidas ao meio, andando vagarosamente na via láctea em direção do Paraíso.

O bairro de Santo Antônio, como ápice das lágrimas que nunca escorreram de seus olhos, o Morro do Pinto, a morte na subida/ a diária agonia. O morro como Calvário, a morte como alivio.

O novo Santuário inaugurando no sábado, e Dona Domingas rastejando pelas ruas. A igreja se erguendo/ela levando suas lágrimas nas costas. A tecnologia chegando, e ela conduzindo a tristeza para seu casebre na colina. O bonde desaparecendo de vez na esquina, e ela desaparecendo na encruzilhada, sem asfalto, para lugar nenhum, arrastando o silêncio.

Parecia uma santa, solitária e sóbria. O universo é demais para sua corcunda. Mas, para ela, a bondade não está longe, encontra-se embrulhada no canto de seu coração.

Seus sonhos eram farrapos e seu futuro era chegar ao final da avenida. Seus conflitos não se transformaram em gritos, seus minutos eram numeradas, mas para ela não existiam horas: era a vida inteira como formiga carregadeira.

Ficaram apenas as saudades da menina brincando de carregar bonecas de uma casinha para outra. Bonecas de pano, pedaços de nada.

Agora só restam os pássaros, poucos, que pousam em seu ombro para aumentar o peso e a dor. Agora só restam os passos, lembranças, ecoando na imensidão. Restam apenas os restos, escassos, papéis que se espalharam por estradas inacabadas, sem fim.”(1)

 

Notas

(1) TATAGIBA, Fernando. Invenção da saudade, Vitória, 1983.

 

Fonte: Velhos Templos e Tipos Populares de Vitória - 2014
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter Aguiar Filho, fevereiro/2019

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