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Fotógrafo Paes “... Criador de Lindas Quimeras...”

Foto: Otávio Paes, década de 30

“É necessário ver com os próprios olhos para apreciar a rapidez e o resultado da operação. Em menos de nove minutos, o chafariz do Lago do Paço, a Praça do Peixe, o Mosteiro de São Bento e todos os outros objetos em volta foram reproduzidos com tal fidelidade, precisão e detalhe que se percebia facilmente que a coisa foi feita pela mão da natureza, sem qualquer interferência do artista.”

 

Foi assim que o Jornal do Comércio noticiou em 17 de janeiro de 1840 a primeira demonstração feita na América do Sul de um aparato mecânico que capturava a luz e fixava as imagens em forma de miniatura absolutamente fidedignas. O operador do equipamento era o abade Louis Compte, recém-chegado da França, onde a engenhoca foi patenteada por um da Daguerre, alguns meses antes. Ainda hoje há quem acredite nas palavras finais do jornalista e continue a alardear a imparcialidade do processo fotográfico...

Com o tempo, muitos outros preferiram apostar nos infinitos recortes da realidade proporcionados pela objetiva, na manipulação da luz, nas manhas do laboratório. Além do retratista, “leitor” passivo da “realidade”, surgiu o artista-fotógrafo, capaz de re-interpretar o mundo que o cerca. Capaz, sobretudo, de tornar a fotografia um produto da sua impressão – particular e absolutamente parcial – acerca da personalidade de seu modelo, que pode ser tanto uma beldade de longas madeixas, quanto um recanto bucólico de sua cidade.

Esta ilha já teve o prazer de “posar” para alguns mestres. A visão da entrada da barra e da pequena cidade “espremida entre o mar e a montanha” é descrita como impressionante pelos forasteiros. Os navios, esses belvederes privilegiados, oferecem ao visitante uma visão sui generis, já captada por gênios do porte de Marc Ferrez. O antropólogo Lévi-Strauss, que segundo Caetano Veloso detestou a baía da Guanabara, significativamente encerra o seu “Saudades do Brasil” com uma doce imagem do porto de Vitória.

Houve um certo jovem casal de fotógrafos – jovens na idade e na profissão – que também se encantou com o cenário de “presépio”. Vinham no “Ita do Norte” tentar a sorte em São Paulo. A escala seria rápida, mas suficiente para conhecer a cidade num carro de praça. Voltaram ao navio somente para retirar a bagagem. Ele se chamava Octavio e ela Joanita. O sobrenome, talvez algum leitor mais atento já tenha observado em algumas publicações desta Prefeitura. Em belas fotos de Vitória na década de 30, às vezes é possível notar no canto uma pequena assinatura branca e rebuscada, que confirma ser aquela a obra de um artista: Paes.

Voltando ao cais do porto, Octavio, Joanita e a pequena Yvonette desistiram da viagem para São Paulo e se instalaram no Hotel Central, na praça Oito. Com a redução das economias – eles ainda não tinham estabelecido seu atelier -, mudaram-se para uma pensão. Em pouco tempo, Joanita comprou a pensão e passou a sustentar a família com o fornecimento de refeições. As iguarias logo se tronaram famosas na cidade pois eram preparadas com o mesmo capricho com que ela costumava revelar e copiar as fotos do marido.

Estas artes eles haviam aprendido ainda no Nordeste, quando Van der Lynden, um alemão, não se sabe como perdido em Garanhuns, presenteou o amigo Octavio com um livro sobre fotografias. O moço, que já fora vendedor de carros em Maceió e colchoeiro em Quebrângulo, rapidamente decidiu enveredar por este novo caminho. De volta a Maceió, abriu um atelier onde pode colocar em prática todas as técnicas absorvidas no livro. Uma dessas técnicas era a “iluminação francesa”, que, utilizando uma fonte natural de luz sobre um quadro branco, iluminava por reflexão o rosto do modelo, enquanto no teto alternavam-se forros azuis e brancos.

Quando finalmente conseguiram montar seu primeiro atelier em Vitória, à rua 1º de Março, venderam a pensão. Mas os tempos continuavam difíceis. Certa vez, em ano de eleições, o Paes saiu pelo interior do Estado fazendo fotos do povo para título de eleitor. Durante alguns meses, andou pelos mais distantes vilarejos e em locais tão ermos que às vezes seu almoço era alguma fruta roubada. Os negativos eram mandados para a esposa em Vitória. D. Joanita continuava a trabalhar na foto durante o dia e à noite revelava as pequenas chapas de vidro chegadas do interior. Depois de copiado, o material era entregue ao candidato que então providenciava os títulos, Tudo era bastante lógico: o povo não se interessava por eleições, então os candidatos deveriam se interessar... Nada mais natural em tempos de voto de cabresto.

Mas o Paes era na verdade um apaixonado pela foto de estúdio, onde Lee poderia “brincar” com os jogos de luz. Chegou mesmo a criar uma técnica de “fotografia negra” onde todo o rosto da pessoa era escurecido e apenas um detalhe da fisionomia permanecia iluminado, permitindo a identificação do modelo. Chamava-as caricatura e com elas retratou todos os figurões de Vitória à época. Depois de pronta a “caricatura”, levava-a à noite ao Bar Hamburgo, cervejaria que reunia na Duque de Caxias a intelectualidade de antanho, a fim de que o retratado a autografasse.

Em menos de dez anos Octavio Paes tornou-se o principal fotógrafo de Vitória. O mais requisitado e o mais habilidoso. O anúncio publicado nas revistas dizia: “Comparece a todas as solenidades, festas íntimas, casamentos, batizados e aniversários.” Estava sempre presente nos grandes bailes do Clube Vitória, Álvares e Saldanha. Nos primeiros tempos, ainda usava o “flash dinamite”, movido a pólvora, que enchia de fumaça os mais concorridos salões. Muitas destas fotos, mais tarde, eram publicadas na Vida Capichaba, sublinhadas por legendas do gênero “senhorinha (...) fino ornamento da sociedade vitoriense”.

O trabalho para as revistas não era remunerado. Apesar de ser a mais lida do estado, a Vida Capichaba nunca pagou os fotógrafos e nem mesmo seus redatores. Almeida Cousin, Carlos madeira e o jovem Aníbal de Ataíde Lima, então com seus 18 anos, recém-saído do Ginásio Espírito Santo, escreviam na revista quinzenalmente, apenas pelo prazer de publicar seus trabalhos.

Mas a parte interessante da obra de Octavio Paes provavelmente são suas impressões da ilha. Enquanto outros fotógrafos se preocupavam apenas com a confecção de meras “vistas” estáticas de Vitória, o Paes sempre procurava ângulos inusitados. Para as panorâmicas, subiu a pé, com o equipamento às costas, praticamente todos os morros de Vitória e da anexada cidade do Espírito Santo. Suas composições detalhistas procuravam sempre incluir a baía que o seduzira anos antes. Todos os recantos – e encantos – entre a barra de Vitória e a ilha – mesmo – do Príncipe foram captados com refinamento e atmosferas que aos olhos desavisados passariam despercebidas.

Satisfeito com os recursos que a sua velha câmera de lente “anastigmática” poderia oferecer, ou talvez pouco afeito às inovações da modernidade, o Paes nunca se adaptou às câmeras portáteis e aos negativos de pequenos formatos. Sem Joanita – que faleceu em 1956 – Paes casou-se novamente com a jovem Vivina que, apesar de grande companheira, não conhecia os segredos de seu ofício. Com o peso dos anos dificultando o transporte do pesado equipamento para as festas, e as noivas exigindo fotos coloridas, o artista chegou a conduzir 3.000 visitantes a uma de suas exposições só nos dois primeiros dias, viu-se limitado às fotos para documentos. O tamanho 3 x 4 obviamente não lhe permitia mais recriar o amanhecer da baía de Vitória, mas em contrapartida é ideal para retratar o quão volúvel – senão volátil – pode ser a memória de uma cidade.

 

Por: Cíntia Moreira Costa
Livro: Escritos de Vitória. 15 - Personalidades de Vitória. 1996
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2012 

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