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Hermógenes – Por Renato Pacheco

Ilustração de Moema Rebouças

“Na sexta-feira eu tinha atingido o fim da picada. Era preciso dar uma de índio. Desaparecer por aí. Sem destino. Aliviar a cuca. No sábado o ponteiro apontou o rumo norte...”

Com este desabafo, próprio do cotidiano contemporâneo, Hermógenes Lima Fonseca inicia seu curioso livro Viagens de Inspeção, Vitória, 1982, em que narra as andanças que, com Carmélia Maria de Souza, fez pelo norte do Estado, até a terra natal, Conceição da Barra.

Conceição da Barra se chamava Barra de São Mateus e lá Hermógenes nasceu, no sítio das Perobas, em 12 de dezembro de 1916, ouvindo o marulhar do rio Itaúnas, filho de Manoel Fonseca Filho e de Dona Rosa de Lima Honorato.

Naquela região, antes do asfalto e dos eucaliptos, havia centenas de pequenos sítios produtores de farinha de mandioca e beijus de todas as espécies e de todas as delícias, entre camarás e sapezais, aqui e ali uma casa de taipa, adrede preparada para os cultos afro-brasileiros, cabuleiros e centenários convivendo com as festas do Ticumbi, e tornando a terra produtiva na justa medida para a sobrevivência da espécie.

Nas viagens, Carmélia e Hermógenes, no automóvel Bonificácio, com seus pneus precários, desfilam por vilas e cidades, param em postos de combustível (“Nem tigre nem elefante são bichos nacionais, eu vou abastecer meu carro no Posto da Petrobrás”, na fala do cantador popular), mercados, festas populares, as dunas de Itaúnas, cachacinhas e farofa de peixe seco, a fossa da última excursão, sempre há uma caminhada antes da derradeira, e muita angústia ante o espanto do incognoscível.

Este Hermógenes que fugia de Vitória foi um dos mais atuantes moradores de nossa capital. Vereador mais votado em 1945 e 1950, pelas legendas do PCB e do PR, tornou-se famosa sua luta heróica em defesa do então prefeito Ceciliano Abel de Almeida, que entendia ser o mandato dos edis gratuito, bons tempos.

Contador e depois advogado, trabalhou na Western Telegraph Co., na Receita Federal, em Manoel Francisco Gonçalves, e se notabilizou como perito em dezenas de processos cíveis e comerciais de nosso foro além de respeitado líder sindical, este foi o ganhão-pão, o lado profissional de Lima Fonseca.

Hermógenes. A grandeza de nosso amigo está no sonhador.

Sonhador, criou uma família, com Dona Maria Augusta, sua primeira companheira, pai de Luíza, Maria Angélica, Rita, Raquel, Manoel, Margarida, Marília, Marcus, genros, noras e uma penca de netinhos, para os quais inventou histórias maravilhosas.

Sonhador, criou uma utopia, o sítio Pixingolê, em Conceição da Barra, que se tornou um centro cultural popular do norte do Estado, um estado sutil de espírito, uma editora, um local onde se “astuciam astúcias” e onde se forjou o magnífico trabalho fotográfico e de vídeo do Rogério Medeiros, cinematográfico e gráfico de Moema Rebouças e as gravações importantíssimas do mestre Aloysio de Alencar Pinto, que imortalizaram Pedro de Aurora, nosso maior poeta popular.

Sonhador editou livros de sua imaginação fértil, alicerçados na boa e santa sabedoria popular, entre os quais cito A vila de Itaúnas, 1980; O homem que pariu manga, 1982; Seu Lúcio, o patriota e o país dos bichos, 1983; Mensageiro dos ventos, 1983; Histórias de bichos contadas pelo povo, 1984; Curubitos, 1992; Tradições populares no Espírito Santo, 1991; Folclore no Espírito Santo, 1993; Contos do pé do morro, 1993; chega, não?

Sonhador, uniu-se a mestre Guilherme dos Santos Neves, que ironicamente o chamava de “meu braço esquerdo”, e muito fez pelo estudo do folclore capixaba. Sonhador, idealizou a Vila dos Confins, com sua capelinha, coretos, botequins, pensões, verdadeiro museu vivo, que nunca saiu da imaginação. Mas foi um sucesso a recriação, em 1984 e 1985, do Auto do Natal, com pastorinhas e folias de reis, no adro da Catedral do Arcebispo de nossa Capital, prova de quanto devemos a ‘Seu Armojo’, como o povo o chama, fraternalmente.

Da missa, não disse ainda nem um terço.

Prefaciando Tradições populares no Espírito Santo, a folclorista Adelzira Madeira disse que Hermógenes “conhece como ninguém o folclore do norte do Estado, suas estórias, seus tabus, suas cantigas e folguedos. Hermógenes é mestre, embora sem diploma pendurado na parede, sem anel de grau no dedo. É ‘notório saber’ das coisas do povo, que aprendeu no convívio com as gentes simples de Conceição da Barra, São Mateus, Itaúnas e adjacências, chão onde pisa como nativo, terra que não lhe esconde mistérios”. Verdade verdadeira.

Uma vez, Hermógenes poetou:

 

Sinto que somos sós.

Nascemos sós.

Vivemos sós dentro de nós.

Dentro de nós nos recolhemos

e no nosso íntimo

sós nos encontramos com nós mesmos,

e criamos nossas fantasias.

Sós, e ninguém nos assiste,

e nem pode nos assistir.

Dentro de nós mesmos, indevassavelmente.

 

Em suas viagens de inspeção pelo mundo em fora, este poema, denominado “O último pôr-do-sol”, como que firma uma verificação derradeira, auditoria definitiva que erige para o menino do sítio José Alves, nas Perobas, margem do Itaúnas, para o aluno do padre Leandro Del Uomo, do Ginásio Espírito Santo, e do Colégio Filgueiras de Contabilidade, um monumento de ouro puro, trançado com os fios da amizade e cujo pedestal se espraia do Mucuri ao Itaúnas e até o pico da Bandeira, onde “sós, criamos nossas fantasias”.

 

Fonte: Era uma Vez... Hermógenes Lima Fonseca - Um anjo bom que passou por aqui, 1997
Autor: Renato Pacheco
Ilustração: Moema Rebouças
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2014


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