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Versos Populares da Virgem da Penha

Capa do Livro de Maria da Glória de Freitas Duarte, 1990

É bem grande a variedade de versos populares conhecidos na antiga Vila Velha, porém vamos focalizar apenas alguns, na impossibilidade de transcrevermos todos.

Homenageando a SS. Virgem da Penha, existe um número incalculável de versos. Além dos já registrados em capítulos anteriores podemos citar alguns que se relacionam com fotos conhecidos:

"Nª Sª da Penha

é madrinha de João

eu também sou afilhada

da Virgem da Conceição".

Isto porque, com a grande devoção à Senhora da Penha, era rara a família que não tomava a Virgem por madrinha de um dos filhos.

Referindo-se ao local onde está situado o Convento:

"Nossa Senhora da Penha,

onde ela foi morar,

em cima de uma pedra,

toda cercada de mar".

Em 1856 alastrou-se pela cidade um surto de cólera. Seu povo já andava amedrontado com tanta epidemia, pois antes, a varíola e a bubônica já haviam dizimado muitas vidas. Os moradores locais, com seu profundo espírito de religiosidade e com uma fé viva e ardente em Nª Sª da Penha, recorrem à Sua proteção.

Sua coroa sai em procissão, visita a cidade e lugares circunvizinhos. Os efeitos da epidemia foram atenuados. Em agradecimento pela graça alcançada, apareceu esta quadrinha, que se tornou popular, parte de uma glosa feita sobre a coroa de Nossa Senhora:

"Nossa Senhora da Penha

não veio, porém mandou

Sua sagrada coroa,

e a epidemia acabou".

Quando se desejava mandar algum recado indireto a outra pessoa lançava-se mãos dos versos populares que eram declamados ou, mais comumente, cantados nas reuniões familiares ou nos cateretês:

"Lá vai a lua saindo,

redonda como um vintém.

Nª Sª da Penha

dai vergonha a quem não tem".

ou então:

"Quem te ama tem bom gosto,

quem te adora é feliz,

quem disser pelo contrário,

mente, não sabe o que diz."

Numa das tradicionais reuniões, uma jovem foi cantar o seu versinho, mas depois de iniciá-lo esqueceu o final. Murmúrios entre os presentes fizeram com que a jovem, muito encabulada, se retirasse para o interior da casa. Um moço entrou para o meio da roda e cantou:

 

"No errar de uma cantiga,

não se deve admirar,

que o melhor atirador

erra um pássaro no ar."

Quando um amor estava em perigo de ser arrebatado por outra pessoa:

"Meu anel de pedra verde,

que eu mandei fazer em Roma.

Tenho fé na Mãe da Penha,

que meu amor ninguém toma".

E assim era Vila Velha, uma terra ditosa, e sua gente experimentava a verdadeira felicidade, pois esta consiste em cada qual se contentar com o que tem, embora procurando progredir, o que instinto é natural no homem.

 

Fonte: Vila Velha de Outrora, 1990
Autora: Maria da Glória de Freitas Duarte
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2015

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