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Ano de 1592 - Por Basílio Daemon

O mapa que o pirata inglês Tomás Cavendish não tinha

1592. Chegam neste ano à barra do Espírito Santo os navios corsários comandados pelo célebre pirata inglês Tomás Cavendish,(122) que viera no ano antecedente a tentar fortuna na América, tendo saqueado a capitania de São Vicente e queimado a povoação deste nome; partiu para esta capitania tomando em caminho um português que foi obrigado a servir de prático da barra, e nela ao entrarem os navios, não se achando o fundo que se desejava, foi o mesmo mandado enforcar por Cavendish na verga de uma das embarcações.(123) Mandou então barra acima três lanchas para a descoberta e encontrando estas três navios perto de Vila Velha ou do Espírito Santo, pretendeu o comandante que fossem aprisionados e não o podendo ser por aproximar-se a noite e recearem, limitaram-se a cortar as amarras. Nesta noite todas as montanhas em redor até Vila Velha foram pelos povoadores circuladas de fogueiras, pelo que Cavendish não se animou a passar o canal da barra, receoso de encalhar os navios, pelo pouco fundo que encontraram na barra, não ter prático e poder cair em alguma cilada. Ao amanhecer do dia seguinte, largaram as lanchas com oitenta homens comandados pelo capitão Roberto Morgan, com ordem de não saltarem em terra, não pelo receio dos navios avistados no dia antecedente, pois estes tinham sido rebocados por canoas durante a noite para a frente da vila da Vitória, mas por alguma surpresa que se lhes pudessem fazer.(124) Tinha ainda o povo, durante a noite, edificado abaixo da hoje cidade duas fortes trincheiras, ambas cobertas por florestas e rochas dos lados da baía, as quais se achavam bem preparadas e municiadas.(125) Ao aproximar-se Morgan a um dos fortes, o do lado do norte, fizeram-lhe de dentro fogo, o que fez Morgan mandar retroceder, segundo as ordens que havia recebido; os marinheiros, à vista disto, chamaram-no de covarde, o que encolerizou Morgan e por essa causa mandou incontinenti seguir para diante, e que depois de saltarem em terra atacassem-no os marinheiros. Ao aproximarem-se, porém, do forte que iam atacar, o do lado do sul, que não havia sido visto por estar encoberto por entre dois montes, rompeu fogo, matando um homem e ferindo dois, pelo que resolveu Morgan que uma lancha atacasse um, e outra o outro forte. A que atacou o do norte abicou a terra e, depois de renhida defesa, a trincheira foi tomada, mas a outra lancha, que era de muito calado, ao aproximar-se à praia encalhou, saltando a gente para a terra. Com dez homens escalou o capitão Morgan o forte, que era de pedra e barro e de dez pés de altura, mas os índios e portugueses, atirando calhaus contra eles, mataram logo Morgan e cinco homens, fugindo os restantes feridos e debaixo de um chuveiro de flechas para a lancha, não escapando dos quarenta e cinco homens que havia nesta lancha um só que não estivesse ferido, ficando ainda prisioneiros alguns. À vista disso, reuniram-se os outros e partiram a ajudar a lancha que estava encalhada para a safar, pois que exposta como estava não escaparia ninguém; mas aproximando-se que foi também encalhou esta segunda lancha, pelo que tiveram de sofrer os piratas o fogo e flechadas das duas baterias, embora dez homens dos mais animosos estivessem sempre a fazer fogo pelas seteiras, enquanto outros, nadando, se atiravam a todo o risco a safar as lanchas. Cavendish veio então acudir ordenando que se remasse para fora, o que fizeram, mas depois de deixarem uma grande quantidade de mortos e muitos despojos, parte dos sitiadores com água até o pescoço foram barbaramente abandonados pelos seus, sofrendo ainda Cavendish ao sair barra fora o fogo do forte de Piratininga. Os fortins e trincheiras de que acabamos de falar tinham sido construídos durante a noite, como já dissemos, com pedras, escavações e taipas, um pouco acima da atual fortaleza de São João e que fora atacada primeiramente; o outro era em frente a este e do lado do sul, abaixo e na falda do Penedo, onde existe uma bocaina em frente às pedras do Baú, e foi nelas que encalharam as duas lanchas, lugar muito bem escolhido para esse fim, e que fomos investigar, encontrando ainda os vestígios desse antigo fortim e a escavação ali feita. Cavendish, que se considerava forte com seus três navios de alto bordo e duas galeras, correndo o mar a fim de reparar sua fortuna que havia esbanjado, cometendo muitas atrocidades durante o corso, veio pagar em São Vicente, Santos e Espírito Santo a malvadez de sua vida de pirata, e tão grande foi a decepção por que passou e prejuízos que teve que, fazendo-se ao mar de volta para a Europa, não teve a dita de ali chegar, pois morreu em viagem ralado de desgostos e apaixonado do resultado que sofrera no tão funesto ataque a esta capitania, onde perdera os seus melhores companheiros.(126)

 

Notas

 

122 “Cavendish visitou o Espírito Santo em 1592.” [Cartas de Anchieta, Rio, 1933, notas 327 e 349, apud Gentil, Anchieta e o Estado, RIHGES, p. 76]

123 “…até um português se encarregou de meter os dois barcos dentro da barra do Espírito Santo, lugar a que especialmente desejavam chegar, pela abundância de todas as coisas que ali pensavam achar. […] Os botes entraram a barra e descobriram três navios ancorados perto da vila. [Southey, HB, II, p. 17-8]

124 “As piratarias do inglês Thomas Cavendish em Santos e outros povoados da costa em geral com bom êxito, animaram-no a tentar igual fortuna no Espírito Santo. Para aí se dirigiu e dando fundo na baía do mesmo nome despediu dois botes com 80 homens comandados por um capitão Morgan...” [Rubim, B. C., Memórias, p. 56-7]

125 (a) “Um dos batéis foi ter diante de um fortim, donde os nossos repeliram os portugueses.” [Knivet, Notável viagem, in RIHGB, 1878, II, 41:185-272, p. 203] (b) “…o fortim, a que se refere Knivet na sua narração de 1592 não é mais do que uma trincheira levantada em algumas horas pelos moradores da vila, ao saberem da aproximação de Cavendish.” [Souza, Fortificações, RIHGB, 48, II, 71:98-9] (c) “Durante a noite tinham os portugueses rebocado os navios para defronte da vila […]; meia légua abaixo haviam erguido duas trincheiras pequenas, ambas dominadas por florestas e rochas sobranceiras…” [Southey, HB, II, p. 19]

126 Southey, II, p. 17-21 

 

 

Nota: 1ª edição do livro foi publicada em 1879
Fonte: Província do Espírito Santo - 2ª edição, SECULT/2010
Autor: Basílio Carvalho Daemon
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2019

 

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