Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

O assassinato de Reneê Aboab - Por Sérgio Figueira Sarkis

Parque Moscoso - Postal

Em meados da década de 1950, um crime famoso agitou o noticiário nacional escrito e falado. O crime da francesa Reneê Aboab, no Rio de Janeiro. O assunto tomou conta dos jornais, pois a jovem havia sido encontrada morta em circunstâncias misteriosas e não se tinha ainda indicações do seu assassino. E a imprensa explorava todos os possíveis suspeitos, entre amigos, namorados etc.

Vitória fervia com a vida nos clubes, nas quais desfilavam as debutantes do ano, os 10 brotos de Cacau Monjardim e Hélio Dórea, a rainha da Festa da Primavera... Vez por outra, havia também festas em residências particulares, basicamente para comemorar aniversários de 15 anos de moças da sociedade local.

Uma dessas foi a da jovem Geny, filha do desembargador Eurípedes Queiroz do Valle. Encontro bonito, realizado no casarão situado na Rua Vasco Coutinho, no Parque Moscoso.

Praticamente todo o mundo social de Vitoria estava presente. A sala foi transformada em salão de baile, onde todos dançavam ao som de músicas tocadas na eletrola hi-fi da casa.

Estávamos eu e um grupo de amigos conversando e apreciando a movimentação, no jardim, quando somos despertados por uma pessoa nos chamando do lado de fora. Era o comissário Américo, apelidado por todos como Américo X9, titulo de uma revista famosa na época, que tratava de assuntos policiais.

Relatou-nos estar de plantão e sua delegacia ter recebido um telefonema do Rio de Janeiro, onde tramitava o inquérito do crime da Reneê Aboab. Pediram para investigar a presença de um jovem francês, suspeito do assassinato, que teria vindo se homiziar em Vitoria.

Como tratava-se de um rapaz jovem, bonito e elegante, Américo, fazendo aflorar sua veia de investigador, tão logo recebeu a informação, fez um levantamento das festas transcorrendo na capital, naquele momento.

A única era, exatamente, a de Geny Queiroz do Valle. Apelou para nosso grupo verificar a possibilidade do possível assassino estar presente, dando-nos suas características. Na mesma hora, um de nossos amigos, Roberto Amaral Carneiro, a época escrivão de Policia, disse ter visto uma pessoa com as indicações do suspeito dançando com uma moca na festa.

E apontou em seguida para o mesmo, pois podia ser visualizado de onde estávamos. Imediatamente, Américo procurou o desembargador Euripedes, relatando o fato e pedindo permissão para dar voz de prisão ao rapaz. Doutor Euripedes rogou ao Américo para fazer a detenção fora do espaço da sua residência, ou seja, na rua. Ficou então encarregado da missão de levar o acusado para fora da casa o colega escrivão, Roberto Carneiro.

E assim foi feito. Carneiro aproximou-se do casal e, num tom bastante simpático, pediu ao jovem que o acompanhasse, pois tinha um assunto a tratar com ele. Prontamente, sem desconfiar de nada, o “Francês" o seguiu até à rua, quando então o Américo pode cumprir sua missão.

Deu-lhe voz de prisão, colocando-o na viatura policial, indo para a Chefatura de Policia, localizada na Rua Graciano Neves. Nosso grupo, imediatamente, seguiu atrás, pois não poderíamos perder nenhum lance desta historia.

Conseguimos chegar primeiro que o Américo e nos postamos a porta da Chefatura, a espera. Chegada a comitiva policial, a primeira pessoa a ser visualizada pelo suspeito foi Carneiro, a quem censurou por têlo enganado. Carneiro, querendo se justificar, retrucou:

— Eu não tenho nada com isto. Lavo as mãos assim como ‘Afonso’ Pilatos lavou.

Acredito particularmente que o Carneirinho fez uma gozação com a frase bíblica referente a Pôncio Pilatos. Levaram o Francês para a sala do delegado de plantão, doutor Amúlio Finamore. Este, apesar da atividade exercida, era pessoa boníssima. Mas, querendo dar uma de durão, não só para o suspeito mas para a plateia presente, vira-se para o mesmo e desanca com impropérios em alta voz:

— Seu assassino, vagabundo, salafrário, filho da puta, porra-louca...

O "francês", surpreso com aquela atitude tempestuosa, não teve qualquer reação, e isto fez doutor Amúlio amainar a voz e concluir:

- Se você não for nada disto que falei, por favor me desculpe. Mas, se for verdade, você continua sendo um assassino, vagabundo...

E o "francês" não era o culpado.

 

Fonte: No tempo do Hidrolitol – 2014
Autor: Sérgio Figueira Sarkis
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2019

Matérias Especiais

Lendas da Serra

Lendas da Serra

As Negas: A tradição é serem sujas as pessoas que gritam NEGA, que é a senha, informando que a pessoa quer participar e aceita a brincadeira, segundo informações da Srª Angela Maria de Jesus Ribeiro, moradora da Serra Sede desde 1980

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Organizações de luta contra a discriminação do negro

Cleber da Silva Maciel nasceu em Cariacica em 02 de junho de 1948. Graduou-se em História pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) 

Ver Artigo
Vitória do Espírito Santo

Veja como Haydée Nicolussi (1905-1970), poeta e cronista, descreve a cidade de Vitória em 1928, inaugurando a poética modernista em terras capixabas...

Ver Artigo
As lutas contra a discriminação racial - Por Cleber Maciel

Diante desses fatos, muitos brancos não racistas e negros, conscientes da necessidade de lutar pela verdadeira democracia

Ver Artigo
Aspectos gerais - Discriminação Racial

O racismo segregacionista pode ser entendido como a junção do preconceito com a discriminação

Ver Artigo
Convento da Penha: 450 anos

Em 2008 o Convento da Penha, situado em Vila Velha, completará 450 anos. Símbolo da religiosidade do capixaba, é o segundo santuário mariano mais antigo do Brasil e o maior centro de peregrinação e turismo do Espírito Santo.

Ver Artigo