Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

O quilômetro 2 – Por Adelpho Monjardim

Jaqueira

Não faz muito tempo, São Mateus ligava-se a Nova Venécia por estrada de ferro. Pequena e deficitária, silenciosamente desapareceu como surgira.

Entre a gente da ferrovia grande era a animação, contrastando com a realidade das coisas. Um pouco afastada da cidade, a companhia montara as oficinas, as casas para os empregados e o campo de futebol. Ali a rapaziada se divertia, mesmo porque ia à cidade só aos domingos e feriados. Não porque a cidade fosse longe. Havia, porém, um motivo. Nos dias comuns a saída só depois do serviço, quando a volta só poderia ser feita tarde da noite. E quem ousaria, depois das vinte e três horas, passar pela Volta da Jaqueira, no Km 2? Há tempos tombara ali uma composição da estrada, quando muitos pereceram. Desde então a Volta ficou mal-assombrada. As almas das vítimas costumavam ali se reunir num autêntico sabá.

Um dia chegou a São Mateus um jovem pernambucano, da terra de gente valente. Dizia-se bom de bola, centroavante que fora do Náutico. Mal a notícia se espalhou e a rapaziada do clube chamou-o para o seu time.

Homem benévolo e cordial, o superintendente ordenou que o alojassem em uma das casas da companhia, junto ao rio, onde o craque poderia também se exercitar no salutar esporte náutico.

Bom jogador e melhor farrista, o arrojado pernambucano certa tarde, após os treinos, foi à cidade. O que foi fazer não se sabe, mas é certo que esqueceu a hora de voltar. Quando deu fé passava das fatídicas vinte e três horas. Terrível para quem precisava passar pela Volta da Jaqueira. Frio mortal percorreu pela espinha do bravo. Ficar na cidade, impossível. Precisava estar na companhia e o trabalho começava cedo. Depois ficar era dar prova de medo, o que estragaria o seu cartaz, ele que dizia não acreditar em fantasmas e outras frioleiras. De modo algum deslustraria a sua fama de valente.

José, como era conhecido, lembrou-se que para prevenir assombrações era bom atravessar uma arma branca na boca, pois as avantesmas tinham horror ao aço. Por felicidade ele portava a “peixeira” longa de dois palmos, da qual não se desligava nunca.

Embora estrelada, aquela era uma noite escura. O céu parecia mais profundo para as bandas do sul e o vento soprava forte e frio. Ao deixar para trás as últimas casas da Cidade, face a face com o deserto, com a longa e escura estrada que parecia não ter fim, o bravo sentiu o coração desfalecer. Ele cortava extenso trato de cerrada mata. Sacudidas pelo vento as ramas sussurravam lugubremente. Tudo capaz de quebrar o ânimo mais forte. Persignando-se, levantou a gola do paletó, desceu o chapéu sobre os olhos e estugou o passo. Antenas sensíveis, os ouvidos captavam os mínimos ruídos. De quando em quando o pio agoureiro da coruja.

O Km 2 se aproximava e com ele a funesta lembrança da jaqueira. Alagado em suor, sentia que nele se afogava a sua coragem. Finalmente a Volta da Jaqueira, o Km 2! De longe avistava a robusta e copada representante das moráceas, cuja fronde escura parecia absorver todo o negror da noite. Era ali, sob aquelas ramadas, que as almas se reuniam para tentar os vivos. As vítimas do Km 2!

Pegando-se com São Jorge, peixeira atravessada na boca, o pernambucano José, centroavante do Ferro-Carril, estugou o passo e exigiu das gâmbias o máximo, como exigiam as circunstâncias.

Já nas proximidades da jaqueira, cujo tronco não cedia em pujança ao baobá, a coruja soltou brusca e estridente gargalhada. De susto o coração quase que se lhe escapou pela boca. Os dentes apertaram o aço da “peixeira” e o gosto de sangue lhe aflorou à boca. Maldizendo a estúpida e imprudente aventura, ia avançando, quando pavoroso estrondo o imobilizou. Estrondo como se duas composições se tivessem chocado. Logo após gritos de terror e de morte. Ante as dilatadas e assombradas pupilas do bravo, sob a ramagem da jaqueira surgiu branca farândula de espectros, como se ali fora uma assembléia de bruxas. Embuçados em níveas roupagens, frenéticos, agitados, soltavam gritos e gemidos aterrorizantes aos ouvidos humanos.

Ante a súbita revelação que evidenciava o sobrenatural, o centroavante do Ferro-Carril não se pejou da fraqueza natural da matéria contingente, e abalou-se em correria louca como Heitor ao dar as três voltas em torno de Tróia. Varando a noite, conduzido nas asas do medo, mentalmente dizia: Enquanto corro minha mãe tem filho! Espavorido, de tal modo correu que ultrapassou a própria residência. Extenuado fora cair muito além, onde foram encontrá-lo ardendo em febre.

 

Fonte: O Espírito Santo na História, na Lenda e no Folclore, 1983
Autor: Adelpho Poli Monjardim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2015

Folclore e Lendas Capixabas

Conversa Barrense - Por Bernadette Lyra

Conversa Barrense - Por Bernadette Lyra

Quando esta crônica estiver publicada, já passou do tempo em que, numa camurcenta tarde cor de milho dourada, Hermógenes Fonseca voltou de uma vez para Conceição da Barra

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

O Tesouro da Ilha da Trindade - Por Adelpho Monjardim

O tesouro ali oculto foi roubado às ricas igrejas de Lima pelos espanhóis, durante as Guerras da Independência, quando sentiram perdidas as suas Colônias Sul-Americanas. Segundo consta é simplesmente fabuloso

Ver Artigo
O degas e nós - Por Hermógenes Lima Fonseca

Quem sabe o que significa Degas? Degas é um termo dos anos 30 a 40. Degas equivale à expressão atual: “Aqui o papai”, dito assim em jeito de Chico Anísio

Ver Artigo
São Benedito, Irmandades e Confrarias - A Herança Cultural Afro-Capixaba

Igreja do Rosário, foi fundada em 14 de dezembro de 1765 pelos jesuítas, mas só em 1833 foi criada a Irmandade

Ver Artigo
O Pássaro de Fogo – Por Maria Stella de Novaes

Conta-se que uma princesa indígena, belíssima, filha de valoroso soberano, e um jovem de tribo guerreira contrária, apaixonaram-se irredutivelmente

Ver Artigo
Quando o Penedo falava – Por Maria Stella de Novaes

Gênio bom e manso, fora enclausurado, no coração da pedra, para assistir a todos os triunfos e todas as amarguras da Terra Espírito-Santense

Ver Artigo