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Primeiras grandes mudanças na Praia do Canto - Por Sandra Aguiar

Na Praia do Canto as musas Sirenussa Paiva , Terezinha Ruschi e Lourdes Martins (ao fundo o Miramar) - anos 1940

Lentamente o espaço começou a ser ocupado, ganhando a forma de bairro residencial, com o que os arquitetos chamam de construções unifamiliares. Nos anos 30, os moradores já contavam com vários tipos de serviços além das vendas, como barbearias e farmácias. Época em que surgiu o primeiro clube, o Praia Tênis Clube (11 de maio de 1934), por iniciativa de vários amigos da própria vizinhança, amantes da natação. E o primeiro bar popular, o Miramar, que ainda atrai os moradores do bairro, principalmente os mais antigos, e dos bairros vizinhos, que ali trabalham, com comida caseira e barata no horário de almoço (self-service).

O piso do estabelecimento permanece o mesmo do tempo em que blocos de concreto ainda não tinham afastado o mar — as ondas quase batiam na calçada, ponto onde os moradores faziam batalha de confete no Carnaval. Mas os pratos do cardápio antigo — como as moquecas, galetos e filés — são agora limitados ao serviço a la carte, à noite, após 18 horas. Alexandre Suaid, filho do terceiro proprietário, sr. Pedro, que adquiriu o bar em 1969, quando a casa já tinha mais de 30 anos — Augusto Simmer abriu as portas —, revela que clientes do seu pai, já falecido, ainda fazem festa no local aos finais de semana.

Suaid tinha nove anos quando começou a ajudar sr. Pedro no Miramar, e já havia um outro estabelecimento do gênero bem próximo, o Popeye, considerado então o mais sofisticado, na Avenida Ordem e Progresso — a Saturnino de Brito. Lá, mais rapazes e moças. "Aqui vinham muitos políticos", diz o dono da casa mais popular, mas confessa não ter muita lembrança daquele tempo. A maior e melhor recordação, segundo ele, é da praia, bem em frente, que atraía maior número de pessoas ao local. Diferente dos dias atuais, em que tem que dividir clientela com comerciantes do Triângulo das Bermudas, Curva da Jurema e de Camburi.

Concorrência não era palavra em uso há três décadas. Estratégia de mercado, nesse tempo, era conquistar o freguês com sorriso e simpatia. Os pontos comerciais, em geral, levavam os nomes dos proprietários. Se outros nomes tivessem seriam ignorados. A venda do sr. Evangelista ficava no cruzamento da Afonso Cláudio com a Rio Branco; a barbearia do Sr. Abelardo, na Chapot Presvot com a Aleixo Netto; a venda do Sr. Henrique, depois Sr. Manoel, na Aleixo Netto.

A década de 50 é considerada uma das mais marcantes na história do bairro. Prefeito no período de 1953-54, Armando Rabelo foi o responsável pela instalação da rede de drenagem pluvial no local. Na sua administração, inclusive, Vitória recebeu o código que rege as construções no município (Lei 1.351), ao longo dos anos totalmente modificado.

A Praia sempre concentrou gente de maior poder aquisitivo, afirma Francisco Moraes. O pai dele, paulista radicado no Rio, veio para cá em 1939, para tentar a sorte como distribuidor de cerveja, negócio que acabou dando certo. Mas nem só a classe média escolheu o lugar para morar. Os morros em sua volta começam a ser ocupados rapidamente, fato que coincide com o fim do reinado absoluto do café na economia brasileira, dando vez ao setor industrial.

Ao final da Rua João da Cruz — hoje uma das pontas do famoso Triângulo das Bermudas — existia um mangue onde instalaram suas casas os pescadores, entre eles o velho Dondon, já falecido, e Sizino, que montaria mais tarde o restaurante com o seu nome a poucos metros dali atualmente um dos mais conhecidos estabelecimentos, especializado em moquecas.

Clubes para pobres e para os ricos. Os primeiros frequentavam o Centenário — tinha time de futebol e bailes —, onde acontece hoje, naquela mesma sede e lugar o baile dos idosos aos sábados, e o Navegantes. A burguesia se dividia entre o late, fundado em 6 de agosto de 1946, e o Praia Tênis, onde chegou a funcionar um cassino e uma boate, mas por pouco tempo. Os jogos no local atraíam pessoas do Rio de Janeiro, que fretavam aviões para apostar na sorte por aqui, retornando a sua cidade na manhã seguinte. Gente rica e famosa lotava a pista de dança, passos ritmados — "são dois prá lá e dois prá cá".

"Foi um grande acontecimento social a inauguração da piscina do Praia Tênis", lembra Francisco Moraes. Piscina de água salgada no Cauê Clube, da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), apenas para a elite. Por ali passaram algumas autoridades nacionais, a exemplo de João Goulart (Jango) — cunhado de Leonel Brizola.

Como opção, ainda, o ltaúnas Futebol Clube, além da Escola de Samba Mocidade da Praia, cujos ensaios eram realizados em Santa Lúcia — até há bem pouco tempo fazia parte do bairro —, depois transferiu sua sede para a Avenida Fernando Ferrari, em frente à Universidade Federal do Espírito Santo e ...não mais se teve notícias do seu samba e dos seus sambistas.

Atribui-se também à Vale o desenvolvimento do bairro. Foi construída a ponte de Camburi, abrindo passagem por terra para essa região, até então acessível via embarcação, e as ruas de barro foram pavimentadas.

Nesse período, também Juscelino Kubistchek visita o estado e desfila em carro aberto pela Reta da Penha, para promover a industrialização e a modernização da economia do país. O slogan: "50 anos em 5".

 

Fonte: Praia do Canto – Coleção Elmo Elton nº 4 – Projeto Adelpho Poli Monjardim, 2000 – Secretaria Municipal de Vitória, ES
Prefeito Municipal: Luiz Paulo Vellozo Lucas
Secretária de Cultura: Cláudia Cabral
Subsecretária de Cultura: Verônica Gomes
Diretor do Departamento de Cultura: Joca Simonetti
Administradora da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim: Lígia Mª Mello Nagato
Conselho Editorial: Adilson Vilaça, Condebaldes de Menezes Borges, Joca Simonetti, Elizete Terezinha Caser Rocha, Lígia Mª Mello Nagato e Lourdes Badke Ferreira
Editor: Adilson Vilaça
Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica: Cristina Xavier
Revisão: Djalma Vazzoler
Impressão: Gráfica Santo Antônio
Texto: Sandra Aguiar
Fotos: Cláudia Pedrinha
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2020

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