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O degas e nós - Por Hermógenes Lima Fonseca

Professor Guilherme Santos Neves - O degas

Puxa vida que já faz um bocado de tempo! Rebuscando a memória volto a 1935. Lá se vão quatro décadas. Era eu, Floriano Rubim, Gonzaga Faria e Aurélio. Quatro galalaus entre uma miuçalha ouriçada vinda do Externato Júlia Pena para prestar exame de admissão no Ginásio do Espírito Santo.

Floriano Rubim fardadinho de soldado padeiro da Polícia Militar. Os outros eram sargentos e podiam estar à paisana. Eu estava engravatado e cuidava de um bigodinho recém-embuçado. Os quatro encabulados no meio da gurizada. O termo da época era encabulado e não chateado. Tínhamos feito as provas escritas e agora era a prova oral. Lá estava a banca examinadora: Ericson Cavalcanti, lente de matemática; Fernando Rabelo, lente não sei de qual cadeira; e Guilherme Santos Neves, lente de português. Sisudos. Austeros. Tensos. A gente tremia por dentro.

Floriano despertou a atenção da banca examinadora. Demorou a arguição. Claro. Um soldado raso prestando exame de admissão ao ginásio! Era curioso. Mais curiosos estávamos nós em razão da demora. Floriano voltou sorrindo. Fernando Rabelo prometera ajudá-lo, os outros brindaram-no com palavras de elogio e incentivo. O cabra foi em frente, todos nós sabemos. Gonzaga também. Aurélio idem.

Era nosso primeiro contato com o mundo cultural. Com a intelectualidade representada por aquelas três figuras ímpares; entre os quais, o futuro mestre do folclore de expressão nacional. Nacional só? Não. Também internacional. O Manduca das alunas do Carmo, do Ginásio, da Filó.

O Degas. Quem sabe o que significa Degas? Degas é um termo dos anos 30 a 40. Degas equivale à expressão atual: “Aqui o papai”, dito assim em jeito de Chico Anísio. Que é uma forma bacana, simpática, amiga. Membro expressivo da patota. Boa gente. Entrosado no contexto. Aquele que apesar dos anos não é quadrado. É para frente, embora com certo recato. Compreensível. Vibrante com as cousas do povo e da juventude.

Pois bem. O Degas é meu compadre. Padrinho de Marília Augusta. Um foguete, um diabinho em figura de gente. É uma amizade que já criou raízes profundas. Aquela amizade rara alicerçada numa reciprocidade de sentimentos bons, puros e oriundos de uma série de doideiras, que só nós sabemos o que fizemos por causa do folclore. Uma delas: andar de loja em loja pedindo fazenda e sapatos para a Marujada do Morro dos Alagoanos. Conversando com Pedro Lino, acertando os ensaios e as apresentações. Arranjando madeira para construção do barco e do tablado. Gravando. Fotografando. Ouvindo e escrevendo pacientemente o que era ditado, com todo respeito e seriedade por essa incansável gente do morro e de todo lugar durante os festejos e as brincadeiras.

Fuçando por aí a fora. Fuçando é melhor do que pesquisando. Fuçar — revolver com faro para sentir o que de bom e aproveitável se pode encontrar entre a terra revolvida. Sem desdouro é comparação com os porcos à procura de alimentos. Porco é criação de pobre em chiqueiro ou manga. Suíno é animal criado em pocilga com ração balanceada e assistido por veterinário.

Aprendi com ele a fazer essas fuçações. Um longo aprendizado acompanhando-o, observando-o, ouvindo-o, trocando ideias. Renato Pacheco diz que ele fez escola e nós outros somos seus discípulos. Alguns sem ainda terminarem o curso, como eu. Porque, como diz meu amigo Clementino, repetindo a estória de um ajudante de caminhão: Quem aprende é mestre. Quem num sabe é um fio da peste.

Nós furamos mundo. Fuçando daqui, escarafunchando dali. Empiricamente fomos aprendendo. O mestre na frente. Presente. Estimulando. Apoiando com carinho. Incentivando com dedicação. Desprendido. Na modéstia e simplicidade escudado. Pavor à ostentação e ao cabotinismo. Simples de mais para que outros interpretem mal, por vezes, a sua timidez, como introvertido, misantropo ou egocêntrico. Nada disso. A atitude é própria do pesquisador honesto.

Um dia, por volta de 47 ou 48, saía na revista Vida Capichaba um trabalho seu sobre o Alardo. Pela primeira vez eu lia alguma referência ao Alardo. Aí, vocês sabem que me remoeu lá por dentro. Eu, Zé Honorato, Djalma Pereira vestidos de mouros e cristãos com espadas de flandres feitas com capricho na ferraria da rua do Canto, no Mundo Novo. Meu Pai, alferes de mouro, brincando com meu tio Juca, alferes de cristão.

As lembranças eram meio confusas. Para reavivá-las escrevi para Benedito de Prima Dundum de seu Donzinho, que me foi respondido por Manduca Evêncio.

Dr. Guilherme, o senhor escreveu sobre o Alardo de São Mateus e eu trouxe aqui uma descrição do que foi o Alardo em Conceição da Barra.

Ele avidamente passou a ler com inusitada curiosidade, enquanto eu pensava na maior glória de um velho português que contava a uma roda de amigos, no Rio: “Estava eu a trabalhar numa livraria em Lisboa quando o patrão me mandou ir à casa do Eça de Queiroz levar um livro vindo do Brasil, de um tal Augusto dos Anjos. Ao ler alguns versos exclamou o Eça: Este poeta me assombra.”

Eu vi o mestre esboçar um sorriso de alegria pela carta do inesquecível Manduca Evêncio, de quem se tornou amigo e admirador. Iniciava assim uma troca de correspondência e de expedientes para ressurgimento do Alardo, uma brilhante fase marcante na história do folclore de Conceição da Barra. Compadre Tulinho e Bianor revivem o esplendor da festa de São Sebastião. Luiz Hilário e Teorfo levam o Ticumbi a São Paulo. Em 1951 dezoito bandas de congos desfilam no estádio Governador Bley, etecétera, etecétera, mostrando-se coisas que ninguém nunca tinha reparado.

Na frente de tudo, aquele champinha a providenciar as coisas para que tudo desse certo. A estimular uns e outros num abraço cordial e sincero, conquistando a amizade dos congueiros de Manguinhos. Os pescadores a contar-lhe as suas estórias. As velhas a lhe narrar as lendas, as cantigas de ninar, os romances, as antigas rodas.

Eugênio Sette, José Leão, subindo morro para ver ensaio de Marujada. Beresford, Beneventino, Clóvis Rabelo e outros em excursões para ver festejos. Renato nas suas judicaturas a colher material.

Um bruto gravador Webster, gravando em fio imantado. Uma novidade. O Homenzinho impossível, às suas custas, com seus recursos do dia-a-dia de aulas de manhã à noite, passa à filmagem, fazendo suas curtas metragens ao natural em registro mudo. Nas exibições a narração era ao vivo. Ao lado eu, a comentar as cenas: “Esta é a praça de Conceição da Barra, a mais setentrional cidade do Espírito Santo. Aí o senhor prefeito Bento Daher com sua filhinha...” Olha eu ali. Olha eu ali, exclamava a platéia na quinta exibição daquela noite no cineminha local ou na parede da igreja.

Esse filme deu a maior mão de obra. Ele resolveu filmar o Alardo com Vitório Busatto. Quando chegou em Linhares lembrou que tinha esquecido o filme virgem. Recebi à noite um telegrama pedindo mandar de avião porque de carro levaria um dia para chegar. Mas, como? pensei.

De manhã ficaram de cara pra cima a ver se surgia algum teco-teco. Lá pelas duas horas, numa rasante, o aviãozinho jogou na praia o filme enrolado em três sacos de estopa.

Para as legendas do filme ele recortou letra por letra. Formada a frase, era filmada. Arrancava para fazer a nova frase. Quando acabou estava com os dedos esfolados e quase a sangrar.

Foi classificado como o melhor documentário entre outros filmes apresentados no Congresso de Folclore, no Rio.

O Folclore circulou durante vinte anos ou mais. Catava as matérias de um e de outro. Preparava. Levava à Gazeta para compor. Conduzia as matrizes para imprimir na Escola Técnica. Pesava o chumbo para devolver. Expedia-o para o Brasil e o Mundo. Quem pagava? Parece que uns minguados auxílios às vezes conseguiu. Muito pouco para tanto que fazia na divulgação de nosso folclore.

Depois vieram os congressos, os encontros nacionais, e lá vai ele também aos países platinos. Felix Coluccio menciona seus trabalhos nas suas obras e no Dicionário do folclore argentino. Posiciona ao lado de Câmara Cascudo, Renato Almeida, Diegues Júnior, Edson Carneiro, Rossini Tavares de Lima, Théo Brandão e toda a tribo nacional.

Suas palestras encantam pelo estilo próprio e primoroso, agradando a leigos e eruditos, assim como uma cascata de águas cristalinas descendo pelas encostas no sombreado de rica vegetação, num marulhar encantador e, por que não dizer, delicioso.

O Degas faz neste mês setenta primaveras. Ele dirá que são outonos. Não acho, não. Renato Pacheco reivindica nossa participação na festa do aniversário que só deveria ser para a intimidade dos netos que lhe deram Luiz Guilherme, João Luís e Reinaldo e de seu Anjo da Guarda a acalentar seus sonhos folclóricos. Uma santa dulcíssima e meiga como a outra Marília do amoroso Dirceu.

É isso aí, bichos. O cara tem cuca de perene juventude, do frescor das primaveras bem vividas, vivendo as coisas simples e belas de nosso povo.

[Transcrito de A Gazeta, 14 de setembro de 1976.]

 

Fonte: Fonte: Revista da Academia Espírito-santense de Letras / 100 anos - Vol 26. (2021) - Vitória
Autor: Hermógenes Lima Fonseca Escritor e folclorista falecido. Pertenceu à cadeira 23 da AEL
Compilação: Walter de Aguiar Filho, Janeiro/2022

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