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A Lagoa Juparanã – Por Monsenhor Pedrinha, em 1891

Lagoa Juparanã - Acervo: APEES

Sobre Pernambuco, está posto em memória que navegantes, suspensos e elevados ante a galhardia e linda colina sobre que assentou-se depois a capital, soltaram este maravilhoso brado de admiração e louvor: “Oh! Linda perspectiva!”. Perdendo-se com o tempo o h e escondendo-se o mais, ficou o nome de Olinda, com que conhecemos a antiga e gloriosa capital, hoje simples e já decadente cidade.

Ótima notícia que me vem lembrar aqui o que ouvi do nome Juparanã. A poesia enfronhe a verdade, e, não se arredando da verossimilhança, supra o que a tradição esqueceu.

Hiteçá (sítio mais formoso do rio) alterosa e bem estendida planície à margem esquerda do Rio Doce, recriava em dia calmoso e afogueado uma roda de caboclos guerreiros e bravios.

Seus inimigos, vindo-lhes à pista, encontram-nos e travam com eles renhida peleja.

O ardor do combate levou-os despercebidos pela margem de um rio profundo e graciosamente tortuoso, que vem morrer no Doce aos pés do Hiteçá.

Três horas depois de bom combater e correr por densas florestas, se lhes depara grandíssima e majestosa lagoa que nunca viram nem cuidaram. Foge a fúria, abatem-se as flechas, pasmam todos...e, como já alentados de puro gozo, dão grandes vozes de admiração e espanto: "iu paranã!" e o eco responde das frescas matas e dos montes: " iu  paranã ! iu paranã!" 

Com o tempo, que tudo muda, corrompeu-se uma letra, achegaram-se as palavras, e das muito significativas iu paranã, ficou-nos Juparanã, que nada diz, mas muito lembra.

lu paranã é deveras na simpleza e rude concisão da indígena linguagem a natural, justa, pomposa descrição dessa admirável lagoa, uma das maiores e mais importantes do Brasil. Lu - quer dizer espinhos, cipós, matagal viçoso e fresco. E que são em verdade as alterosas margens dessa lagoa, senão cerrada e exuberante vegetação, vestindo um solo excepcionalmente rico de uberdade?

lu diz riqueza, beldade, magnificência e descreve ao justo o luxuriante e esplêndido de suas margens.

Paranã menos não significa que — mar. Juparanã, de verdade, menos não é que um mar: mar em suas praias e peixes, mar na vastidão e rumor, mar na magnificência sobranceira do aspecto!

lu paranã, pois, significa um mar de água doce em sítio fertilíssimo e ameno e perfeitamente descreve a famosa lagoa Juparanã.

Considerai comigo agora essa imponente lagoa em suas mais que uma légua de largo e 5 a 6 de comprido; considerai-a recebendo pelo formoso e deletosíssimo Rio S. José as águas mineiras, que nela se embravecem em ondas encapeladas, e ao Rio Doce lançando pelo Rio Juparanã os sobejos de sua saciedade; considerai-a banhando caprichosa sua poética e amena ilha; considerai-a enfim em toda a sua formosura, nobreza, magnificência e sublimidade, e se vos apresentará certamente o iu paranã dos indígenas; tereis verdadeiramente um mar de água doce em sítio fertilíssimo e ameno.

Juparanã, Juparanã, deu-te tudo a natureza, só te não deu lágrimas para chorares o desprezo dos teus!...

 

Pati do Alferes, Setembro de 1891. (Publicado no Brasil)

Nota: O Monsenhor Pedrinha (1864-19I9), autor do texto acima publicado, foi poeta, ensaísta, orador sacro e parlamentar por mais de uma legislatura. De família tradicional de desbravadores, nascido às margens do rio Doce, foi um dos maiores intelectuais de sua época. Patrono da cadeira 18 da AEL.)

(Rio de Janeiro: Tip. de O Apóstolo, 1896. CAPÍTULO XIII.)

 

Fonte: Revista da Academia Espírito-Santense de Letras – Comemorativo ao 86º aniversário da AEL, ano 2007
Autor: Monsenhor Eurípedes Pedrinha 
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2015

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