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A última lancha da noite

O usuário que estivesse em Vitória e precisasse pegar o último bonde em Paul arriscava-se a não consegui-lo se perdesse a lancha em direção àquele ponto. Quando isso acontecia ele ficava em Vitória em casa de parentes ou amigos, ou em pensões e hotéis, ou ainda socorria-se dos bancos das praças, perambulava pelas ruas ou, se mais atirado e descompromissado, circulava pelas casas de tolerância da cidade até amanhecer o dia. Táxi, nem pensar, pois, além de caro, a maioria dos retardatários não era afeita a esse tipo de condução, a não ser por motivos muito sérios.

O notívago, inconformado com a partida da lancha e sem poder alcançá-la, corria para o cais dos botes, junto ao cais das lanchas, e contratava uma daquelas embarcações a remo para a travessia, sujeitando-se a atrasos por uma série de dificuldades, como a maré que, na vazante ou enchente, apresentava maior ou menor correnteza, a disposição do catraieiro e a força de suas remadas. Já na metade do percurso da baía se sabia da possibilidade ou não de apanhar o último bonde da noite. Se ele fosse avistado parado e iluminado era hora de começar a gritar, fazendo-se isso a pleno pulmões: "Espera! Espera!" No silêncio da noite, a baía tomada pela escuridão, a presença do bote só era identificada pela lanterna a querosene acesa na popa da embarcação e pelo "chuá" das remadas vigorosas e compassadas do catraieiro. Esses gritos não só eram ouvidos pelo fiscal que autorizava ou não a partida do bonde, como também pelos passageiros sonolentos, a grande maioria acomodada em seus lugares. Dependendo do fiscal e do apelo desses passageiros, o notívago saltava esbaforido, alcançando a condução com gestos e voz de agradecimento pela espera.

Desses retardatários muitos eram reincidentes e quando acontecia de seus apelos não serem correspondidos tinham que voltar para Vitória no mesmo bote, agora sem aquela correria e pagando a passagem em dobro. A outra alternativa seria saltar no cais de Paul e seguir a pé pelos trilhos do bonde até chegar ao destino. Os percalços a enfrentar seriam apenas a escuridão da noite e os pequenos acidentes, como pisar em buracos do percurso ou dar topadas nos dormentes de sustentação dos trilhos. Fora isso, nada de violência, pois ninguém agredia ninguém.

Às vezes, durante a caminhada, um encontro era bem-vindo. As pessoas eram identificadas apenas pela voz, pois a escuridão era grande. Devidamente apresentados, identificando-se ou não, a caminhada prosseguia já se sabendo para onde cada um iria. Se o encontro acontecia em sentido contrário, trocavam-se cumprimentos.

O trajeto de Paul a Vila Velha, até a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, contava apenas seis quilômetros. Fazendo ou não todo o percurso, o sacrifício da andança tornava-se compensador, uma vez que era melhor que esperar pelo primeiro bonde até o amanhecer do dia, sem ter dormido, e arranjar uma boa desculpa, nem sempre convincente, para o atraso.

 

Fonte: Ecos de Vila Velha, 2001
Autor: José Anchieta de Setúbal

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