Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Autobiografia de Massena

Praia do Barrão, Barra do Jucu - Tela do Artista Kleber Galvêas, discípulo de Homero Massena (visite o seu atelier na Barra do Jucu)

"Filho de capixaba, nascido em Barbacena, aos 6 meses de idade fui transportado para Vitória, de onde saí aos 5 anos para Juiz de Fora, onde iniciei os estudos primários no colégio de um professor preto que ainda usava palmatória nas aulas de tabuada. Os alunos ficavam em fila, de pé no meio do salão. O professor perguntava: 6 vezes 7? O aluno era obrigado a responder prontamente. Se assim não fazia, o professor ia passando a pergunta até que um respondesse correto. O que respondia tinha direito de dar um bolo de palmatória no colega, o que era por todos ansiado. Alguns, quando calhava o direito de castigar um desafeto, batiam impiedosamente. Como sempre fui a negação dos números, mesmo até hoje, era o mais aquinhoado com a palmatória.

"Aos 7 anos fui levado para Ouro Preto, onde me matricularam em uma escola primária pública. Naquela cidade permaneci até os 10 anos, regressando para Juiz de Fora onde fui internado no Colégio Andrews. Por motivo de pequena enfermidade e diante de minhas queixas — aliás, mentirosas — passei a estudar no colégio mantido pelo Dr. Severiano Hermes da Fonseca, irmão do Marechal Hermes da Fonseca, mais tarde presidente da República, na célebre campanha civilista derrotando Rui Barbosa.

“Diante das constantes queixas de minha ausência nas aulas, indo com a garotada para a beira do Rio Paraibuna, onde aprendi a nadar, fui internado no Ateneu de Letras, o melhor colégio daquela época, em Juiz de Fora, regido pelo Conselheiro Jaguaribe de Matos. Falar sobre minha aplicação em todos os estabelecimentos de ensino que freqüentei, quer na meninice, quer na juventude, é um verdadeiro absurdo. No Ateneu, trocava livros com colegas vindos do interior que recebiam guloseimas de suas famílias, sobretudo por goiabada. Quando calhava passar alguns dias de férias em casa, ao regressar trazia também livros de histórias, surrupiados de meus irmãos a para o negócio das trocas por marmelada. A única preocupação era comprar lápis de cor e pequenos cartões de aquarelas com que enchia mesmo a margem dos livros de estudo. Escondia, por baixo das carteiras, papéis de desenhos necessários às aulas. E passava quase todo tempo de estudo ensaiando pintura de paisagem de flores e bonecos. O que muitas vezes me mandava para a CAFUA, quarto escuro no porão da casa.

"Aos 15 anos, meu pai, que residia em São Paulo (com o casamento com mamãe anulado), e já rico, pleiteou a responsabilidade de minha educação por ter minha mãe se consorciado com um tabelião, em Juiz de Fora (o que aconteceu também com meu pai). Ambos mais tarde me deram cerca de onze irmãos. Apos as esperadas lástimas de minha mãe, meu pai conseguiu levar-me para sua companhia. Em São Paulo, fui matriculado no Seminário Episcopal, no bairro da Luz Além de cerca de 600 alunos daquele internato mantido por padres, havia a parte de seminário dividida dos colegiais. A disciplina era rigorosíssima. Os fundos do edifício eram cercados por altas muralhas de pedra, o que me causava a impressão de estar aprisionado. Salões sombrios, agravado por não haver uma nota colorida, e mais o negrume das vestes dos sacerdotes começaram a ter influência doentia em meu espírito. De resto, meu pai, durante cerca de um ano de internamento, apenas por duas vezes havia aparecido no seminário. Dado ser um homem de negócio vivia entre o Rio e São Paulo, deixando um de seus empregados para atender a qualquer necessidade que reclamassem com relação ao meu internamento, sobretudo na aquisição de roupas e livros. Era natural o transtorno de meus sentimentos pela mudança brusca de ambiente, sem nenhum parente que pudesse me visitar, como via com outros colegas, cujas famílias enchiam o salão de recepção, aos domingos e dias de feriados.

“Saído de um meio alegre, em Juiz de Fora, aonde em quase todas as férias ia para a fazenda de um tio, em Furtado de Campos, cavalgando com meus primos, caçando e pescando, não raro fazendo excursões por fazendas da vizinhança, ali, dado o ambiente, tornei-me de uma religiosidade mística, invocando a presença de Cristo que me amparasse naquela solidão, desejando que o seminário se incendiasse ou fechasse, para que assim me libertasse de tanta tristeza. A despeito das prolongadas rezas de todas as noites na igreja do seminário, no dormitório ajoelhava-me na beira da cama, rezando e colocando embaixo do travesseiro uma coleção de santos que constantemente eram distribuídos aos alunos pelos padres. Como já disse, o pátio do seminário era cercado por altas muralhas de pedra. Em um dos cantos, havia uma árvore bem encostada ao muro. Durante alguns dias, estudei a possibilidade de escalar aquele muro com o auxilio da árvore, mas ignorando o que encontraria do outro lado do muro. Havia o recreio, que durava das 4 às 6 horas da tarde No enorme pátio, havia várias privadas. Dado o grande número de alunos, não seria possível dar pela minha falta, assim resolvi fugir. Escondi-me em uma das privadas até noite alta. Galgando o muro com o auxílio da árvore, lá do alto vi que estava em uma linha férrea, com vários vagões de carga estacionados. Criando coragem, saltei de uma distância de mais ou menos três metros de altura, dali entrando a vagar pelas ruas.

"Sentindo a maior felicidade de minha vida, perambulei alegremente por todos os cantos considerando-me um herói. Pensava em desaparecer a procurar alguém que me amparasse para voltar para junto de minha mãe. Mas, já de madrugada, cansado e sonolento, procurei a casa do empregado do meu pai onde por muitas vezes havia estado. Surpreso, acolheu-me. No dia seguinte, telegrafou a meu pai que se encontrava no Rio, recebendo a resposta de que devia recambiar-me novamente para o seminário. Não fui castigado: apenas, por alguns dias, privado do recreio. Não tinha mais limite a minha tristeza naquele ambiente, cheio de tristeza para um jovem de 15 anos. Não me conformava com a permanência naquele presídio.

"Fugi pela segunda vez, usando o mesmo processo da primeira. Desta vez, recambiado novamente, fui brutalmente castigado por um padre de nome Mercadante. Com grossa palmatória, deu-me meia dúzia de bolos. Eu, que nunca havia sido castigado fisicamente, senti-me de mente transformada. Sim, não ficaria mais ali fosse por qualquer esforço para libertar-me: resolvi morrer. Em uma noite de angústias, molhei toda roupa com água, e as grossas botinas de atanado que éramos obrigados a usar (fabricação do próprio seminário), deitando-me. Pela manhã, não mais pude me erguer. Tomei mais tarde conhecimento de que me achava em uma casa que meu pai havia mobiliado para transportar, de Vitória, minha avó, recorrendo-se a uma família de amigos que passaram a viver naquele ambiente, aliás luxuosamente mobiliado. Houve um momento mais tarde que os médicos haviam perdido toda esperança de salvar-me. Minha convalescença no meio daquela família, com ..." (*)

(*) Durante alguns anos, vendo Massena escrever livros e crônicas, passei a cobrar dele sua autobiografia. Ele sempre se esquivava. Em 1969, ele ganhou uma velha nova máquina de escrever do Departamento de Edificações e Obras do Governo do Estado (DEO). Eu, minha mãe e amigos fizemos mais pressão. Conseguimos este pequeno rascunho. Usei todos os argumentos para ele continuar, sem sucesso. Massena empacou, nem mais uma linha. " Para que? Isso é uma besteira". Conservo três laudas datilografadas por ele, com tinta azul. No início do texto, anotou à mão: "Kleber - Vê se serve, assim. Está alinhavado".

 

Nota de Kleber Galvêas: Do nascimento à tentativa de suicídio num seminário em São Paulo, aos 15 anos (subtítulo dado por Massena ao título do texto)


Fonte: Coleção Grandes Nomes do Espírito Santo - Homero Massena, 2007

Texto: Kleber Galvêas
Coordenação: Antônio de Pádua Gurgel/ 27-9864-3566
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2014

Variedades

Discurso do Marechal Castelo Branco na UFES

Discurso do Marechal Castelo Branco na UFES

Pela sua própria condição intelectual é perfeitamente natural que, vivendo numa época em que tantas idéias, tendências e concepções políticas estão a inquietar todas as inteligências, não fiquem eles indiferentes ao debate, nem se conformem a uma posição de compulsório alheamento

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

O 1º Clube Carnavalesco de Vitória

Funda-se neste ano de 1874, nesta capital, uma sociedade com o título Clube Recreio Carnavalesco, com o fim de oferecer a seus sócios distrações

Ver Artigo
A História do Carnaval no Brasil - Por Haroldo Costa

Defendo com ardor e a mais profunda convicção que o nosso Carnaval representa hoje a mais fiel tradução das nossas heranças, contradições, perplexidades e perspectivas

Ver Artigo
A História do Carnaval

Foi em fins do século XIX e início do séc. XX que o carnaval do Brasil começou a conquistar fisionomia própria: nessa época já declinava o carnaval europeu

Ver Artigo
A maior tentação do poeta é ser poeta (para Otinho)

Poetas são exímios jogadores de esperteza. A palavra é sua peça de xadrez, seu dominó. Ao contrário dos que blasfemam, o poeta não é nuvem, nem inútil. O poeta tem corpo, é coisa sólida, pois seu poema é o corpo, mesmo quando morto, e seu poema é a alma de quem o lê

Ver Artigo
Casas antigas guardam histórias e mistérios (1ª parte)

No centro da cidade, casas quase centenárias a abandonadas causam medo e desconfiança 

Ver Artigo