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De bonde com Grijó - Retorno ao bonde adentrando a Avenida Capixaba

Antiga Avenida Capixaba, atual Av. Jerônimo Monteiro, anos 1930

Dessa forma retorno ao itinerário do bonde adentrando a Avenida Capixaba, que infelizmente teve seu nome retirado dos guias postais e, por conseguinte deixou de ser nome de rua; no entanto, ficou na memória de quem vive até hoje na região ou viveu. Para mim, sempre foi um absurdo a retirada do nome da avenida, que foi substituído por Av. Jerônimo Monteiro. Não quero dizer que o Dr. Jerônimo Monteiro não mereça ter o seu nome inserido em uma rua ou logradouro de nossa Capital ou em qualquer outra parte do Estado, pois há até município com seu nome. A minha bronca é que o nome Capixaba prestava uma homenagem aos nascidos na Ilha, sendo que, capixaba quer dizer, em tupi-guarani, roça de milho, foi em razão da abundante plantação de milho nos morros daquele local que a avenida foi batizada de Capixaba. Esta avenida iniciava-se onde está hoje o Trader/Center e terminava nas imediações do antigo Café Avenida. Dali para frente surgia a Av. Jerônimo Monteiro, que terminava na Escadaria Bárbara Lindenberg (Escadaria do Palácio), mas um destes "geniais" vereadores da época (1950) resolveu apresentar um projeto de mudança de nome para a avenida, e os demais "geniais" conhecedores das coisas da Ilha aprovaram. E lá se foi o único logradouro que homenageava os ilhéus. Analisando friamente, o nome capixaba tem mais tradição do que Jerônimo Monteiro. O primeiro ponto do bonde ficava em frente à residência do Sr. Daumas. As linhas dos bondes a avenida eram no sentido mão e contramão. Mão para o centro e iam até as proximidades do relógio da Praça Oito de Setembro. Outra curiosidade é que do lado direito sentido Mercado da Capixaba só existiam residências, pois o lado oposto dá para o mar. O mar chegava ali onde está hoje a C&A. Dentre seus moradores destaco Sr. Monsueto Bortoluzzi, Dona Adélia Duarte, viúva de seu Mininho e mãe de Audifax, professor de educação física da Escola Técnica de Vitória, Almir, o Mizinho, funcionário da firma Antenor Guimarães e jogador de basquete do Saldanha da Gama, Aidil, funcionária aposentada do Ministério do Trabalho, e Alaor, o Enô, que foi alto funcionário da firma Orlando e Cia. Em minha época foi o nadador mais rápido que vi em Vitória. Aposentado, curte a praia de Camburi diariamente. É casado com Thilda, que era outra grande nadadora. Ao seu lado morava Aurílio Aguiar, que era funcionário do Banco do Brasil. Também morava o Sr. Francisco Cariello, pai de Orlando Cariello, que foi líder da classe estudantil e mais tarde um atuante vereador de Vitória, pela antiga UDN. Seu pai possuía uma casa de vendas de frios e massas, chamada Esquina da Sorte, na confluência da ruas Araribóia com a Av. Capixaba. Gente fina. Outro morador foi o professor Adolfo, depois ele vendeu para o Sr. Almeidinha, comerciante importante de bebidas estrangeiras e proprietário do Café do Almeidinha na Praça Oito de Setembro, local de encontro de políticos, estudantes, homens de negócios etc. Devido à fama do local, o jornal A Gazeta acabou criando a coluna Praça Oito, que até hoje é publicada. Lá se sabia de tudo, e mais gostoso era apreciar o grupo formado geralmente às 10 horas da manhã quando ao Dr. Paulo de Tarso Velloso se juntavam José Gonçalves, Edgard Feitosa, Gil Velloso, seu Jackes Chaves (um espanhol) vendedor de tecidos. Às vezes, na gozação, o grupo combinava de fazer com que Paulo Velloso pagasse a rodada de cafezinho. Ainda participavam do grupo seu Mário Petrocchi, Buzatto e Rubens Costa. Às vezes me davam uma "colher de chá" e eu participava.

Com relação às residências da Capixaba, na parte alta morava o Sr. Manoel Vivacqua, o homem forte na exportação de café e proprietário da única fábrica de gelo, que ficava na Rua 1° de Março, rua do antigo São Luiz. Também funcionava uma fábrica de sorvetes e picolés, que eram vendidos por sorveteiros em caixa nas portas das residências, tanto de dia como de noite. O Sr. Manoel era casado com dona Dulce Bruzzi e seus filhos eram Cyro, Déa, Márcio, Maria José (casada com Carlito Von Schilgen), Leda e Lia (que foram ambas minhas colegas de 1.a comunhão juntamente com meu irmão José Cláudio. O caçula é o Ronaldo, residente no Rio de Janeiro. Ao lado morava o casal Alyce e José Neffa, pais de Antônio, o Toninho, Ivette, Renné, Glória, José Guilherme (falecido) e Carlinhos. O Sr. José Neffa era proprietário de um armazém de secos e molhados no sistema de atacadista.

Funcionava onde está ainda hoje um posto do Supermercado São José, na Florentino Avidos. Após seu falecimento, assumiu a direção do comércio o seu filho Toninho, praticamente acabou com o sistema de atacado e passou para o ramo de mercearia e mais tarde abriu uma rede de supermercados, e por sinal alcançou o pioneirismo com um número de seis lojas. Mais tarde, juntamente com os irmãos José Guilherme e Carlinhos, entrou para o ramo de restaurantes, fundando o Jack em cima do supermercado da Florentino Avidos. Entrou para o ramo de hotelaria, construindo o Alice Hotel com serviço de bufê. Já recebia as ajudas do filho e sua esposa Maria Helena Murad. Continuou em frente e instalou o melhor Centro de Convenções do Estado e um dos melhores do Brasil. Por tudo isso ele é agradecido ao "Velho" Neffa, que muitas coisas lhe ensinou, além encaminhar-lhe na "Escola do Comércio" e ensinar-lhe desde cedo como comerciar. Pena que meu amigo Zé Guilherme nos deixou tão cedo. Mas os Neffa são pessoas de primeira, e que continuem assim.

Descendo a Escadaria, a residência de Constâncio Espíndula, que era casado com dona Steal, e seus filhos eram: Yolete, Vera e Orlando. Yolete era casada com o saudoso Gilson Wanderley, aposentado do Banco do Brasil. Hoje Orlando comanda a firma Espíndula & Cia, que lida no ramo de ferragens e extintores de incêndio, juntamente com sua irmã Verinha. A avenida Capixaba daí em diante já passava a ter casas diversas do seu lado esquerdo, num pequeno beco, tínhamos a Oficina de Diversos, de Ricardo Simões (outro Luzitano), seu Cyro, gerente de um armazém de secos e molhados (como se dizia na época e hoje mercearia), era padrasto do nosso colega Cloves "Gabiru", cobra criada em matemática, Orlando Vanzo e Cinete. Por volta de 1946/48, num prédio em frente à C & A, morou Constantino Helal. E a seu lado vinha a serraria do Hermes Carloni, que trabalhava só com pranchões extraídos de toros, que ficavam estocados nas águas da baía de Vitória, vindos pela Estrada de Ferro Vitória-Minas e jogados n'água, de onde eram rebocados para a serraria. Ali em estoque ficavam mais de 300 toros boiando. Eles constituíam uma das diversões da garotada, que não assimilava os perigos, e acabaram ceifando a vida de Otelo Braga Barbosa, irmão do popularíssimo Otinho. Morreu imprensado no meio de dois toros. Do outro lado da rua moravam os Barros da Costa. O Dr. Antenor Guimarães também morava na avenida (homem tranquilo e sistemático). Casas comerciais começavam a surgir: Dunlop, Alcure e Cia, Texaco, que era gerenciada pelo Sr. Nobre, casado com dona Manieta. Eram seus filhos: Beatriz, Célia, Dulce e Aloysio. A única Casa de Saúde, particular de Vitória, ficava na Av, Capixaba, Seu proprietário era Dório Silva. Este e seu irmão Luiz Castelar da Silva operavam, consultavam, faziam partos e além disso atendiam pacientes em casa, a qualquer hora do dia. Muitas vezes suas consultas eram gratuitas. A Casa de Saúde dispunha de 36 leitos entre o primeiro e o segundo andar e no térreo, mais dez leitos de enfermaria, além de ser geralmente ocupado pelo pronto-socorro, existindo também um necrotério e uma funerária. Dava lado para a Rua Engenheiro Pinto Pacca Um detalhe interessante, que mostrava o respeito pelo ser humano, era que, quando o bonde se aproximava do local, ele tinha o motor “cortado” e com diminuição de velocidade em respeito aos pacientes, evitando barulho. Os carros também não usavam buzinas no trecho. No pronto-socorro atendiam como médicos os doutores Demócrito de Freitas (Dr. Doca) Timotheo, Américo de Oliveira, Dório Guasti, Darcy Mattos e José de Carvalho. Seu atendimento era de 24 horas ao dia. Próximo à Casa de Saúde. brincando em frente do estabelecimento comercial do Sr. Aristóbulo Inocêncio Ferreira, andando de velocípede e vigiado de cima da sacada do prédio por dona Jurandy Ferreira e dona Didi, o garoto José Ignacio Ferreira, desfrutando dos seus seis anos de idade. Seus irmãos Keyl, Margarida, Luzia e Paulo Roberto também curtiram por muito tempo as delícias da saudosa Avenida Capixaba. Quando poderíamos pensar que aquele garoto do velocípede iria ter uma carreira política tão bonita, de reconhecimento internacional. Dionísio Abaurre possuía, onde se encontra uma sapataria, um galpão que era depósito de seu material de pintura para prédios. Anos mais tarde, na década de 50, inaugurou o Cine Vitória, o Vitorinha, e teve como parceiro Edgard Rocha Luiz Severino Ribeiro. Na Capixaba moravam também Haroldo Simões, pai de Luiz, “Papa-arroz", apelido recebido nas casas de sinuca, pelo fato de seu genitor ser representante de arroz para o comércio: José Medina, advogado e delegado de Policia, pai de Luiz Medina; João Monteiro, representante das linhas de carros Nash, Cruysler, Cadilac e OdmosIbile, pai de Carlinhos, a Praticagem de Vitória, dos práticos, Nilton e Wilson Freitas, Brandão, Valadão, Geraldo e Taylor. Mencionem-se as oficinas e redação de A Tribuna, jornal lutador, que é um orgulho do capixaba, e a alfaiataria do Sr. Alvino Simões e Júlio Lima. O Sr. Alvino era pai de dona Zeneide, que era professora da Academia de Comércio de Vitória e deixou-me reprovado no quinto ano primário por meio ponto, por eu não ter sabido responder em prova escrita uma pergunta sobre sistema métrico. Jamais esqueci tal fato. Devo lembrar a família Coronel, da qual era patriarca o Sr. Alfredo, bisavó da jornalista Puppa Gatti. Ali residiam também Gilberto Coronel, Colos, César, além de Horácio, que era irmão do Sr. Alfredo e era sócio em um armazém no Mercado da Capixaba pelo lado da Rua Araribóia, Francisco, Geraldo e Waldir também moravam na Capixaba. Ali localizava-se o escritório de Augusto Cruz e Sobrinho, exportadores de cacau; a Firma de João Freitas, representante da Remington e artigos para escritórios; havia ainda a representação da Painair e seu despachante Colatino, que usava um uniforme e gostava de se passar por comandante de avião. Ao lado ficava o armazém do Sr. Edgarg Rocha, que explorava o ramo de secos e molhados. Era um estabelecimento que cobrava mais caro do que os outros. Em compensação trabalhava com artigos mais finos.

Trago na lembrança a caminhada do armazém até a minha casa, quando meu pai ia fazer compras e levava eu e o mano Zé Claúdio para levar para casa as compras ali executadas como: peça inteira de queijo parmesão e lata de manteiga Vilela, que pesava cinco quilos. Nessa altura eu estava com doze anos. Outra coisa que gostava de ver era a abertura de fardo de carne-seca devido ao processo que se usava: após tirarem da embalagem ensacada em saco de estopa e pesando em média 250 quilos, era exposta em um tripé em frente do estabelecimento. Geralmente era um boi inteiro, do qual o freguês escolhia o pedaço por ele desejado. Tempo bom! Aliás, com relação à carne seca, devo esclarecer que estas mantas, como eram chamadas, vinham geralmente do Rio Grande do Sul a bordo dos navios da Costeira (Itas e Aras) e eram submetidas ao processo de salga devido às invernadas (mudança de ambiente provocada pelo frio). Como o gado era conduzido através de comitivas, o sustento de alimentação dos peões consistia no consumo de carne, sendo que só levavam na maioria das vezes alimentos não perecíveis e muito sal grosso. Abatiam uma rês boa e retiravam a carne que iam usar. A sobra entrava para a salga e se transformaria em carne-seca. O couro era salgado e a comitiva seguia deixando os responsáveis pela salga para trás, Esta comitiva navegava durante cerca de três meses, depois os frigoríficos recebiam em Porto Alegre o trato final e eram exportadas para todas partes Brasil.

 

Fonte: A Ilha de Vitória que Conheci e com que Convivi, vol. 6 – Coleção José Costa PMV, 2001
Autor: Délio Grijó de Azevedo
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2019

A Ilha de Vitória que Conheci e com que Convivi - Por Délio Grijó

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