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Jerônimo Monteiro - Capítulo VII

Palácio Anchieta. Jerônimo Monteiro despacha com Antônio Athayde e Ubaldo Ramalhete Maia, (1912)

O Dr. Jerônimo, após a Convenção, passou alguns dias na Vitória, para coordenar sua Plataforma de Governo e observar, de perto, a situação do Estado. Hospedou-se na residência episcopal, onde se encontrava, igualmente, o Dr. Bernardino Monteiro, que participava do Congresso Legislativo Estadual.

À noite, no escritório modestíssimo do irmão Bispo Diocesano, em torno de uma grande mesa, ao tremeluzir de um lampião, os três escreviam atentamente. Dom Fernando examinava a correspondência vultosa, porque até os cartões mais simples recebiam sua resposta pessoal e imediata. Bernardino estudava projetos e preparava os discursos justificativos. Jerônimo cuidava do programa que seria apresentado ao povo do Espírito Santo. Dir-se-iam três monges votados ao estudo e à meditação das Verdades Eternas. Escreviam. Mas, no afinco máximo do trabalho, sacudido pelo entusiasmo, Jerônimo rompia o silêncio: — Água, luz, estrada, esgotos, ensino, lavoura, fábricas...

— “Para, Jerônimo", exclamava Dom Fernando.

— “Devagar!", secundava Bernardino.

— Oh! Sr. Bispo, é preciso que se faça tudo.

Falava como impulsionado pela força incontida do ideal, perante a visão de uma empresa grandiosa. Força concentrada na firmeza do olhar e energia dos traços fisionômicos, predicados que lhe foram, sempre, característicos e reduziam as objeções dos seus contendores.

Então Bernardino, sempre jovial, recordava uma passagem da infância, quando o papai os estimulava, na luta contra obstáculos, e concluía: — Subam!

Jerônimo continuava a escrever.

Ao lado, um vizinho seresteiro tangia as cordas do seu instrumento querido, ao compasso da toada, que a tradição conservou:

 

Podeis vestir vosso verde,

Caramuru.

Que a cô que eu visto não perde

Do céu o azú.

Deixai-vos de pabulage.

Ai, peroá.

Que a cô que eu visto no trage

E a cô do má.

Etc.

 

Vinte e cinco, um vizinho demente, gritava: — Café! Café! É missa?

Impossibilitado de trabalhar, Bernardino desenvolvia uma oratória disparatada e terminava, em coro com o evocador dos Caramurus e Peroás:

— Chora, meu pinho!...

O violeiro recomeçava. Jerônimo ria-se a valer. Dom Fernando, sério, imperturbável, sem interromper o trabalho, exclamava: — Está muito bonito!

Era a carapuça.

Ao lado, uma estudante — a mesma quietinha e observadora — interrompia os garranchos de um caderno escolar. Empolgada pelo interesse da cena, procurava fixá-la, num ensaio de caricatura, sem pressentir, entretanto, que, no futuro, tivesse de afirmar — Aquele programa extenso e complexo que, segundo veremos adiante, impressionara até o saudoso Presidente Afonso Pena, experimentado em assuntos administrativos, foi, rigorosamente, cumprido.

Era o prenúncio do paralelismo de algumas sábias conclusões de genial publicista, vazadas em biografias de personagens ilustres, benfeitores, artistas estadistas, etc., entre as quais: "A trajetória dos grandes homens permanece, qual monumento indestrutível de energia e personalidade. Eles foram os propulsores do progresso. À semelhança de fachos, no alto das montanhas, iluminavam tudo o que as circundava; mas a luz do seu espírito continua a brilhar sobre gerações sucessivas".

A 29 de outubro, Jerônimo regressou a Cachoeiro do Itapemirim, e foi festivamente recebido. Uma comissão foi esperá-lo a duas léguas da cidade. Outra, em Matilde, onde terminava a linha férrea da Vitória. E foi juntando gente... Todos a cavalo... Umas oitenta pessoas. Pernoitavam em Guiomar, na fazenda do Sr. Carlos Gentil-Homem, grande amigo da Família Sousa Monteiro, e que ofereceu um banquete ao homenageado e seus acompanhantes. Chegaram todos ao Cachoeiro no dia seguinte. Um delírio!... Discursos e mais discursos... Marche aux flambeaux. Vivas!

Certamente, o Dr. Jerônimo foi passar alguns dias no Monte Líbano, para repousar e abraçar sua Mamãe estremecida.

 

* * *

Façamos um parêntese, a fim de registrar que duas significativas manifestações Jerônimo recebeu em Santa Rita de Passa Quatro; a primeira, a 15 de janeiro de 1907, quando ali regressou, após oito meses e vinte e quatro dias de ausência. Uma comissão de representantes da cidade foi recebê-lo distante e, na sua entrada, tocou a Banda de Música Lira Santa-Ritense.

A segunda manifestação constou da Moção datada de 18 de junho de 1908, e lida na Assembleia Legislativa Estadual, em sessão de 4 de setembro do mesmo ano: — "Congratulando-se com a benemérita e ilustre Convenção do Partido Republicano Espírito-Santense, pela acertada e merecida distinção dispensada a tão insigne brasileiro".

A 28 de novembro seguinte (1907), o Dr. Jerônimo regressou a São Paulo, onde foi recebido pela Diretoria do Partido Republicano Paulista, que lhe prestou honras de grande político.

A 16 de dezembro, aderia-lhe à candidatura o Dr. Constante Gomes Sodré, 2° Vice-Presidente do Estado e monizista sincero e conceituado.

Acompanhavam-no todos os seus correligionários de São Mateus, inclusive a Câmara Municipal, que transmitiu o acontecimento a Jerônimo, de acordo com a proposta do vereador Américo Silvares.

Realizava-se, portanto, naturalmente, no cenário político do Espírito Santo, a transformação idealizada pelo jovem derrotado de 1900.

Entre a Convenção de 16 de outubro de 1907 e a eleição, a 2 de fevereiro de 1908, Jerônimo apresentou sua Plataforma de Governo. A 17 de janeiro de 1908, o "Diário da Manhã" divulgava esse documento, o "Manifesto Político", firmado no dia 15, e no qual declarava que: — "recebendo o mandato, empregarei as mais vivas forças, para prestar à minha terra os melhores serviços, aplicando, em favor do seu progresso todo o esforço de minha atividade".

Apreciou, em seguida, a segura atuação do seu ilustre antecessor e firmou-lhes justas e delicadas referências:

“O atual período governamental, apesar de rodeado dos mais sérios embaraços políticos, deixa, não hão negar, traços salientes de sua operosidade, de seus cuidados, em prol da causa pública, e maior, bem maior teria sido sua contribuição, se incidentes e embates vários não sobreviessem, desviando a atenção das suas autoridades.”

Após redigir essa e outras referências ao Presidente do Estado e ao Partido Republicano Conservador, inicia, propriamente, as perspectivas do novo quadriênio:

“O Governo a suceder prestará, sem dúvida, importante e eficaz serviço ao futuroso Estado do Espírito Santo, se souber utilizar as várias forças produtivas e aproveitar os seus prestantes elementos políticos, para interessá-los na obra patriótica do engrandecimento geral. Para isso, é de todo indispensável uma ação moderada e tolerante que, sem fraquezas prejudiciais, evite perturbações, no seio da adiantada família espírito-santense.”

Adiante:

“A moderação, a tolerância criteriosa, o respeito aos direitos individuais, a defesa de representação das minorias e uma direção governamental firme e meditada, amparada nos preceitos constitucionais e sinceramente dedicada ao bem comum, poderão proporcionar um período de paz útil e fecundo à nossa prosperidade e ao nosso engrandecimento.”

Sempre se referindo, com justiça e consideração, ao Presidente Henrique Coutinho, e demonstrando um estudo profundo e seguro dos problemas que teria de solucionar, tratou o Dr. Jerônimo da situação financeira do Estado, visto como "é problema capital da administração pública a solução das questões econômicas dos povos".

E aponta-lhe recursos de solução:

“No nosso Estado, é sensível, atualmente, a ausência de energia no espírito de iniciativa individual, cuja falta amortece qualquer movimento produtor.

Terá, certamente, resultados compensadores, a intervenção do Governo, criando e estimulando essa iniciativa particular e lhe proporcionando facilidades, para o início e fomento de novas indústrias que permitam tirar, do nosso ubérrimo solo e da nossa flora tão variada e luxuriante, as suas enormes riquezas.”

Aponta os meios de realizar esse objetivo, pela influência do Governo do Estado, junto ao Governo Federal e às Municipalidades, no sentido de conseguir a isenção de impostos aduaneiros para os materiais e produtos destinados às classes agrícolas e industriais, à conclusão dos melhoramentos, no Porto da Vitória, e auxílio, para a introdução de imigrantes. Tudo porque, bem avaliava o jovem candidato, filho de fazendeiros e experimentado, no trabalho árduo, na Fazenda Monte Líbano, que, sem transporte, sem educação e sem crédito, nada se poderia fazer para estimular a iniciativa particular, limitada, até então, aos trabalhos da agricultura, em moldes primitivos e pecuária incipiente. Aliás, em muitas zonas do Estado, não se animavam os lavradores a incrementar suas culturas, temerosos de que os produtos de seus trabalhos se perdessem deteriorados nas estações ferroviárias! Mesmo porque eram ignorados ou pouco divulgados os processos de imunização de cereais e difícil, de certo impossível, obterem-se os agentes químicos necessários.

Conhecedor seguro desses entraves ao progresso do Estado, Jerônimo referiu-se às estradas de ferro e de rodagem; mostrou a necessidade de rodovias complementares que estabelecessem a ligação dos centros populosos e produtores com a Leopoldina e a Diamantina. Referiu-se, ainda, à fundação de escolas agrícolas e industriais, ao fornecimento gratuito de sementes, à propaganda modesta e permanente dos produtos do Estado, à instituição de prêmios, à abertura de mercados que possibilitassem ao produtor colocar, com prontidão, os seus gêneros, libertados dos intermediários, etc.

Aborda, em seguida, a delicada situação financeira do Estado:

“Determinará uma nova era de largas restaurações e de inestimáveis vantagens para o Estado, a pontualidade rigorosa na solução dos compromissos que o oneram.

As amortizações, os resgates e as prestações de juros, efetuadas, precisamente, nos prazos fixados por Lei e por contratos, e sempre dentro das forças orçamentárias, dão testemunho indubitável e incontestável da seriedade da Administração.

É de toda a conveniência, indispensável mesmo, abolir, com decidido propósito, o regime de solver obrigações com produtos de novos empréstimos e de novas obrigações.”

Concluído o seu plano em relação às finanças, entrou o Dr. Jerônimo no seu programa sobre a educação, a instrução popular e à higiene pública, demonstrando, naturalmente, a impressão colhida no ambiente de São Paulo, onde viveu tantos anos e que tomou como paradigma administrativo. E, conforme veremos adiante, a reforma e a difusão da instrução pública foram grandioso empreendimento do seu Governo. Bastavam, para impô-lo à gratidão e à admiração dos seus conterrâneos. Não teve, de certo, em apenas quatro anos de Governo, tempo necessário à conclusão do seu vasto programa, e sentiu, depois, as consequências da falta de continuidade, na Administração Pública, diversidade cujos resultados assinalou, quanto às finanças: "Em matéria financeira, um programa, para cada Administração concorre, funestamente, para a desorganização desse importante serviço".

Na sua Plataforma, disse:

“Incumbe ao Governo, pela fundação de escolas técnicas, que não administrem só o ensino clássico, fazer desenvolver as qualidades práticas dos alunos, habilitando-os para empreender logo um trabalho produtivo, no terreno industrial, mercantil e agrícola.

É necessário banir, de vez, a crença de que só as profissões liberais podem garantir vitória na luta pela existência. E de que só elas proporcionam uma posição de superioridade e saliência na sociedade. A nossa mocidade deve ser preparada e aparelhada para o embate no campo das indústrias, do comércio e da agricultura, onde está travada a luta pela expansão econômica, procurada e reclamada por todos os países.”

Algumas de suas iniciativas, como o Instituto de Belas Artes e a Fazenda Modelo Sapucaia, além das fábricas no Vale do Itapemirim, desapareceram, após o seu quadriênio! Tudo porque um Governo que se instala quer logo modificar, reformar, substituir, por feitos novos e próprios, as realizações do seu antecessor.

A saúde pública, a polícia, o embelezamento da Capital, a Organização Judiciária e outros pontos da Administração Pública foram registrados no seu plano de Governo, prelúdio de uma nova era na vida republicana, no Espírito Santo.

Em princípios de janeiro, Jerônimo fora a Petrópolis, submeter à apreciação do Presidente Afonso Pena as linhas gerais desse "Manifesto Político". Espírito progressista e ponderado, ao ouvir a leitura feita pelo futuro Presidente do Espírito Santo, para S. Exa., inexperiente em assuntos administrativos, observou, com a atenção e o devotamento dispensados sempre à causa pública: — "Impossível ao Governo de um pequeno Estado executar um programa tão vasto, em curto prazo de quatro anos".

Segundo o noticiário da imprensa, vemos que o Dr. Jerônimo recebeu convite para voltar a Petrópolis. Conciliador e amigo de ambos, tentava o ilustre Conselheiro arranjar um encontro do futuro Presidente com o chefe político do passado.

Sucedeu, porém, que, no dia escolhido, Jerônimo informou-se, na antessala, de que o Dr. Afonso Pena encontrava-se em conferência com o Dr. Moniz Freire; retirou-se, cortesmente, pedindo audiência para o dia seguinte.

Nessa segunda entrevista, manifestou-lhe o venerando Conselheiro, de fato, o desejo de um acordo com o Dr. Moniz Freire. Jerônimo, porém, com a delicadeza que lhe era peculiar, sem quebra de personalidade, declinou da proposta e declarou que não podia ser desleal ao Presidente Henrique Coutinho.

Tudo corria às maravilhas! Jerônimo parecia um predestinado, digno da sorte que tão bem lhe sorria: — sua eleição, por todas as correntes políticas sufragada, foi praticamente unânime, conforme o Parecer da Comissão Legislativa, que a apurou a 7 de abril de 1908:

“Quanto à eleição de Presidente, não se poderia cogitar de nenhuma alteração, na ordem da votação, podendo dizer-se que a eleição do Dr. Jerônimo Monteiro foi quase unânime.”

A referida Comissão, composta dos Srs. Galdino Loreto, José Belo de Amorim, Clodoaldo Linhares, Pio Ramos e Paulo de Melo, verificou o seguinte resultado:

 

Para Presidente do Estado:

 

Dr. Jerônimo de Sousa Monteiro.........................7.989 votos

Barão de Monjardim..................................................13 votos

Dr. José Belo de Amorim.........................................10 votos

 

Para Vice-Presidente:

 

Dr. Henrique Alves de Cerqueira Lima...........7.746 votos

Joaquim Lirio..................................................................6.727 votos

José Coelho dos Santos...........................................5.746 votos

 

E outros menos votados.

Não foi uma eleição, alguém o afirmou: sim, uma verdadeira consagração popular! Entretanto, o Dr. Jerônimo estava em São Paulo. Não acompanhou as eleições, no Espírito Santo, em sinal de respeito à liberdade de pronunciamento do povo.

 

Notas:

 

A presente obra da emérita historiadora Maria Stella de Novaes teve sua primeira edição publicada pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo -APEES, em 1979, quando então se celebrava o centenário de nascimento de Jerônimo Monteiro, um dos mais reconhecidos homens públicos da história do Espírito Santo.

Esta nova edição, bastante melhorada, também sob os cuidados do APEES, contém a reprodução de uma seleção interessantíssima de fotografias da época — acervo de inestimável valor estético-histórico, encomendado pelo próprio Jerônimo Monteiro e produzido durante o seu governo — que por si só, já justificaria a reimpressão, além do extraordinário conteúdo histórico que relata.

 

 

Autora: Maria Stella de Novaes
Fonte: Jerônimo Monteiro - Sua vida e sua obra
2a edição Vitória, 2017 -  Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (Coleção Canaã Vol. 24)
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2019

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