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Meus Pais - Por Celso Saade

Capa do Livro: Tela de Elisa Vasconcelos

Meu pai, Antonio Jacob Saade, marcou muito minha vida. Eu sempre observei seu comportamento, suas atitudes e o exemplo que nos legou.

Sua história no Brasil é quase igual à de centenas de imigrantes libaneses. Meu avô veio primeiro, sozinho, para se encontrar com os irmãos que o haviam chamado a também tentar a sorte no Brasil. Dois anos depois, meu avô Arminio mandou buscar a esposa, Kafa, e o casal de filhos Antonio e Adélia.

Os libaneses, todos sabem, sempre foram grandes comerciantes e meu pai, com apenas 11 anos, começou sua trajetória pelos estudos, porque meu avô numa iniciativa clarividente contratou um professor para ensiná-lo. Embora a comparação seja um tanto difícil, aquelas aulas equivaleram a um curso primário, mas de grande valia.

Quando ele cresceu mais, começou também a negociar tecidos pelo interior do Espírito Santo. Falava um português impecável e completamente sem sotaque, talvez ajudado pelo fato de ter vindo muito novo. Eles moravam na Serra, mas por problemas pulmonares de minha tia Adélia, que por recomendação médica necessitava morar em um lugar melhor de clima, meu avô se transferiu com a família para Matilde, região serrana, no município de Alfredo Chaves.

Tempos depois seu estado de saúde se agravou e ela veio a falecer, estando sepultada em Matilde. A família, então, passou a residir em Vitória. Anos depois minha avó faleceu. Eu tinha pouco mais de dois anos.

Quando se casou, meu pai já era sócio de um tio da minha mãe n’A Libanesa, no endereço tradicional da Avenida Jerônimo Monteiro.

Àquela época não havia grandes lucros. Lembro-me de meu pai contando que a cada final de ano não havia o que dividir entre os dois. Ele comentou com o sócio que era melhor sair da firma para melhorar-lhe os ganhos. Seu sócio, entretanto, preferiu sair e deixar somente meu pai como dono, alegando a idade mais avançada. Assim foi desfeita a sociedade num clima de grande cordialidade, marca da personalidade do meu pai.

Um dos motivos de ter progredido, não tenho duvidas, foi a sua pessoa: o carisma, a educação, a reputação, a retidão.

Um dos elogios mais marcantes que ouvi em relação a ele foi dado pelo amigo Alziro Calmon Tavares. Ele me disse, há muitos anos, que toda vez que sua senhora fazia compras na loja comentava com ele a postura do meu pai. Então o Alziro me dizia que papai não podia ser assim, e que esse elenco de virtudes, aliado à sua bondade, era puramente profissional.

Senti-me lisonjeado, e com um quê de emoção, respondi-lhe que assim como era diante dos fregueses, era também como pai, marido, patrão e amigo.

Há muitos e muitos anos, sua vocação para o comércio continuava em alta. Passou a viajar duas vezes por ano ao Rio de Janeiro e a São Paulo, de trem, para fazer compras. Sob a batuta do seu bom gosto, A Libanesa se firmou como a melhor loja de tecidos finos.

Eram penosas essas viagens. A maria-fumaça atrasava, dava problemas e era desconfortável. Do Rio e de São Paulo ele escrevia cartas para a família, isso nos anos 40 e 50.

Na universidade da vida, também aprendeu a usar o dinheiro nos balanços anuais. Ele convertia o que restava do lucro de todas as despesas em compras, conseguindo sempre ter um bom estoque de tecidos, que já chegavam todos pagos à loja.

Dois fatos cívicos ligados ao meu pai me comoveram: o primeiro, quando a Câmara Municipal de Vitória outorgou-lhe o título de Cidadão Capixaba; o outro, saber que durante todos aqueles anos, quando a cidadania brasileira poderia beneficiá-lo, ele não a requereu. Somente depois que crescemos foi que ele, já economicamente estável, solicitou-a como agradecimento ao país que o lhe acolheu e o fez progredir. Sem outra intenção.

Quis o destino que nessa época eu tivesse servido ao exército e já cursando o 1º ano de Odontologia. Eu servia a 3ª Circunscrição de Recrutamento, no Parque Moscoso. Éramos só uns 18 soldados com serviço burocrático, que trabalhavam somente à tarde, e por isso pude continuar freqüentando a faculdade, que no 1º e 2º anos funcionava pela manhã.

Era comum virem principalmente do interior do estado muitos adultos jurar à bandeira, requisito importante para receber a cidadania ou a DUA, o documento de dispensa do serviço militar. A cerimônia era no quintal, pois a 3ª CR funcionava em uma antiga residência de dois andares.

Quando o comandante, coronel Humberto Pinheiro de Vasconcelos, soube que meu pai estava entre os próximos, mandou me chamar na sala de comando. Quase morri de medo, achando que ocorria algo muito grave. Afinal, o que o comandante de uma guarnição militar poderia querer de um soldado?

Graças a Deus, era para me informar que meu pai não juraria à bandeira junto com os demais, mas numa cerimônia íntima na sala de comando.

Antes da cerimônia, ele reuniu a oficialidade da 3ª CR na sua sala com meu pai e mandou me chamar. A cerimônia me emocionou e fiquei em grande débito com o coronel Vasconcelos pelo seu gesto cavalheiresco.

Em 1967, meus pais, a Vania e eu fizemos uma viagem de três meses pelos Estados Unidos e por vários países da Europa e do Oriente Médio.

No Líbano, chamava-me a atenção pela facilidade com que meus pais falavam a língua, principalmente minha mãe, porque na verdade eles viveram muito pouco da infância no país, e aqui no Brasil pouco falavam. Mamãe ensinou a Vania algumas frases para certas necessidades. Como por exemplo, quando perguntavam à Vania se estava gostando do Líbano, ela respondia em árabe: “Estou gostando muito”.

Aliás, quase todos os parentes e amigos achavam que a Vania, pelo seu biótipo, é que era a filha e eu, o genro.

Ficamos quase um mês no Líbano, passeando e garimpando origens. Descobrimos as ruínas da casa onde papai nasceu e soubemos também que ainda existe um colégio onde meu avô trabalhava na cozinha com seu tio. Papai nasceu em Bzumar, uma das muitas montanhas libanesas. Passamos alguns dias lá, num hotel muito solicitado para descanso e lua de mel.

Seu proprietário era, sem que soubéssemos, um dos parentes mais próximos. Aliás, lá o parente é parente, o parente do parente é parente e os amigos mais próximos são parentes também.

No Brasil, papai achava que só tinha um parente no Líbano.
Era uma tia, muito humilde. Todos os anos, por ocasião do Natal, ele mandava alguns dólares para ela. As cartas em agradecimento emocionavam-nos. Ela dizia sempre que o dinheiro havia chegado num momento de muita necessidade e isso era admirável, principalmente vindo de um sobrinho que ela nem conhecia.

O primo, dono do hotel, levou-nos até uma igreja que ele havia construído. Os vizinhos se prontificaram a colaborar, mas como na prática ninguém ajudou, ele foi construindo sozinho, aos poucos. O interior já estava praticamente pronto, com o altar-mor e outro altar secundário, à esquerda. O da direita não havia ainda sido feito.

Mais tarde, com a sutileza, papai perguntou em quanto ficaria a construção do altar que faltava, recebendo a resposta. No dia seguinte, papai deixou com ele um envelope contendo dólares necessários para a construção. Foram dois os que se emocionaram, meu pai e o primo. Papai argumentou que ele havia nascido ali e nada mais justo que contribuir para a conclusão da igreja. O primo disse que mandaria gravar no altar o nome de meu pai, como doador. Assim era meu saudoso pai.

Poucos anos mais tarde, meus pais voltaram ao Líbano, com meu irmão Katuya, e realmente o altar havia sido construído, e uma inscrição homenageava meu pai como doador.

Minha mãe é capixaba, mas também filha de libaneses, e como tinha excelente memória, narrava para nós fatos ocorridos quarenta e tantos anos antes, quando ela morou no Líbano, como uma riqueza de detalhes incomum à memória de criança. Ela contou que na sua infância, meu avô Abdo, que tinha loja em Vitória, junto com minha avó Nazira, levou seus nove filhos (um homem, duas mulheres, um homem, duas mulheres, um homem, duas mulheres) para morar no Líbano, e durante um tempo residiram próximos à praia de Jounieh.

Visitamos a casa, apesar de passar por pequenas reformas e os moradores terem se transferido provisoriamente. Trata-se de uma residência em estilo clássico, que até então estava em excelente estado de conservação e habilidade. Tudo que mamãe nos contava de Jounieh era exatamente igual ao que víamos: a casa ampla, os cômodos onde ela brincava com os irmãos, o quarto onde meu avô faleceu etc.

Ela nos dizia também que logo abaixo da casa havia uma pequena gruta, chamada de São Jorge, com um pequeno curso de água corrente onde se podia beber, lavar o rosto e fazer orações.

A praia de Jounieh é pitoresca, não muito grande e limitada por dois platôs. De um lado, um bairro residencial onde minha mãe morou, e no platô do outro lado, o imponente Cassino do Líbano, com restaurantes fartos e baratos e filmes com secções especiais e shows fantásticos.

Meu avô materno tinha uma grande área em Ashud, onde também moraram. Visitamos essa região, hoje repartida por uma estrada asfaltada. Mamãe também se lembrou de muitas coisas de Ashud, como de uma grande pedra onde brincavam. Ela tinha, como eu disse, excelente memória até para pequenos detalhes, como pudemos confirmar.

Minha avó retornou com os nove filhos para Vitória depois da morte de meu avô, que lhe deixou alguns imóveis nessa cidade. Minha mãe se casou com 16 anos e meu pai, com 32. Foram unidos e criaram três filhos: Cesar, Celso e Augusto Antonio (Katuya).

Pouco antes do meu casamento e com menos de três anos de clínica, não compara ainda meu primeiro carro, porque havia outras prioridades. Nessa época minha mãe insistiu com meu pai para        eu lhe comprasse um carro, porque o outro estava sempre ocupado. Foi então que ele comprou um Gordini zerinho e lhe deu de presente. Minha mãe ficou alguns dias com o carro e depois me deu as chaves dizendo que quando precisasse, pediria. Nunca pediu.

Esse carro me proporcionou muitos passeios a lua de mel em Teresópolis, Friburgo e adjacências. Vania e eu passamos até alguns dias em uma ilha particular, chamada Cutiatás, que se alcançava a partir de Mangaratiba, seguindo-se depois de lancha.

A ilha ficava a meio caminho de Angra dos Reis e era possível conseguir carona em Mangaratiba nas muitas lanchas que transportavam bananas. Essas “bananeiras”, como eram chamadas, trafegavam várias vezes por dia. O Gordini foi fundamental para o conforto da viagem.

De volta da lua de mel, moramos por alguns meses na Praia da Costa, aproveitando o verão, enquanto reformávamos o apartamento em Vitória, na Rua Sete, porque era mais comum morar-se no Centro.

Curtíamos muito a Praia da Costa e os passeios nos finais de semana, mas certa noite me pediram o carro emprestado para umas voltas pela praia. O carro capotou, Graças a Deus, não houve vítimas, mas o prejuízo foi muito grande eu tive que bancar. E para trabalhar em Vitória passei a ir de ônibus ou de carona com amigos.

Ainda sobre meu pai: no dia do seu falecimento um fato marcante me comoveu. Quando o féretro passava pelo centro da cidade, o Sr. José Assad cerrou as portas das Lojas Cannes, seu magazine na esquina da Praça Costa Pereira com a Av. Jerônimo Monteiro, em sinal de respeito e solidariedade. Esse exemplo de homenagem é cada vez mais raro e me pegou de surpresa.

No cemitério, emocionado, consegui agradecer com palavras aquele festo tão carinhoso, significativo e espontâneo.

Poucos anos depois do falecimento, meu pai voltou a ser homenageado pela Câmara Municipal de Vitória, que deu seu nome a uma Praça no Parque Municipal Padre Affonso Pastorem na Mata da Praia em Vitória.

 

Fonte: A Intenção da semente - Crônicas e ‘causos’, 2011
Autor: Celso Saade
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2013

Genealogia Capixaba

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