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Movimento Sindical – Por Fernando Achiamé

Armazém no Porto de Vitória, sem data

A importância do movimento sindical na história da cidade é inegável. Obtive de antigo militante sindical fotocópias de algumas atas de reuniões organizadas com a participação de diversos sindicatos para congregar as lutas por melhores condições de trabalho. Copio abaixo trechos de uma reunião acontecida em 14 de agosto de 1985 no auditório do Sindicato dos Arrumadores, Portuários Avulsos, Consertadores de Carga e Trabalhadores na Movimentação de Mercadorias em Geral, mais conhecido como Sindicato dos Portuários.

" (...) O companheiro representante do Sindicato dos Metalúrgicos pede a palavra e diz que o nome pelego vem de um modo de falar usado no sul do país que é como se chama o couro do carneiro com a lã, uma pele que os cavaleiros colocam entre a sela e a garupa do cavalo de modo a evitar ferimentos e maltratos sic) no animal. E que se o termo virou xingamento depois é outra história. Continua dizendo que nosso papel de sindicalistas nunca ser pelego, mas a lança enfiada na garganta do patrão. (...) Recorda que em 1961 ou 62, na inauguração de uma expansão da Ferro e Aço, esteve presente o presidente João Belchior Marques mas que não tinha estado com ele, mas comido de um bom churrasco, e feito por gaúchos vestidos a caráter, trazidos especialmente para a festança em época que churrasco era mais só dominado pelos gaúchos, que dominaram também o começo da política trabalhista, com Getúlio, Jango e Brizola. Finaliza dizendo que ele também é gaúcho de Santo Ângelo mas se encontra trabalhando e atuando nesta cidade há mais de trinta anos. Com a palavra, o diretor social do Sindicato dos Estivadores, Conferentes e Trabalhadores em Estiva de Minério do Estado do Espírito Santo considera, já que o companheiro metalúrgico entrou numa de hora da saudade, irá recordar também, não um churrasco, mas maus momentos que passou no dia que arrebantou (sic) o dito golpe de 64. Naquela época ficavam encostados junto dos armazéns do porto pelo lado da avenida Getúlio Vargas vários canos de ferro muito grossos que estavam sendo enterrados para aumentar o volume do abastecimento d'água de Vitória. Prossegue o companheiro contando que quando soube do golpe militar incentivou seus camaradas e com eles foi para a rua e rolaram os canos pela Getúlio Vargas afora de modo a impedir a passagem dos carros. Não demorou muito e a Polícia Militar chegou baixando o pau sem dó nem piedade no lombo dos trabalhadores da estiva. Ainda com a palavra diz que nunca poderá esquecer a cor cáqui dos uniformes dos policiais e seus longos cassetetes de madeira que maltrataram muito o povo trabalhador, inclusive com o incentivo de parte dos populares e de burgueses com seus carrões novos, fazendo com que rolássemos de novo os enormes canos para seus lugares encostados aos armazéns para desatravancar o trânsito. (...) Tomando a palavra o companheiro e correligionário fundador do Sindicato dos Motoristas diz que os patrões são unidos no atacado e que lutam por seus interesses pessoais no varejo e que nós trabalhadores somos o contrário, unidos por pequenos interesses, às vezes de fome, embora este seja um grande interesse de todos, e desunidos no atacado no que interessa às grandes questões que atingem o povo trabalhador. Continua dizendo ser de um sindicato em que seus membros sabem que na vida tudo é passageiro, menos eles que são motoristas e trocadores. (...) Naquele referido dia 1° de abril de 1964 os proprietários de empresas de ônibus trouxeram o povo para o centro de Vitória e depois mandaram recolher os ônibus para as garagens, com medo de quebra-quebra, mas também para prejudicar os trabalhadores que não puderam retornar com facilidade a suas casas ou se movimentar para a defesa de seus direitos. (...) Após rápido debate e com a condição de que não se fizesse propaganda de partido político foi dada a palavra ao companheiro de um partido de oposição que deu toda razão aos discursos precedentes e falou que o objetivo de nossa reunião é nos unirmos para conquistar novas vitórias nesta Vitória tão querida de todos. Recorda que realmente os patrões sempre vivem unidos, vejam a Associação Comercial de Vitória, que existe desde o início do século, assim como o Centro de Comércio do Café e, mais novas e também atuantes, a Findes - Federação das Indústrias do Espírito Santo e a Federação da Agricultura. Continua dizendo que no Brasil os patrões possuem muitos sindicatos mais fortes que os dos operários e que alguns daqueles sindicatos são verdadeiros sindicatos do crime contra os interesses da classe trabalhadora. (...) A interferência dos governos estadual e federal nos movimentos sociais reivindicatórios em nossa cidade sempre existiu, em especial na época das duas últimas ditaduras. (...) E para constar eu, Wilson Augusto Talmaco de Oliveira, servindo de secretário ad hoc fiz a presente ata que vai por mim assinada e por representantes dos seguintes sindicatos com sede em Vitória: dos Portuários, dos Estivadores, dos Motoristas, dos Comerciários, dos Alfaiates, dos Médicos, dos Tipógrafos, dos Bancários e dos Professores."

 

Escritos de Vitória – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES, 1996
Prefeito Municipal: Paulo Hartung
Secretária Municipal de Cultura e Turismo: Silvia Helena Selvátici
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo: Rômulo Musiello Filho
Diretor do Departamento de Cultura: Rogério Borges de Oliveira
Diretoria do Departamento de Turismo: Rosemary Bebber Grigatto
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim: Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias: Elizete Terezinha Caser Rocha
Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial: Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão: Reinaldo Santos Neves, Miguel Marvilla
Capa: Vitória Propaganda
Editoração Eletrônica: Edson Maltez Heringer
Impressão: Gráfica e Encadernadora Sodré

 

Fonte: Escritos de Vitória, nº 16 Movimentos Sociais, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo – PMV, 1996
Texto: Fernando Achiamé
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2018

Escritores Capixabas

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