Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Negros que podem ter chegado ao Espírito Santo vindos de outras regiões do Brasil

Principais regiões africanas de onde saíram os escravos para o Brasil

Considerando que muitos africanos e afro-brasileiros chegaram ao Espírito Santo vindos de outras regiões do Brasil, é necessário também verificar essa origem possível.

Em geral, as pessoas das etnias e nações africanas mais utilizadas como escravas no Rio de Janeiro foram os Benguelas, Ganguelas ou Bangalas, os Minas-Nejôs, os Minas-Mai, os Sás, os Rebolas, Os Caçanjes, os Minas-Cavalos, os Cabindas d’Água Doce, os Cabindas Massudas e os Moçambiques. Todos esses grupos eram chamados genericamente de Banto.

Porém, parece que a partir de Pernambuco e do Rio de Janeiro, muitos Bantos foram sendo distribuídos por todo o País. O povo Banto era uma etnia composta de quatro grandes nações: os Minas, os Ardas, os Angolas e os Crioulos. Estes últimos eram considerados, pelos senhores e comerciantes, muito rebeldes à dominação escravista e destemidos lutadores. Da mesma forma, os Minas eram famosos por sua bravura e capacidade de organizar revoltas e lutar contra os escravistas. Os Ardas eram vistos como um povo fogoso e ambicioso. Já os Angolas eram considerados fisicamente fortes e incansáveis no trabalho(1).

Em muitos documentos da escravidão, sob a denominação genérica de Angola estavam colocados todos os Bantos. Em contrapartida, muitos Nagôs e Fantis ou Achantis foram classificados como Minas.

Na Bahia, dentre as etnias africanas que foram trazidas o destaque intelectual e social coube, sem contestação, aos Sudaneses. Os próprios africanos chamavam os negros de línguas Tshi e Gá, da Costa do Ouro e da Costa dos Escravos pelo nome de Mina, e tantos tinham sido os escravos oriundos daquela região que por muito tempo, durante o tráfico, considerava-se a denominação Mina com o mesmo significado da palavra africano (2).

No Maranhão, os escravos eram conhecidos como negros Minas, mas havia também Jeje, Nagô e outras nações. Já na Bahia, a tradição dos Minas estava bem conservada, pois os africanos distinguiam perfeitamente duas espécies de Minas: os Minas-Achantis, que, em geral, eram chamados de Minas-Santés, e os Minas-Popos. Estes últimos eram povos de língua Tshi que atravessaram o Rio Volta e ocuparam uma pequena zona do território dos Jejes. A fama da valentia sanguinária dos Achantis e de Cumassi, sua capital, era bem viva na tradição dos africanos da Bahia (3).

No Rio de Janeiro, as nações negras mais encontradas eram os Minas, os Minas-Nejôs, os Minas-Mais e os Minas-Cavalos. Porém, é difícil saber ao certo a que povo se referiam essas denominações populares. É mais provável que na denominação genérica de Minas estivessem incluídos todos os povos da Costa do Marfim, Costa do Ouro e Costa dos Escravos.

Os Minas-Mais eram, provavelmente, os Jejes-Mais, isto é, Jaje-Marrim, mesma coisa que Jeje-Muslim e significando Jej-Muçulmano. Também é provável que fossem Nagôs os escravos chamados Minas-Nejôs.

Aliás, Nagô ou Nagoas era o nome pelo qual era conhecido no Rio de Janeiro um dos mais afamados grupos de capoeira ou capoeiristas.

Dentre os Sudaneses, quatro nações tiveram destaque, na Bahia. Essa certeza se dá pelos vestígios regulares que eles deixavam no povo local e pela influência cultural apreciável que exerciam sobre os negros em geral. Eram os Haussás, os Tapas, os Bornus e os Gruncis.

A tradição dos Haussás, no Estado da Bahia, manteve-se viva tanto na história das revoltas dos escravos, que está escrita e pode ser reconstruída através dos documentos, quanto na superioridade numérica dos seus mestiços e descendentes. Os Haussás que viviam na Bahia eram todos Malês ou Mulçumanos. Entretanto, também para o Brasil deve ter vindo grande número de Haussás fetichistas ou infiéis, como eram tratados os não islamizados, isto é, os que não tinham influências árabes e que não eram mulçumanos. Esse é o caso dos Fulas. Aliás, as guerras religiosas que deram supremacia ao islamismo criaram uma condição de inferioridade social para os negros não islamizados, principalmente os oriundos do litoral do Senegal e do leste do Rio Níger(4).

Como foram parte dos primeiros africanos chegados ao Brasil durante o século XVI, e chamados genericamente de escravos da Guiné, os Mandingas ou Mandes praticamente desapareceram e sua participação na vida dos negros brasileiros chegou à atualidade muito mais pela fama do nome, tanto na tradição, quanto no conhecimento direto de pessoas que conservavam a lembrança não só de muitos negros Mandingas propriamente ditos, como dos negros Sussus, outro ramo importante dessa família. O termo Sussu frequentemente aparecia nos cantos populares mais antigos. E ainda hoje, Brasil afora, persistem os termos mandinga e mandingueiro com o significado de feitiço e feiticeiro.

Negros Bantos ainda podiam ser encontrados até 1920 na Bahia. Estes, em geral, falavam, no mínimo, duas línguas africanas diferentes, da mesma forma que os Congos, os Angolas e os Nagôs.

Para demonstrar a grande presença Banto no Brasil, cita-se um estudo feito em 1817 e considerado um dos mais completos sobre o tema.

os portugueses, (...) são entre todas as nações os que têm o mais desenvolvido tráfico de escravos. Estabelecidos a mais de três séculos em diversos pontos da costa africana, fundaram aí o seu domínio (...) e as suas principais colônias no Reino de Angola, (...) em Benguela, em Moçambique e nas Ilhas da Guinéia, de Fernando Pó, da Ilha do Príncipe, de São Tomé e do Ano-Bom, (...).

Do mesmo modo mantêm forte comércio com as regiões orientais... até o interior do continente, os portugueses de São Paulo de Loanda, capital do Reino de Angola, (...) os escravos embarcados em Angola e de ordinário denominados somente angolas, descendem das tribos dos ausazes, pimbas, schingas e tembas. Os primeiros, mais civilizados, estão mais familiarizados com a língua portuguesa do que os outros. Ao norte dessas regiões o denominado Reino do Congo é muito frequentado pelos traficantes de escravos, os portugueses, porém, não têm aí nem domínio nem colônias próprias, mas ancoram seus navios na Baía de Cabinda, Aí recebem eles os escravos que lhes são trazidos das províncias do norte, Loango e Cagongo, e vão buscar outros dos portos do rio Zaire ou Congo, onde os negociam com os chefes do lugar.

Os negros que são enviados daí para o Brasil chamam-se comumente cabindas ou congos. Estes são um pouco mais fracos e baixos do que os acima mencionados, de cor menos preta. Muitas vezes os traços do rosto diferem de um modo notável do tipo etíope.

São muito apreciados por serem aptos à lavoura (5).

As indicações desse estudo sobre as principais origens dos negros da região sul-africana são claras e decididamente confirmam as já conhecidas procedências das regiões de Benguela, Angola, Cabinda e Moçambique.

Na falta de estudos mais precisos sobre os escravos Bantos introduzidos no Brasil, e na impossibilidade atual de reconstituir integralmente esse passado, acredita-se que seja possível ter como certas as seguintes designações:

a) Negros de Angola ou Ambundas, dentre os quais se destacam as tradições dos Caçanjes, Bángalas ou Imbángalas;

b) Negros Congos ou Cabindas, procedentes do estuário do Zaire;

c) Negros de Benguela, dos quais só se conhece essa designação;

d) Negros de Moçambique, entre os quais foram bem conhecidos os Macuas e os Anjicos (6).

Percebe-se então que os conhecimentos são muito gerais, superficiais e imprecisos, isso para áreas que têm sido, desde longa data, intensamente estudadas. Logo, é de prever que especificamente para o Espírito Santo as deficiências sejam ainda maiores.

De qualquer forma, antigamente na Bahia, as designações populares de Nagô, Mina, Angola, Moçambique etc conservaram, tanto para o homem comum, quanto para o estudioso o valor de sinônimo de “Negro da Costa” ou “africano”. Para os mais importantes cientistas brasileiros, foram os Bantos os povos negros que colonizaram o Brasil (7).

Se, por um lado, um antigo estudioso dos negros, chamado Nina Rodrigues, dizia que, em geral, a maioria dos negros brasileiros era chamado de Minas, outro estudioso, Roger Bastide, dizia que inicialmente todos os escravos vindos da África eram chamados de “Negros da Guiné” e que esses eram rebeldes e não se acostumavam à obediência. Os negros de Angola revelavam mais disposição para o trabalho e podiam ser facilmente ensinados pelos escravos antigos. Já os escravos domésticos eram escolhidos conforme sua beleza, inteligência, hábitos de asseio ou de higiene entre os negros Crioulos, Minas e Nagôs – em suma, quase unicamente entre os africanos ocidentais. Os escravos destinados aos trabalhos agrícolas, por sua vez, eram recrutados principalmente entre os Bantos (8).

Juana Elbein dos Santos, mais uma estudiosa da cultura africana no Brasil, entretanto, destaca que os africanos mais conhecidos no País eram os oriundos da Costa da Mina, de onde era maior o número dos que entravam na Bahia (9).

 

NOTAS

(1) RODRIGUES, Nina. Os africanos no Brasil. São Paulo. Cia Editora Nacional.Coleção Brasiliana. V. 9. 5. edição. 1977. p. 35.

(2) Rodrigues, 1977, p. 107.

(3) Rodrigues, 1977, p. 107 e 108.

(4) Rodrigues, 1977, p. 108 e 109.

(5) Rodrigues, 1977, p. 114 e 115.

(6) Rodrigues, 1977, p. 116 e 117.

(7) Rodrigues, 1977, p. 16 e seg.

(8) BASTIDE, Roger. Religiões africanas no Brasil. São Paulo. V. 2. Livraria Pioneira Editora/USP. 1971. p. 68.

(9) SANTOS, Juana Elbein dos. Os nagôs e a morte. Rio de Janeiro. Ed. Vozes. 1977. p. 32.

 

GOVERNO DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO

Governador

Paulo Cesar Hartung Gomes

Vice-governador

César Roberto Colnago

Secretário de Estado da Cultura

João Gualberto Moreira Vasconcelos

Subsecretário de Gestão Administrativa

Ricardo Savacini Pandolfi

Subsecretário de Cultura

José Roberto Santos Neves

Diretor Geral do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo

Cilmar Franceschetto

Diretor Técnico Administrativo

Augusto César Gobbi Fraga

Coordenação Editorial

Cilmar Franceschetto

Agostino Lazzaro

Apoio Técnico

Sergio Oliveira Dias

Editoração Eletrônica

Estúdio Zota

Impressão e Acabamento

GSA

 

Fonte: Negros no Espírito Santo / Cleber Maciel; organização por OsvaldoMartins de Oliveira. –2ª ed. – Vitória, (ES): Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2016.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2020

Especiais

Jerônimo Monteiro -  Capítulo XIV

Jerônimo Monteiro - Capítulo XIV

Aspecto do salão Domingos Martins, do palácio do governo, no dia da instalação do Congresso das Municipalidades (1908-1912)

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

O Fim da Escravidão – Por Cleber Maciel

Pode-se dizer que ele começou com as lutas dos primeiros escravos e foi acelerado pelas revoltas, fugas e formações de quilombos

Ver Artigo
A luta continua – Negros no Espírito Santo

Fugas, revoltas e quilombos continuaram acontecendo. Em 1855, novamente a região de São Mateus foi agitada pelas manifestações de escravos

Ver Artigo
Aspectos da Escravidão – Castigos

A pessoa escravizada era considerada um objeto e, como tal, podia ser comprada, vendida, alugada, emprestada, doada, dividida, trocada etc

Ver Artigo
Aspectos da Escravidão – Trabalho e Família

O Espírito Santo era, durante o período escravista, uma província essencialmente agrícola e apoiada na força de trabalho dos escravos

Ver Artigo
A Revolta dos Escravos de Queimado

A Revolta do Queimado foi uma insurreição de escravos que aconteceu no então rico Distrito do Queimado, Serra, em 19 de março de 1849

Ver Artigo