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Regatas de Santa Catarina

Pedra dos Ovos, Vitória 1920 Photographia J. F. Oliver

Na igreja do Rosário, em Vitória, celebrava-se, a 25 de novembro de cada ano, a festa de Santa Catarina, virgem e mártir, cuja imagem, de tamanho pequeno, ficava no altar de São Benedito, tal como ainda agora.

No domingo antes do dia da santa, os peroás iam colher o mastro para a festa de São Benedito, cerimônia simbólica e real a um só tempo, digo simbólica, visto que o lenho então colhido não era, exatamente, aquele que seria enfincado no primeiro dia das celebrações consagradas ao santo negro, conforme explicação adiante.

Saíam, cedinho, em embarcação embandeirada, das imediações do Penedo, ou melhor, da Pedra Branca, sob vivas e foguetórios, a Banda Rosariense tocando os melhores dobrados, rumo ao Rio Marinho, onde se demoravam até o cair da noite, quando retornavam ao ponto de partida. Esse retorno era igualmente comemorado com grandes manifestações de regozijo, os céus da baía de Vitória, mais se iluminavam com o espocar de fogos de artifícios, a população em peso no cais e beiradas do mar vivando os tripulantes da embarcação, até que esta ancorasse no Cais das Pedreiras, próximo ao Forte de São João. Dito cais deixou de existir, não há muito, visto os aterros para a abertura da Avenida Beira Mar.

O lenho escolhido era sempre da melhor madeira, jacarandá, cedro ou peroba, sendo leiloado, de imediato, para custear as festas beneditinas, a realizarem-se, na igreja do Rosário, nos dias 25, 26 e 27 de dezembro.

Exatamente no dia de Santa Catarina, repito, a 25 de novembro, os capixabas assistiam, então, as famosas regatas da santa, que antecediam, por tradição, as festas de São Benedito, regatas, que na realidade, se constituíam de um único páreo, a corrida se disputando em longas canoas tripuladas por bom número de remadores, todos pescadores, que se encarregavam de fazer seus próprios remos, de pá larga e comprida, cabo curtíssimo, leves e resistentes.

O ponto de saída do páreo era na Pedra dos Ovos e o de chegada no Cais do Santíssimo já extinto, situado nas proximidades de onde, bem mais tarde, se construiu o Teatro Glória.

Sabe-se que, nessas popularíssimas regatas, disputavam, de um modo geral, duas embarcações, sendo os concorrentes caramurus e peroás, distinguindo-se um dos outros por lenços verdes ou azuis amarrados à cabeça. Também, às vezes, pintavam suas canoas, daquela ou desta cor, para que melhor fossem visualizados. Não havia juízes para verificação de qual a canoa vitoriosa, já que essa verificação ficava a cargo do próprio povo. Duas delas se tornaram conhecidíssimas: a Borboleta dos peroás, e a Mariposa dos caramurus. Conhecidíssimos, também, os remadores Geminiano, Anacleto do Marinho e José Benedito do Sacramento (José Bino), que acabou se aposentando como tesoureiro dos Correios, em Vitória, quando já muito idoso.

Os remadores, que haviam vencido o páreo, percorriam as ruas estreitas da cidade, sob os aplausos ruidosos da população, e, se vencedores os peroás, lá se iam eles até o adro da igreja do Rosário, matraqueando os remos, a cantarolar:

 

Lé, le, lé, o-lá!

Viva Santa Catarina!

 

Nessa ocasião, levantavam ali o antigo mastro (o colhido no domingo antes da festa de Santa Catarina, que, como disse, era apenas simbólico, já havia sido leiloado), tendo na extremidade a bandeira de São Benedito. Esta bandeira, nos últimos anos, isto é, até a década de 50, era sempre pintada ou retocada pelo artista Aldomário Pinto, “peroá doente”, como ele mesmo se dizia, sendo que o mastro original ainda se conserva na sacristia daquela igreja.

A historiadora Maria Stella de Novaes contou que, em 1874, durante a realização da regata de Santa Catarina, quando tudo estava preparado para a partida, o jovem Arthur Neto, apelidado Capitão, aceitou lugar num batelão para assistir à corrida, no centro da baía, apesar da agitação do mar, sendo que, logo às primeiras remadas, a embarcação submergiu, nas proximidades do Cais Grande, hoje Praça Oito.

- “Salvem o Capitão!” foi o grito angustiado geral.

Súbito, uma escrava da família Neto -, Catarina de Oliveira, atira ao chão seu xale (pano da Costa) e corajosa, rompe a multidão, jogando-se ao mar. Desaparece... o barbeiro Fontes Correa despe-se do fraque, do colete, com relógio e corrente de ouro, chapéu e bengala, para seguir o exemplo de Catarina. Passado alguns momentos de ansiedade, ei-la que surge, a nadar com um braço e o outro preso ao Sinhô-Moço.

A multidão recebeu-a delirante. Formou-se um préstito para acompanhar a heroína e o quase afogado à residência do Sr. Manuel Pinto Neto, pai do Capitão. Não faltou a Banda de Música Peroá, nessa manifestação.

Liberta, naquele momento, Catarina passou a assinar-se Catarina de Oliveira Neto.

As regatas de Santa Catarina se realizaram até 1910, aproximadamente, quando o Clube de Regatas Álvares Cabral e o Saldanha da Gama, ambos fundados em 1902, já vinham disputando essas corridas em baleeiras, despertando cada vez mais a curiosidade e os aplausos dos ilhéus.

Santa Catarina foi martirizada no ano 316 pelo Imperador Maximiliano, em Alexandria, então capital do Egito. O objeto de seu martírio: - uma roda guarnecida de pontas agudas e lâminas afiadas, para que todo o seu corpo fosse estraçalhado, sendo que, pela fé e oração da mártir, essa máquina de suplício arrebentou-se, convertendo-se, então, muitos pagãos presentes à cena. Furioso, Maximiliano mandou decapitá-la.

 

Fonte: Velhos Templos de Vitória & Outros temas capixabas, Conselho Estadual de Cultura – Vitória, 1987
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2017

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