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Ururau (1827) - Por Basílio Daemon

Observe as ruas onde foi feito o cerco através do arquivo de Sandro Chiabai Paterlini, anos 1920

Tendo neste ano saído a procissão de Corpus Christi, em seu dia próprio, aconteceu que tendo chegado à baía desta capital o brigue de guerra Ururau se preparasse traiçoeiramente uma surpresa, e esta foi que, quando recolhia-se a dita procissão, que era acompanhada pelas irmandades, ordens terceiras, corpo de Milícia e povo, ao chegar ao largo da Misericórdia foram cercadas as bocas das ruas da Assembleia, de Pedro Palácios, ladeira de Palácio, rua da Imprensa e ladeira da Misericórdia pelo batalhão dos henriques e marinheiros do brigue Ururau, a mandado do então comandante de Armas Francisco Antônio de Paula Nogueira da Gama, procedendo-se depois a um rigoroso recrutamento na Milícia e povo, sendo agarrados pais e filhos, casados e solteiros, viúvos e aleijados, conduzindo-se-os para bordo do Ururau, pelo que teve de se lamentar não pequenas desgraças e infelicidades, atirando-se alguns indivíduos ao mar, sendo outros perseguidos; tornou-se a cidade em um clamor geral, vendo-se em alarido, choros e lamentações a percorrerem as ruas da capital mulheres desgrenhadas: umas mães outras esposas e outras irmãs daqueles que se achavam presos e que iam seguir para a República Argentina como soldados e marinheiros a sustentar a guerra que ali tínhamos.

Algumas atiravam-se do cais ao mar, outras, ajoelhadas, oravam por eles, constando ter havido afogamentos; foi uma cena contristadora.(436) Quanto à imagem de São Jorge que ia na procissão, foi abandonada e depois recolhida à cadeia, onde esteve por muitos anos sem a quererem dali tirar e só em 1863 é que foi conduzida à Capela Nacional a pedido do bacharel José Feliciano Horta de Araújo; não houve desde essa época nem mais saiu nesta capital a procissão de Corpus Christi.

Destes recrutados, parte deles só aqui voltaram à custa de imensos sacrifícios de suas famílias, outros venderam os bens que possuíam para comprarem a baixa e muitos outros nunca mais voltaram à província. Ainda hoje, quando se fala nesse arbitrário ato, os velhos com horror descrevem as cenas contristadoras desse dia lúgubre, em que a cidade parecia estar sendo saqueada!

É este fato uma nódoa indelével na vida do coronel José Francisco de Andrade e Almeida Monjardim, então comandante de milícias, que passou o comando ou deixou assumi-lo o comandante das armas, e assim viu sacrificadas muitas famílias, suas patrícias, não tendo força bastante para escusar aqueles que pela lei eram isentos do recrutamento.

 

Nota: 1ª edição do livro foi publicada em 1879
Fonte: Província do Espírito Santo - 2ª edição, SECULT/2010
Autor: Basílio Carvalho Daemon
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2019

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