Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando desde 2000 a Cultura e História Capixaba

A partida de Samuel - Por Mário Gurgel

Primeira Igreja Batista de Vitória, 1940 - Construída em 1934 e demolida em 1982

Há uma emoção indescritível na romaria que agora se estabelece à porta principal da Primeira Igreja Batista de Vitória. É um momento de dor intolerável para um grupo que, mergulhado na mais intensa agonia, recebe e recolhe os depoimentos da solidariedade humana. É um casal venerável e humilde, uma jovem professora pública, pais e filha, solenes e impávidos, vendo o desfilar de uma multidão interminável de católicos, protestantes, espíritas, homens sem crença, judeus e filiados de credos novos, todos mergulhados na surpresa e na incredulidade. Seus semblantes pesarosos e sinceramente sombrios, trazem uma palavra e um gesto de conforto aos que foram sacrificados, de repente, pela trágica ocorrência da última segunda-feira.

A mocidade batista da Primeira Igreja está ferida e inconformada. Samuel era um de seus elementos de destaque, alegre, comunicativo, simples. No seu lar humilde, constituía a grande esperança e promissora realidade. Ao lado da irmã, nós os vimos, durante mais de quatro anos, subindo e descendo o morro do Moscoso, acenando aos amigos, orando nos cultos públicos, ensinando na escola dominical, cantando nos grupos corais maravilhosos da sua Igreja. O pai, modesto servidor da Central Brasileira, severo e terno, observava e sorria, vendo a alegria dos seus jovens, a eterna presença do sol e da vida, na pureza cristã dos seus meninos.

Quase sem se saber como, estamos ouvindo a mensagem do Pastor que se despede da sua ovelha, que solicita a magnanimidade do Céu para a alma boa do seu servidor. Os moços vinham de uma atividade religiosa, cantando, talvez, os seus hinos, recordando a passagem do Livro Santo, falando dos sucessos da sua pregação, e a fatalidade os espreita, roubando, a dois deles, a vida preciosa e útil e ferindo a outros, num terrível cortejo de angústias e de interrogações.

As fisionomias estão maceradas pela vigília, os olhos de todos estão imersos no pranto. Homens de Estado, representantes populares, chefes de empresas. Operários, escolares, mestres e dirigentes de igrejas, de todas as igrejas, ali permaneceram e dali seguiram o cortejo melancólico, homenageando a grandeza daquelas vidas consagradas à sua religião e aos seus deveres.

Conta o Livro Santo, que Ana, esposa de Elcano, filho de Jeroboão, pediu ao Senhor a glória de um descendente. E, comparecendo diante de Helí, pontífice do seu povo, entoou, em murmúrios, ao criador, os hinos de seus queixumes: "Senhor dos exércitos, se tu te dignares a olhar para a aflição de tua serva e te lembrares de mim, se te não esqueceres dela e se lhe deres um filho varão, eu te oferecerei por todos os dias da sua vida e não passará navalha pela sua cabeça". E Deus deferiu a sua petição e concedeu-lhe a fecundidade. E Samuel inspirou nos lábios de sua mãe o cântico de seu regozijo, na exaltação de sua maternidade e nas esperanças da graça que possibilitariam ao seu menino o exercício de funções privilegiadas.

E disse Ana: "O arco dos fortes se quebrou, e os fracos foram armados de força. Os que antes estavam abundantes de bens, assalariaram-se para terem pão; os famintos se fartaram. . . O senhor levanta do pó o necessitado, e do esterco eleva o pobre para o fazer sentar-se entre os príncipes e para lhe dar um trono de glória". Foi o que aconteceu com esse nosso jovem amigo. Sendo humilde e obscuro, era descendente de proletários simples e anônimos, que honraram e enalteceram em aleluias a presença do Senhor. Este o fez justo e digno e eles viram chorar em volta do esquife do seu filho, a multidão de amigos que, nos braços, foram levar ao campo santo, o corpo inanimado do jovem Samuel que oferecera a Deus todos os dias de sua nobre vida....

(O Diário de 10/07/64)

 

Notas do Site: A primeira Igreja Batista era localizada na rua General Osório, esquina com a Av. Cleto Nunes. Foi contruída em 1934 e Demolida em 1982. A foto é do Fotógrafo Octavio Paes - 1940

Fonte: Crônicas de Vitória - 1991
Autor: Mário Gurgel
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2019



GALERIA:

📷
📷


Literatura e Crônicas

Pedra dos Passarinhos - Do Livro Krikati Tio Clê e o Morro do Moreno

Pedra dos Passarinhos - Do Livro Krikati Tio Clê e o Morro do Moreno

São elementos de fantasia tomando como pano de fundo um cenário de tamanha importância da história do Espirito Santo, uma vez ali se encontram as primeiras marcas da civilização capixaba

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Ano Novo - Ano Velho - Por Nelson Abel de Almeida

O ano que passou, o ano que está chegando ao seu fim já não desperta mais interesse; ele é água passada e água passada não toca moinho, lá diz o ditado

Ver Artigo
Ano Novo - Por Eugênio Sette

Papai Noel só me trouxe avisos bancários anunciando próximos vencimentos e o meu Dever está maior do que o meu Haver

Ver Artigo
Cronistas - Os 10 mais antigos de ES

4) Areobaldo Lelis Horta. Médico, jornalista e historiador. Escreveu: “Vitória de meu tempo” (Crônicas históricas). 1951

Ver Artigo
Cariocas X Capixabas - Por Sérgio Figueira Sarkis

Estava programado um jogo de futebol, no campo do Fluminense, entre as seleções dos Cariocas e a dos Capixabas

Ver Artigo
Vitória Cidade Presépio – Por Ester Abreu

Logo, nele pode existir povo, cidade e tudo o que haja mister para a realização do sonho do artista

Ver Artigo