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A política e os intelectuais - Por Luiz Buaiz com texto de Sandra Medeiros

Os comunistas Almir Sapateiro, Clementino Santiago, Granja e Vespasiano, ao lado de Luiz Buaiz

O jeito expansivo e a grande generosidade fizeram de Luiz Buaiz um homem de muitos amigos. Desde muito jovem ele era assim: de espírito agregador, fazia amizades indistintamente, onde estivesse. E foi acumulando amigos desde a infância, na vizinhança, na escola, no trabalho. Pessoas comuns ou proeminentes, que com ele conviveram e das quais não se esquece. Ele é capaz de lembrar o nome do guarda que dava plantão no Posto de Saúde, do intelectual, do político, do comerciante, do médico e do lanterninha do cinema. E fala de todos com o mesmo interesse.

Amigos de maior ou de menor convivência, todos recorriam a Luiz Buaiz e a todos ele atendia. Dessa forma estendeu seus laços de amizade pela cidade inteira. O médico Michel Assbú, um dos mais próximos, ressalta essa característica: a vontade de fazer o bem, ajudar, que nele se sobrepõe à amizade. Assbú diz que Luiz Buaiz tem uma filosofia: na hora de ajudar, atende primeiro os inimigos, depois os amigos. Coisa que ele explica assim: os amigos podem esperar, os inimigos não. Por inimigos Assbú entende unicamente os adversários políticos, porque ele próprio desconhece qualquer inimigo de Luiz.

Se Luiz Buaiz fosse enumerar todos os intelectuais com quem conviveu daria para escrever um livro, mas ele, aos poucos, vai lembrando um e outro, até que para, para não esquecer nomes queridos. São tantos que mesmo a sua memória prodigiosa pode falhar.

Durante a conversa ele vai se lembrando de gente que se destacou quando ainda era jovem, como Jair Etienne Dessaune, capixaba de Castelo, formado em Direito pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais da atual UFRJ, para ele “um advogado brilhante”.

Luiz Buaiz recorda que o escritório de Jair Etienne Dessaune ficava na Rua do Rosário. Professor de Direito Romano e Direito Comercial, advogado de destaque na capital, ajudou a fundar a Seção Espírito Santo da Ordem dos Advogados do Brasil, em 1932. E assumiu diversos outros cargos públicos na capital: foi, por exemplo, chefe de Polícia, vereador e reitor da Ufes nos anos 60.

Dessaune gostava de escrever e era interessado em esportes. Presidiu o Náutico e passou pelas diretorias do Saldanha da Gama e do Vitória Futebol Clube. E foi diretor do vespertino Folha do Povo.

Luiz Buaiz também se lembra “demais” de Vicente Caetano, capixaba de São José do Calçado e, como Dessaune, advogado formado no Rio de Janeiro. E conta: “Ele era casado com Alaíde Rosindo. Quem levou Vicente para operar a garganta fui eu. Ele foi operado no Rio, no Hospital Moncorvo Filho. Antes de ir ele disse: ‘Só vou operar se Luiz Buaiz for junto.’ Ele foi operado por um médico que era muito mais novo que ele e que lhe deu seis meses de vida. O médico é que morreu nesse prazo, e Vicente Caetano viveu mais 20 anos.”

A importância de Vicente Caetano é grande para o Espírito Santo, como ressalta o amigo Luiz. Ele começou a exercer a advocacia na comarca de São Pedro de Itabapoana (hoje parte de Mimoso do Sul). Depois foi prefeito de São Mateus e de Alegre, e deputado estadual.

Em Cachoeiro foi procurador da Fazenda e professor. Lecionou na Escola Normal Muniz Freire, um colégio importantíssimo no estado.

Foi Vicente Caetano quem promoveu a criação do Serviço Jurídico do Estado, em 1943, que deu origem à Procuradoria-Geral à frente da qual esteve por três vezes. Ele teve participação importante na elaboração do anteprojeto da Constituição do Espírito Santo, em 1947. Como era comum entre os intelectuais da época, atuou como jornalista. Foi até diretor do diário O Alegrense.

Outro nome que Luiz Buaiz destaca é o de Erasto Dias da Silva, outro capixaba de Castelo: “Ele trabalhava no Departamento de Saúde, com Jayme Santos Neves. Foi muito importante na equipe, embora não fosse médico”. Erasto Dias da Silva dedicou grande parte da carreira ao serviço público. Depois de concluir os estudos da Faculdade de Direito do Espírito Santo (atual Ufes), chegou a Procurador de Feitos da Saúde Pública.

Manoel Moreira Camargo, advogado conhecidíssimo e muito respeitado, é outro que está na memória de Luiz Buaiz: “Fomos colegas. Ele dava aula de Química no Colégio Estadual. Eu dava Biologia. Ele também dava aulas particulares.”

Moreira Camargo foi professor de Direito Administrativo na Ufes, foi procurador do Tribunal de Contas estadual, redator forense do jornal A Gazeta e publicou A Evasão das Areias Monazíticas do Espírito Santo.

Também advogado, também juiz, colaborador de jornais, professor e escritor, Luiz Buaiz lembra Renato Pacheco. Morador da Rua 7, bem perto da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória e de O Diário, ele foi juiz em Alegre, em Conceição da Barra e em Santa Leopoldina. Renato Pacheco é autor de A Oferta e o Altar, Cantos de Fernão Ferreiro, Porto Final e escreveu para todos os jornais da capital. Sua generosidade e erudição eram conhecidas. Ele foi professor da Ufes e contribuiu para a criação de novas faculdades, como a FDV.

Luiz Buaiz, que também foi professor, destaca duas pessoas que conheceu bastante, os irmãos Aristóbulo e Kosciuzko Barbosa Leão. Ele os vê como de importância inquestionável para a Educação no Espírito Santo: foram eles que criaram e dirigiram o Colégio São Vicente de Paulo. “O São Vicente é um dos mais importantes de toda a história do Espírito Santo. Era uma escola só para homens. O ensino era de altíssima qualidade, o diretor, Aristóbulo, carinhosamente chamado professor Tobinha, cuidava do colégio com muita dedicação. O ensino era militarizado. Os alunos usavam uniforme cáqui, um quepe, eram todos muito estudiosos.” E segue lembrando como, nos desfiles de 7 de Setembro, o São Vicente impressionava pelo garbo dos alunos e altíssima qualidade da banda, preparada por militares. “A banda do São Vicente era excelente, era muito admirada.” Luiz deu aula no São Vicente e não esquece o nome de alguns professores: José Leão, o próprio Aristóbulo e Judith Leão Castelo.

Ele fala de todos esses intelectuais com vivo entusiasmo, com sentimento de amizade e admiração, e traz à conversa um nome que não foi próximo, mas protagonizou um episódio que hoje faz parte do folclore político do Espírito Santo: Mirabeau da Rocha Pimentel.

Houve um tempo em que Mirabeau foi figura onipresente aqui. De família importante de Serra, foi escrevente na Biblioteca Estadual e no Arquivo Público, antes de formar-se em Direito, no Rio. Em 1917 foi promotor em Afonso Cláudio. Depois, em Pau Gigante (Ibiraçu).

Mirabeau foi juiz em Santa Cruz, em Cachoeiro de Itapemirim e em Vitória, onde também foi procurador-geral do estado.

A partir daí cresce a sua participação política e ele coleciona secretarias: nos governos Nestor Gomes (1920-1924) e Florentino Avidos (1924-1928), Mirabeau foi secretário de Estado de Instrução e credita-se a ele a melhoria da estrutura das escolas estaduais e da qualidade do ensino espírito-santense. Foi ainda interino na Agricultura. No governo de Aristeu Borges de Aguiar foi secretário de Interior e Justiça. Apesar de tudo isso, um fato mancharia a sua biografia.

E é aqui que volta a memória prodigiosa de Luiz Buaiz. Ao falar das “casas maravilhosas que foram construídas na Villa Moscoso” ele conta que Mirabeau teve que deixar o cargo pressionado pela Revolução de 1930 e destaca: “Aquela casa que hoje está pintada de rosa, que vende vestidos de noiva, foi do Mirabeau. Ele era cunhado do governador Aristeu Aguiar. Na época, ambos foram contra a revolução de Getúlio, contra a Aliança Liberal. Quando as forças de Getúlio foram chegando – primeiro foi instituída uma junta governativa, depois o Bley, que era capitão do Exército, veio tomar conta do governo – eles pegaram um navio e foram embora.”

Aristeu Aguiar e seus seguidores sofreram represália em função da oposição política ao poder central, mas Buaiz acredita que também houve hostilidade popular. “Antes dessa fuga, no dia 13 de fevereiro, que foi um dia fatídico na história do Espírito Santo, ali em frente ao Carmo, na pracinha onde tem o busto de Afonso Schwab, que é um cara maravilhoso, um clínico esmerado, uma pessoa dedicada, que morreu cedo, de que pouca gente se lembra, houve um comício. Mirabeau mandou a cavalaria pra lá pra dispersar o comício. Foi um tiroteio, uma correria. E o povo não esqueceu. Quando a Junta assumiu as pessoas cantavam, pelas ruas: “Cadê, cadê,/Mirabeau e Aristeu que ninguém vê?/ Azularam com o dinheiro do Estado/E deixaram/ E deixaram o povo sacrificado.” Virou marcha de Carnaval.

Mirabeau da Rocha Pimentel, que também fez parte do Instituto Histórico e Geográfico do estado, “nunca mais voltou ao Espírito Santo. O filho dele, Marcelo Pimentel, chegou a ser presidente do Tribunal Superior do Trabalho. Mas a casa dele é um primor. Depois foi de um parente meu, Tuffi Buaiz, e hoje está lá. São poucas coisas que restam de Vitória antiga. Todo o Parque Moscoso foi maquiado.”

Luiz Buaiz tem um vastíssimo conhecimento da política. É capaz de falar de momentos e curiosidades que só quem viveu de perto os fatos pode lembrar. E direta ou indiretamente, ele e sua família fizeram parte da história econômica, social e política do Espírito Santo.

Dos partidos que surgiram e não existem mais, ele pode listar o Partido da Lavoura (PL), Partido Comunista Brasileiro (PCB), Partido Social Democrático (PSD), Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Aliança Nacional Libertadora (ANL), Partido da Representação Popular (PRP) e União Democrática Nacional (UDN). Essas agremiações movimentaram a cena política na infância e juventude de Luiz Buaiz. “Muitos médicos do interior se elegeram para cargos importantes”, lembra ele. Em Mimoso, dois deputados do Governo e um da Oposição eram médicos. Eli Junqueira, Rubens Rangel, Evaldo Castro... Mimoso elegeu um deputado federal, também.

Nesse cenário, desperta curiosidade o fato de o Partido da Lavoura ser uma legenda de expressão. O grande nome do PL foi Carlos Gomes de Sá, eleito deputado estadual duas vezes consecutivas. Ele ajudou a elaborar a Constituição do Estado do Espírito Santo, promulgada em 1935. Chegou a Secretário de Interior e Justiça, foi chefe de Polícia e professor de História da Escola Normal Pedro II.

Comunistas e integralistas também encontraram terreno fértil. Benjamin de Carvalho Campos, carioca que chega a Vitória como calceteiro, elegeu-se deputado estadual pelo Partido Comunista, alcançando com isso repercussão nacional. Até o partido ser declarado ilegal, em 1947, Benjamin protagonizou, com Judith Leão Castelo, debates que movimentavam a cidade. A Assembleia fervia quando os dois se enfrentavam. Com a ilegalidade, ele refugiou-se em Castelo, nas terras de Flávio Francisco de Medeiros, até poder voltar.

O PCB teve expressão também em Cachoeiro do Itapemirim, onde foi organizado por Kleber Massena. Sindicalista atuante e candidato derrotado na tentativa de chegar à Assembleia, era um dos colaboradores assíduos do jornal do partido, a Folha Capixaba, com redação em Vitória, na Escadaria Maria Ortiz. Daquela época, ainda estão vivos dois velhos comunistas: Antônio Granja e Clementino Santiago.

Luiz Buaiz recorda que, com o grande número de italianos no sul do estado, a Ação Integralista Brasileira conseguiu muitos seguidores aqui, principalmente em Castelo, Cachoeiro e Pacotuba. Os integralistas, que se identificavam com o regime de Mussolini, na Itália, gostavam de desfilar, sempre de uniforme verde, e tinham adeptos até na Igreja. Indiretamente, eles estiveram bem próximo de Luiz Buaiz, que narra: “Lastênio Calmon era casado com minha tia. Morava em Ibiraçu, volta e meia era preso, tinha ligação com Raimundella, do Rio. Ele liderou a juventude integralista no Espírito Santo. Outros integralistas, aqui, eram Oswaldo Zanello e Padre Ponciano...”

Mais que Vitória, Cachoeiro era uma cidade aberta a novidades políticas. Lá a Aliança Nacional Libertadora (ANL), fundada quando Luiz estava com 14 anos, conseguiu seguidores. Mas não vingou na capital. A ANL, que pretendia neutralizar a influência fascista no país, tinha composição insólita: seu presidente de honra era o comunista Luiz Carlos Prestes e nas suas fileiras estava o anticomunista Carlos Lacerda.

Confirmando a simpatia cachoeirense por novidades, o PTB, criado, em 45, por seguidores do presidente Getúlio Vargas, conseguiu adesões de peso entre eles: Juracy Magalhães Gomes e Gilson Carone. Mas teve muitos seguidores também em Vitória.

O Partido da Representação Popular era uma força. Basta dizer que Lúcio Merçon (quinze anos mais novo que Buaiz), tendo começado na política como vereador, em Castelo, pelo PRP, foi deputado estadual seis vezes seguidas, a primeira delas em 1963, a última em 1990. Até 1967, quando o regime militar extinguiu muitos partidos, reduzindo a cena política à Arena e ao MDB, Merçon foi deputado pela legenda.

Para Luiz Buaiz, calejado por três disputas e apenas uma vitória, a política mudou muito daquela época para cá. “Antigamente você se elegia por mérito. Aqui em Cariacica tinha um sujeito, que era coronel, que dizia: ‘Tem tantos votos. É pra Fulano de Tal.’ Em Timbuí... Anésio Ferreira, tio de Zé Ignácio. Então, havia fidelidade. Lajinha do Pancas, Luiz Zouain... Se tivesse 200 votos lá, ele dizia ‘é pra fulano’ e era pra fulano. Havia fidelidade, havia partidarismo duro. Hoje, dizer que não compra voto? Compra. E às vezes compra uma mercadoria que o sujeito nem entrega. Ele compra os votos dele, depois vem o resultado e nada.”

E analisa: “Eu acho que depois do governo Juscelino as coisas foram se modificando. O imediatismo tomou conta das pessoas. Naquele tempo se o sujeito era de um partido, ele era de um partido. Se era do PSD de Carlos Lindenberg ou se era da UDN, da oposição, cada um tinha o seu lugar, e todos se respeitavam. Hoje o sujeito está num partido, amanhã está em outro... Mudou tudo, o que levou a esse caos. E mudou a vida das pessoas.”

 

PRODUÇÃO

 

Copyright by © Luiz Buaiz – 2012

 

Coordenação do Projeto: Angela Buaiz

 

Captação de Recursos: ABZ Projetos

 

Texto e Edição: Sandra Medeiros

 

Colaboraram nas entrevistas:

Leonardo Quarto

Angela Buaiz

Ruth Vieira Gabriel

 

Revisão: Herbert Farias

 

Projeto e Edição Gráfica: Sandra Medeiros

 

Editoração Eletrônica: Rafael Teixeira e Sandra Medeiros

 

Digitalização: Shan Med

 

Tratamento de Imagens: TrioStudio; Shan Med

 

Fonte: Luiz Buaiz, biografia de um homem incomum – Vitória, ES – 2012.
Autora: Sandra Medeiros
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2020

 

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