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O Itabira e o Frade e a Freira - Por Gabriel Bittencourt

Pico do Itabira - década 1930

Do trecho da Rodovia BR 101, que liga a cidade do Rio Novo ao acesso de Cachoeiro de Itapemirim, avistam-se duas formações geológicas de características ímpares no país: "Frade e Freira".

Este conjunto representa, com nitidez impressionante, a figura de um frade, sentado, que tem ao lado, em plano inferior, como se ajoelhada estivesse, uma freira, com o seu manto, numa atitude de confidência.

Impressionado com a forma e a lenda que envolvem o monumento, D. Pedro II, em visita à então Colônia do Rio Novo, em 1859, desenhou mais de uma vez o seu perfil (Levy Rocha, Viagem de D. Pedro II..., 1980). Mas foi o poeta capixaba Benjamin Silva quem imortalizou o conjunto granítico no soneto "O Frade e a Freira", que figura em várias antologias nacionais:

"Na atitude piedosa de quem reza

e como que num hábito embuçado,

pôs naquele recanto a natureza

a figura de um frade recurvado.

 

E sob um negro manto de tristeza

vê-se uma freira, tímida, a seu lado,

que vive ali rezando, com certeza,

uma oração de amor e de pecado...

 

Diz a lenda — uma lenda que espalharam —

que aqui, dentre os antigos habitantes,

houve um frade e uma freira que se amaram...

 

Mas Deus os perdoou lá do infinito,

e eternizou o amor dos dois amantes

nessas duas montanhas de granito.

 

Não menos famoso também nas proximidades da cidade de Cachoeiro de Itapemirim, eleva-se o Itabira: esguio monólito que os cachoeirenses fizeram símbolo da cidade, e os intelectuais de sua Academia de Letras transformaram-no no seu escudo e emblema. Dele também se ocupou Benjamin Silva no poema Itabira:

É um esguio pedaço de granito

Da singular conformação de um dedo

Que parece indicar que no infinito

Existe algum mistério algum segredo.

 

Segundo Antonio Marins (Minha terra meu município, 1918), em 30 de junho de 1882 foi descoberto no sopé do mesmo Itabira uma caverna onde se acharam inúmeros restos de valor arqueológico.

Esses notáveis monumentos graníticos, portanto, cantados em verso e prosa, não podem ficar susceptíveis à sanha de algum iconoclasta da natureza que porventura apareça e resolva transformá-los em pedra britada. O tombamento dessas paisagens naturais pelo Conselho Estadual de Cultura, bem como das jazidas arqueológicas (se ainda existirem), certamente tranquilizaria os homens de sensibilidade preocupados com o nosso patrimônio histórico e artístico. Nesse sentido já se manifestou o prefeito municipal de Cachoeiro de Itapemirim.

Pela feição extraordinária com que foram dotados pela natureza e pelo que representam para as comunidades local e espírito-santense como um todo, este manifesto, creio, representa o interesse de todos aqueles que desejam a preservação do que de mais expressivo, ao lado de outros importantes monumentos, existe em nosso Estado, e que, em caso algum devem ser destruídos ou mutilados.

A Gazeta - Vitória 3 de março de 1984.

 

Fonte: Notícias do Espírito Santo, Livraria Editora Catedra, Rio de Janeiro - 1989
Autor: Gabriel Bittencourt
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2021

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