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Chafarizes – Por Elmo Elton

Reforma do Chafariz da Capixaba na administração do Prefeito Américo Monjardim, que exerceu dois mandatos: 1937 a 1944 - 1946 a 1947

A Prefeitura Municipal de Vitória anuncia que vai restaurar o velho e desativado chafariz da esplanada da Capixaba, na atual Rua Barão de Monjardim, cuja ereção se fez por ordem do primeiro presidente provincial do Espírito Santo, Ignacio Accioli de Vasconcellos, tendo a construção se iniciado a 12 de fevereiro de 1828. Foi seu construtor o mestre-pedreiro Francisco Pinto de Jesus, que, já a 2 de março daquele ano, recebia agradecimentos pela pronta feitura desta e de outras obras que ficaram entregues à sua responsabilidade, tais como as ampliações dos chafarizes da Lapa e da Fonte Grande, ambos datando do século XVIII. O chafariz da Capixaba foi restaurado em 1938, por determinação do prefeito Américo Poli Monjardim, que mandou, inclusive, fundir duas artísticas torneiras de bronze, ali colocando-as, sendo as mesmas roubadas, logo depois.

A água da Capixaba procedia do morro do Vigia (ou da Vigia, como querem alguns), sendo apreciadíssima por todos, tanto pela frescura quanto pela sua pureza, visto que nascida de fonte protegida por mata espessa, das mais primitivas da ilha. Dizia-se, então, como ainda se repete, que quem, vindo de fora, bebesse dessa água, não mais se afastaria do Espírito Santo, tornando-se capixaba de coração. "Bebi água da Capixaba e nunca mais. deixei Vitória" era corriqueiro se ouvir dizer em rodas de amigos, tal como, há pouco, me repetia um ex-colega de trabalho.

Lê-se em memória escrita por Accioli de Vasconcellos que "a cidade da Vitória contem trez (fontes), a da Capichaba, a da Fonte Grande e a da Lapa, pequenos regatos que vertem entre morros contiguos, aproveitados por canos que rematam em chafarizes, mas tão pobres em tempo seco, que tem chegado os moradores a mandalos buscar em canoas no Rio Marinho, quarto de legua distante da Cidade. Os mais habitantes das Vilas e Povoações, ou se servem dos rios e regatos contiguos, ou de fontes denominadas Cassimbas (sic). As agoas da Cidade passão por boas, não obstante principiar no terceiro dia de guardadas a alterarem-se adquirindo hum gosto aluminozo, ou nitrozo."

Até os primeiros anos deste século, Vitória dispunha de cinco chafarizes, a saber: o da Fonte Grande (antes chamada Fonte do Conselho), o da Lapa, o da Capixaba, o da ladeira do Chafariz (atual rua Nestor Gomes) e o da rua São Francisco, este inaugurado, festivamente, a 13 de maio de 1856, tendo o padre João Luiz Fraga Loureiro lido, na ocasião, o seguinte soneto, de sua autoria, com alusão aos caramurus, devotos de São Benedito, com imagem venerada no Convento de São Francisco, aos quais se ficava devendo a realização da obra:

Nunca deixou de ser dia mui grato

o do grão Benedito Franciscano;

risonho sempre foi, mas este ano

famoso se tornou por mais um fato

 

O Aleixo imortal, firme Torquato

dotaram, neste dia soberano,

o partido leal c'ramuruano

c'um monumento de elegante ornato.

 

Um chafariz, de finíssima escultura

de gosto singular, gosto excelente,

à hora festival, teve abertura.

 

Decorou este ato o Presidente,

a música deu brilhante partitura,

com aplauso geral de toda a gente.

 

A água que jorrava nesse chafariz procedia do aqueduto construído pelo guardião frei Paulo de Santo Antônio (1639-43), para abastecimento do Convento, sendo o líquido originário da Fonte Grande. Tal aqueduto foi demolido, arbitrariamente, pelo engenheiro Torres Homem, em 1880.

A 2 de dezembro de 1855, data do aniversário de Dom Pedro II, o presidente Evaristo Ladislau Neto, após assistir, às treze horas, na Capela Nacional, a soleníssima Te Deum, seguiu rumo à Fonte Grande para inaugurar o novo encanamento de água destinado ao chafariz erguido ao pé daquele morro, sabendo-se que, seis anos antes, no governo do capitão Felipe José Pereira, cerimônia idêntica verificou-se na Capixaba.

O problema de abastecimento de água à cidade, focalizado por todos ou quase todos os presidentes provinciais, conforme se lê em seus relatórios, jamais encontrava solução a contento, daí a inquietação da população, mormente em épocas de prolongadas estiagens, quando as fontes diminuíam consideravelmente o volume de água para os chafarizes. As "filas de apanhar água", então, se tornavam mais extensas. Formavam-se de barris, latas, potes e demais utensílios, os carregadores ou "donos" se assentavam em derredor, onde encontrassem lugar, e "vigiavam a sua vez" de substituir o antecessor. Discussões, brigas a socos e pontapés, xingamentos às autoridades, tudo isso acontecia nas áreas dos chafarizes, a polícia intervindo a miúde, prendendo os exaltados, quando não surrados os soldados que ali iam a serviço.

Em 1886, na presidência do Dr. Antônio Joaquim Rodrigues, mais revoltado o povo diante da constante escassez de água, providenciou-se a perfuração de poços artesianos em vários pontos da ilha, substituindo-se, em parte, a água que de há muito, vinha sendo apanhada no rio Marinho e trans-portada até Vitória, por canoas. O desembarque era feito no Cais Schmidt, antes chamado Cais do Queimado, porque ponto de desembarque de pessoas chegadas desse lugar. Reinaugurou-se, aí, a Fábrica de Cerveja, adquirida de Manuel Pedro Marques, a 28 de setembro de 1881, pela firma Serrat & Schmidt. Essa fábrica foi, a partir de 11 de fevereiro de 1884, o primeiro prédio da cidade que teve água encanada, tirada da Fonte dos Cavalos.

O novo chafariz da Lapa, construído, em substituição ao primeiro que ali existia, no governo do Dr. Henrique de Athayde Lobo Moscoso, era obra, em pedra lavrada, do artista Franz Berlanda, o mesmo que esculpiu o busto do laborioso presidente, tal visto no Parque Moscoso, tendo sido inaugurado a 21 de junho de 1889.

Em 1891 fizeram-se os primeiros estudos para o abastecimento de água canalizada em Vitória, conforme Companhia Torrens, Cleto Nunes Pereira, sendo que tal firma, também encarregada de outros melhoramentos urbanos, não cumpriu as cláusulas do contrato que firmara com o governo. Deu início apenas aos alicerces do reservatório do morro da Santa Clara, em Vitória, e cuidou de represar as águas do rio Formate, no município de Viana. A Companhia Torrens tinha escritório na Rua do Comércio, nº 17, desde fins de fevereiro daquele ano.

No primeiro governo republicano do Dr. José de Mello Carvalho Moniz Freire (1892-1896) iniciou-se a canalização das águas da Fonte Grande, para, depois, fazer-se a construção das caixas, declarando-se de utilidade pública a desapropriação das matas que circundavam os mananciais da Fonte Grande, Lapa e Capixaba.

No ano seguinte, a 9 de abril, tiveram começo os trabalhos de abastecimento de água à cidade, com o preparo do terreno, no morro de Santa Clara, onde seria construído o reservatório geral destinado à distribuição do líquido à população, colocando-se a pedra fundamental, para a construção da caixa d’água, a 23 de outubro do mesmo ano. As obras não tiveram prosseguimento. A 6 de março de 1905, Aristides Navarro passou a fornecer água aos ilhéus, um barril para cada família, a preço variável, a entrega sendo feita semanalmente. O líquido procedia, agora, não mais do rio Marinho, mas do Jucu. Esse mesmo senhor, dois anos depois, trouxe para Vitória três bondes, de tração animal (bondinhos puxados a burro), através da Empresa Carril-Suá, de sua propriedade, o que constituiu um atrativo para a pequena cidade.

Finalmente, no governo de Jerônimo Monteiro (1908-1912), acabou-se com o martírio de apanhar-se água nos chafarizes ou de comprá-la aos que dela faziam negócio, como o, depois rico, empresário Antenor Guimarães, entre outros.

Para a canalização definitiva de água, em Vitória, coube ao engenheiro Ceciliano Abel de Almeida proceder aos estudos iniciais, sendo o primeiro manancial examinado o do rio Formate, onde havia sido construída uma represa pela Companhia Torrens. Constatou-se a excelência da água. embora pequeno o volume do rio, ainda que suficiente para abastecer a cidade. Nomeado prefeito municipal de Vitória, aquele engenheiro, ouvindo alguns moradores da região, entre os quais o Sr. José Morais, proprietário do terreno onde se localizava a represa, concluiu que o manancial não era perene. Abandonado o Formate, foram verificados outros mananciais, entre os quais o braço sul do Jucu, em Santa Isabel, o Borba, em Viana, o Duas Bocas, em Cariacica, e o Santa Maria, em Santa Leopoldina. Jerônimo Monteiro, após estudos cautelosos, preferiu aproveitar o manancial de Duas Bocas, "tanto pela análise da água procedida pelo Laboratório Nacional, quanto pelo menor número de propriedades a desapropriar, ainda pela perenidade do manancial, atestada por valiosas informações que remontavam a mais de cem anos". Assim, a 6 de agosto de 1909, o governo fez um aditamento ao contrato de 13 de novembro de 1908, celebrado entre o Estado e o Sr. Augusto Ramos, para execução das obras de abastecimento d’água, esgoto e luz, obrigando-se o contratante a construir a linha adutora até o reservatório do morro de Santa Clara e a fornecer à cidade 2.400.000 litros de água diários, notícia recebida pelo povo entusiasticamente. A 25 de novembro do ano seguinte, água abundante jorrava na Praça Oito e em outros pontos da cidade, abastecendo as primeiras instalações públicas, até então servidas pelos presos, sob escolta. Vitória, inteira, vibrou, a população se abraçando, muitas pessoas chorando de contentamento, conforme se lê em jornais da época e tal se constata pelas fotos tirada na ocasião.

O chafariz da Capixaba, o único que, dos cincos, restou de pé, autêntica relíquia de Vitória, merece ser preservado, também tombado pelo Conselho Estadual de Cultura, devendo a Prefeitura, durante a prometida restauração, conservar-lhe o traçado original, tirando apenas a sigla PMV, que figura na parte central do imóvel, porque imprópria, ali colocada, é claro, posteriormente. Sugiro seja, no local, afixada uma placa, em mármore ou bronze, com o histórico do monumento, visto pouco ou nada conhecida, pelas novas gerações, a memória da cidade.

 

Fonte: Velhos Templos de Vitória & Outros temas capixabas, Conselho Estadual de Cultura – Vitória, 1987
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2017

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