Morro do Moreno: Desde 1535
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Cidade Presépio: Terra - Por Renato Pacheco

Praça Oito - Relógio em construção com projeto de Jayme Figueira

O que levaria os portugueses a, no século XVI, fundarem a pequenina vila de Nossa Senhora da Vitória, na capitania do Espírito Santo, uma das muitas com tal nome no império lusíada?

A resposta pode ser encontrada numa descrição feita pelo naturalista alemão Konrad Guenther, quase quatrocentos anos depois:

“Agora se interrompe a cadeia montanhosa: surge um canal de águas cintilantes, cor de cinza. Por aí se mete o vapor. À esquerda, ergue-se um morro altaneiro; por trás deste avulta um segundo, em cujo topo está um velho convento, que parece uma fortaleza. Vamos penetrando pelo canal, que abre caminho terra adentro, feito um fiorde norueguês. Passamos ao lado de colinas cobertas de bromélias; e um matagal transborda por entre duas elevações. Urubus estão assentados sobre uma rocha nua. Ao fundo do fiorde está Vitória (...) No meio das casas amarelas vê-se a nave recém-construída de uma igreja estilo gótico; ao fundo levantam-se rochas a pique e num dos lados da cidade, sobre as colinas, repousa, entre árvores, um alvo convento. Belas são as formas dos morro que se fecham sobre a baía do Espírito Santo e a água azul é resplandecente...”

É isto aí... navegadores, os portugueses procuravam um bom porto para abrigo de suas caravelas. E encontraram-no numa fascinante mistura de azul e verde, num dos últimos contrafortes da serra do Mar.

O deslumbramento dos primeiros colonizadores europeus, que foi o encantamento do naturalista alemão, vai ser reencontrado em inúmeros cronistas da terra: “um sol doirado de primavera, num azul escampo de nuvens, fazia incidir sua luz torrencial sobre colinas circundantes da cidade, refulgindo, ainda molhada dos aguaceiros da noite da véspera, e iluminava todas as reentrâncias da baía maravilhosa. O casario, faiscante à luz, trepava pelas encostas verdejantes daqueles outeiros ornamentados em formação de presepe, como alguém já o reconheceu. O braço de mar, que circunda a velha e heroica ilha de Santo Antônio e de Duarte Lemos, era uma fita envolvente de escrínio, com a cor esverdeado-brilhante aqui, carregada ali, chamalotada de ilhas bordadas em toda a extensão.”

O cronista Jair Tovar, autor do texto acima transcrito, viajava de avião e entendeu que dificilmente outra terra, vista do alto, se comparará à nossa, no esplendor panorâmico.

A ilha de Vitória, incorporada ao mundo ocidental com o nome de ilha de Santo Antônio, no dia 13 de junho de 1535 é uma mistura de manguezais e morros.

Dos manguezais, boa parte foi aterrada, em busca o homem de terrenos planos e próximos ao mar. Os morros são muitos, mas agigantam-se, segundo Alberto Stange, na direção do SO-NE os do Moscoso, Fonte Grande e Frei Leopardi, este com 296 metros de altura. E mais, na zona norte, mais próximos ao mar, registram-se Gurigica, Suá, Bento Ferreira, Itapenambi, Gamela, Guajuru, Barro Vermelho, Itapebucu e Monte Belo.

Entre estes morros e o mangue Adelpho Monjardim localiza o centro histórico e mais os bairros Praia Comprida, Maruípe, Bomba, Ilha Santa Maria, Constantino, Jucutuquara, Forte São João, Vila Rubim (antiga Cidade de Palha) e Santo Antônio.

O centro está situado entre o Parque Moscoso e a Fonte da Capixaba, e nele se concentram o comércio, os bancos, cinemas, jornais, órgãos da administração, Escola Normal, Biblioteca e Catedral. Entre a Capixaba e o Moscoso fica a praça Oito de Setembro, “centro geográfico e ponto de reunião”.

Do outro lado da baía, uma pedra mágica, o Penedo, pertencente ao vizinho município de Vila Velha, e o outro onde está o secular convento de Nossa Senhora da Penha.

Nesta ilha, contornada ao norte pelo canal da Passagem e pelo Lameirão, um imenso manguezal, e ao sul pelo canal da baía de Vitória, aberto há milênios pelo embate do mar e da foz do rio Santa Maria da Vitória, reina um clima ameno, com chuvas de janeiro a março, e frio quando frentes frias, que o povo chama de “vento sul”, vêm da Antártida.

Em janeiro de 1934 houve enchentes no interior e os rios Itapemirim, Itabapoana, Doce e São Mateus inundaram as várzeas vizinhas. “Em janeiro de 1935 foi um verdadeiro dilúvio que se abateu sobre a cidade, quando, então, o pluviômetro marcou 136,2 mm.” Também “caiu uma chuva pesada à meia-noite de 5 para 6 de março de 1940m, quando o total precipitado foi de 147,7 mm”. Estes intensos temporais, aliados a fortes ventos, levavam, à falta de conveniente dragagem, a inundações em todo o centro de Vitória.

Do final do século passado, Aerobaldo Lellis dá uma excelente descrição do centro de nossa cidade; “Era a Vitória daquele tempo uma cidade pacata e de pequenas proporções. Não possuía arrabaldes nem subúrbios, estendendo-se a área urbana da colina da Santa Casa às Pedreiras. Aí a cidade tinha a entrada fechada por uma cancela, a partir da qual só se encontrava o Forte de São João, velho e carcomido, com os seus canhões enegrecidos debruçados, na baixa murada, em perpétuo descanso de lutas que jamais se travaram. Para a frente o caminho estreito, aberto no matagal, dava acesso à chácara do velho Azevedo, avançando, em curvas irregulares, ao Romão, até a horta do Pio, tenente da briosa, que, todas as manhãs, de cesto ao ombro, abastecia Vitória de verduras frescas. Para o lado do hospital, a cidade morria nas fraldas da colina, tendo ao cimo o antigo casarão de caridade, um asilo para loucos e, mais abaixo, o cemitério.

Tudo o mais era uma vegetação cerrada, a cobrir os morros que cercavam a capital, além do mar que trazia as sua águas por todo o Moscoso, inundando a mangue, que se estendia até o Quartel e à rua do Norte, espalhando-se ainda até a rua da Santa Casa. A praça da Independência (Costa Pereira) era o pequenino largo da Conceição, tendo ao fundo a igreja daquela Santa, e, em cujo local, mais tarde, se ergueu o Melpômene.”

A cidade sofreu profundas reformas modernizadoras nos governos Muniz Freire, Jerônimo Monteiro e Florentino Avidos.

“Cidade Presépio, chamou-a um poeta; Pérola do Atlântico apelidou-a um romancista; Surpresa Verde, considerou-a um herói; Canaã, identificou-a um diplomata; Cidade Sereia, classificou-a um jornalista; Atlântida, reconheceu-a um geógrafo; Cidade Risonha, chamou-a um teatrólogo.”

É assim que a revista Canaã abre, gongórica e poeticamente, um ensaio fotográfico sobre Vitória.

Arroubos poéticos à parte, já se tem comparado Vitória a Lisboa, era o colonizador tentando reproduzir, na colônia, a imagem da terra-mãe: “pelo caminho vou identificando pedaços da rua general Osório e paro diante de uma réplica perfeita do antigo Clube Vitória. Um pouco à frente há uma vitrine de uma casa de comércio. Olho a placa e vejo que é A Colegial da Jerônimo Monteiro. Está toda iluminada porque é noite. Há pessoas descendo dos automóveis que estacionam defronte ao Teatro Glória, onde, na sessão única das 20 horas, está sendo exibido Divino Tormento, com Nelson Eddy e Jeanette MacDonald. Do outro lado da rua há uma banca de jornais onde muitos adquirem a revista O Cruzeiro. Resolvo não ir hoje ao cinema. De alguma forma, como nos sonhos, mesmo com A Colegial fechada consigo comprar um livro exposto na vitrine com o título Eça de Queiróz e o século XIX, de Vianna Moog. Pego o bonde e vou para casa.”

Os pontos nodais do centro de Vitória eram, em 1930, a praça Costa Pereira, a praça Oito de Setembro e o Parque Moscoso.

A praça Costa Pereira, o povo chamava de praça da Independência porque foi inaugurada em 1922, ano em que se comemorava o centenário da Independência do Brasil. Detinha os cinemas Glória e Carlos Gomes, os terminais de ônibus intermunicipal e dos bondes. Mostrava imponente o primeiro edifício de apartamentos de Vitória – o Antenor Guimarães – e assistia impávido aos “footings” de sábado e domingo da classe média vitoriense – moças para um lado, rapazes para o outro. Nela se situavam a Casa madame Prado, o “must” da moda, uma cancha de basquete, um banco, o Hipotecário e Agrícola de Minas Gerais, e os Cafés Estrela, Avenida e Moderno. Na Costa Pereira ainda havia ponto de automóveis de aluguel, com os motoristas Antônio Alves, vulgo Buzina, Amaralino Melo, Enéas Tavares, João Walquírio, Aguilar Mululo, conhecido como Gasolina, Aureliano Bochecha e Darcy Xavier (DX), que se orgulhava de ser maçom e comunistas.

Retrata a praça Oito o cronista Carlos Santana Có: “Mas, apesar da chuva e do vento, a praça Oito regorgita. Funcionários que deixaram as repartições, estudantes que saíram dos colégios, gente que não tem o que fazer, no momento, e gente que nunca teve ocupação. Assunto: a guerra, entrecortada de ‘tesouradas’ na vida alheia.”

Nela a colônia portuguesa, tendo à frente Alberto Oliveira Santos, erigiu, em 1935, monumento em homenagem ao IV Centenário da Colonização, substituído em 1943 por um relógio elétrico, adquirido no governo de Aristeu Aguiar, e que, antes de soar as horas, tocava os primeiros acordes do Hino Espírito-Santense.

Entre as praças Oito e o Parque Moscoso o Palácio do Governo, antigo Colégio dos Jesuítas, com seus misteriosos subterrâneos, e, numa cidade de funcionários públicos, centro das atenções gerais, especialmente quando, em 29 de novembro de 1939, foi alvo de um incêndio, nas oficinas da Imprensa Oficial que em seu térreo funcionavam.

O Parque Moscoso era preferido para residência das elites abastadas, especialmente na parte das ruas 23 de Maio e José de Anchieta e avenida República.

Tinha coreto, orquidário e instalações do Parque Tênis Clube. Durante o dia era ponto de reunião das famílias e estudantes. À noite servia ao “footing” das empregadas domésticas e dos policiais militares, cujo quartel ficava próximo. No coreto exibia-se, em retretas famosas, a Banda da Polícia Militar, com mais de um século de existência.

Neném Grijó, o administrador do parque, de impecável terno branco e com uma flor à lapela, fiscalizava os meninos que possivelmente estivesse gazeando aulas.

No Parque Moscoso pontificava também o Clube Vitória, cognominado “o aristocrático do Moscoso”. Relembra Marzia Figueira um dia em que com “um longo vestido branco em renda e tule, sorriso nervoso no canto dos lábios, deslizava pelo salão... Era Vitória, era o clube, era o baile das debutantes, era o Carnaval (...) O Clube  Vitória era o ponto de encontro mais tradicional e elegante da sociedade capixaba. Ali se reuniam para as festas de gala as moçoilas casadouras, os rapazes de boa família, os bons partidos, os apaixonados assumidos, os que namoravam escondidos. E os pais. E as mães. A vigiar a prole e a cuidar das boas maneiras e dos bons costumes, a se cumprimentarem cordialmente, nas ocasiões solenes, como o réveillon. Que ali rompia, à meia-noite de 31 de dezembro, ao toque da orquestra, ao apogeu das luzes, saudando o ano novo com assobios, reco-recos e uma grande, genuína alegria.”

Temos assim, em mãos, para estudar, uma pequena cidade, com 430 km2 de área, e população de cerca de 30.000 habitantes. Aproximadamente 6.000 casas das quais 22 são edifícios públicos e 7 igrejas. Trinta e um médicos, 15 engenheiros, 24 advogados, 19 dentistas e 13 farmacêuticos constituem seu pessoal “de nível superior”. Cento e dez ruas, 11 praças, 8 ladeiras, 2 travessas, 4 escadarias, 5 arrabaldes, área calçada de 127.317 m2, 207 automóveis, 122 caminhões, 23 motocicletas, 26 km de linhas de carris elétricos, 735 aparelhos telefônicos, 2 jornais diários, eis Vitória em 1934.

 

Fonte: Os Dias Antigos,1998
Autor: Renato Pacheco
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2012 

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