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Desembarque inglês na Baía do Espírito Santo (3ª Parte)

Vista do Morro da Vigia

De acordo com Misael Ferreira Pena

“Chegando o ano de 1592, o pirata inglês Thomas Cavendish, depois de repelido da Capitania de São Vicente, onde perdeu muita gente, reuniu-se ao navio Roebuck – comandado pelo capitão Roberto Morgan – e continuando a assolar as costas do Brasil, veio ter à Capitania do Espírito Santo, trazendo por guia, um português, prisioneiro, que prometia meter os navios corsários dentro da barra daquela Capitania, onde desejavam entrar, pela abundância de coisas, que ali pensavam encontrar.

Não julgando prudente confiar demasiado nas informações do seu prisioneiro, mandou Cavendish lançar ferro e ordenou que um escaler fosse sondar a barra.

Não se achando, porém, um fundo que fosse suficiente à armada, Cavendish, irritado contra o procedimento e insistência do português, seu guia, resolveu castigá-lo com a forca, fazendo-o, com efeito, sofrer esse castigo, que merecia, tanto dos ingleses, por querer fazê-los náufragos, como de seus conterrâneos, por querer encarregar-se de guiar seus inimigos.

Enviando, então, o corsário dois botes, para forçarem a barra, voltaram eles com a notícia de se haver descoberto três navios, ancorados perto da vila. Sem perda de tempo, queria o comandante mandar cortar-lhes as amarras; mas, aproximando-se a noite, a sua gente desobedeceu-o, recusando-se a tentar uma empresa antes que amanhecesse.

Reconhecendo que toda demora seria prejudicial; que o canal da barra era péssimo; que sua passagem era impossível e que todo país a volta estava disposto para o combate; embora contrariado com a desobediência de seus subordinados, sujeitou-se às circunstâncias da ocasião, até ao raiar do dia; em que fez largar logo dois escaleres com oitenta homens, sob o comando de Roberto Morgan, a quem ordenou que não saltasse em terra, por melhor que lhe oferecesse o ensejo, voltando a trazer notícia de qualquer ponto fácil ao desembarque, para que ele próprio, Cavendish, realizasse o assalto à vila, com quanta gente pudesse conduzir.

Partindo Morgan, os habitantes que, durante a noite, haviam rebocado os navios para perto da povoação e que haviam levantado duas pequenas trincheiras, dominadas e defendidas pelas florestas e rochas sobranceiras, começaram dali, a fazer ardente fogo sobre os corsários.

Querendo recuar, segundo as instruções que havia recebido, Morgan afastou-se, no entanto, desse plano, logo que viu seus marinheiros levantarem-se contra ele, declarando que sempre o haviam tido como covarde, como agora bem provara.

Avançando, por isso, à instância de seus companheiros, o fogo disparado das duas trincheiras e os grandes calhaus de pedra, que os habitantes da vila rolavam sobre os assaltantes, causaram entre eles tal debandada que, mortos mais de trinta e ficando muitos prisioneiros e feridos, se embarcaram os demais em um dos escaleres, voltando, desesperados, a se ajuntarem com o chefe,o qual, comentando esta ação, chamava o capitão do Roebuck – “... o mais covarde vilão, que jamais viu a luz do sol”.

Com esta malograda tentativa, Thomas Cavendish, ralado de desgostos ante o insucesso de suas empresas no Brasil, abandonou as suas costas, seguindo para a Europa em viagem, onde morreu, tendo por sepultura o Oceano, em que tanto confiara e onde zombou dos princípios da civilização”

A narrativa de autoria de Bazílio Carvalho Daemon complementa a anterior, mediante diversos acréscimos relevantes, a exemplo da efetiva participação dos indígenas no combate, através de flechas e pedras e que fora omitida na crônica de Misael Pena.

Bazílio Daemon (assim como Maria Stella de Novaes) refere-se ainda, às fogueiras acesas nas montanhas confrontantes à área conflagrada, entre Vitória e Vila Velha, a fim de frustrarem o ataque noturno dos invasores. Bazílio Daemon ainda focaliza o combate na baía de Vitória, relatando o encalhe da embarcação maior, ao aproximar-se da praia, no lado Oeste.

Daemon também confirma, com precisão, o relato de Cavendish sobre a morte, em combate, de Roberto Morgan e mais cinco homens, dos dez que o acompanharam no acesso à escarpa do lado Oeste (no Morro do Vigia), em Vitória), levando os remanescentes ingleses à fuga desordenada, “debaixo de um chuveiro de flechas”.

 

Documentação escrita contemporânea do desembarque

I – A carta de Thomas Cavendish

 

A narrativa em apreço, representa a transcrição de uma “dentre seis história de náufragos ingleses, na América do Sul, na Era dos Descobrimentos”, da obra Terra à Vista, da Editora Artes e Ofícios Ltda., 2 edição – Porto Alegre – RS – de autoria do jornalista Eduardo San Martin.

Na Bibliografia Selecionada, à página 258 da referida obra, consta o título, bilíngüe, Hakluytus Postumus or Purchas His Pilgrimes. Samuel Purchas – Londres – 1625. Segundo Francisco Adolfo de Varnhagen em sua História Geral do Brasil – Editora Itatiaia – 10 edição (Vol. I, Tomo 2, XXIV secção, notas IV – pg 83 e 84), trata-se da Carta Furiosa (nas palavras de Varnhagen) de Thomas Cavendish, publicada por Purchas, sob o título Purchas, Pilgrimes.

A tradução portuguesa conserva o discurso direto, epistolar, de Thomas Candish (ou Cavendish).

Reporta-se ao seu segundo ataque ao litoral brasileiro, em 1592, tendo por objetivos, uma grande fazenda, nas proximidades da baía de São Vicente e também a baía de Vitória (Barra do Espírito Santo).

Da supra mencionada carta, transcrever-se-ão os trechos mais significativos e pertinentes com a pretendida confrontação.

Dos restantes trechos, far-se-á, apenas, um resumo, necessário à perfeita compreensão do relato de Cavendish.

 

A carta de Thomas Cavendish

(Narrativa sumariada das seis páginas iniciais)

 

A frota comandada por Thomas Candish (na designação original inglesa), ou Cavendish, cruzou o Estreito de Magalhães, durante uma tempestade.

Integravam-se as escunas “Victor”, sob o comando de Cavendish; “Roebuck”; além da “Desire” e da “Davis”.

Estas duas últimas escunas desertaram naquela noite, acobertadas pelo mau tempo, retornando ao Oceano Pacífico.

Ao saírem da tempestade, registraram o desaparecimento de sua melhor escuna – o “Roebuck”.

Ancorados nas proximidades da entrada da barra de São Vicente, o capitão Barker – premido pela falta de mantimentos – decidiu saquear uma grande fazenda das imediações, em companhia de vinte e cinco subalternos e guiados por um índio foragido dos portugueses.

O índio regressou ferido, após seis dias de ausência, e relatou que os demais foram surpreendidos e exterminados por um batalhão composto por trezentos indígenas, sob comando de oitenta portugueses.

Transcrito da narrativa de Thomas Candish (ou Cavendish), de acordo com a obra Terra à Vista, de autoria de Eduardo San Martin, a partir da pg 45.

 

Autor: Zoel Correia da Fonseca
Fonte: Textos de História Militar do Espírito Santo – Coleção João Bonino Moreira – vol. 3
Compilação por: Getúlio Marcos Pereira Neves. Vitória, 2008.

História do ES

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