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Discurso de Posse no IHGES - Ewerly Gandi Ribeiro (1996)

Pico do Itabira, década de 1930

Neste início de noite, prenunciando a chegada do inverno tenho o meu coração aquecido pelas vibrações de carinhos e considerações dos componentes desta casa ao proporcionarem a nós outros ingressos como novos sócios deste Instituto de tão gloriosas tradições.

Fundado por sugestão do saudoso Des. Carlos Xavier Paes Barreto, objetivando estudar a história e a geografia do Espírito Santo, assim como preparar as festas do centenário da morte do mártir capixaba Domingos José Martins, fato histórico de relevante importância para a independência do Brasil e que ocorrera em 12 de junho de 1817. A minha ousadia em dirigir-lhes a palavra, ante tantos oradores de grande expressão se prende ao convite que me fora feito nesse sentido e tantas foram as emoções dele decorrentes que jamais poderia refutá-lo. Decorridos seus 80 anos de fundação por uma gama de intelectuais com eles compartilhando destacados Desembargadores do nosso Egrégio Tribunal de Justiça, sinto-me feliz em unir-me a essa plêiade de colegas de valores autênticos, quais sejam o nosso Presidente de Honra Des. Carlos Teixeira de Campos e demais colegas Cristalino de Abreu Castro, Rômulo Salles de Sá, Sebastião Teixeira Sobreira, Job Pimentel, Antônio José Miguel Feu Rosa, Nivaldo Xavier Valinho, Hélio Gualberto de Vasconcellos, Waldemar Mendes de Andrade e Renato Pacheco. Eis a forte razão de sentir-se em casa, aliando-me às múltiplas atividades que este Instituto vem realizando em prol do nosso torrão capixaba, divulgando de maneira ímpar a grandeza de nossa terra. Hoje, 12 de junho, outra não seria data para que se perpetuasse a memória do nosso herói Domingos José Martins, que veio ao nosso mundo lá pelas bandas do Caxangá, Município de Itapemirim, à época a interlândia intelectual sul capixaba, e grande eixo da vida econômica, social e mental do Estado. Sou um apaixonado do fértil e poético Vale do Itapemirim, com seu rio serpenteante entre as montanhas, destacando-se entre elas o Itabira e o Frade e a Freira, grandes motivações para o poeta conterrâneo Benjamim Silva registrar para sempre, com seus sonetos, suas inegáveis qualidades na arte de se expressar em versos o invulgar da nossa natureza, constante da edição, pelo seu filho Cel. Guilherme Rebello Silva do livro intitulado Cachoeiro. Nessa obra temos a ilustração literária em versos sobre o Itabira e o Frade e a Freira que destaco transcrevendo parte dos mesmos. Sobre o Itabira disse o poeta: “Itabira, ídolo de minha terra/ de belezas raríssimas e estranhas/ altiva a dominar serra por serra/ toda vasta amplitude das montanhas – é um esguio pedaço de granito/ da singular conformação de um dedo/ que parece indicar que no infinito/ existe algum mistério, algum segredo... – Para o nauta perdido pelos mares/ rumo incerto a seguir quando anoitece/ por entre a luz sombria dos luares/ ela é o primeiro guia que aparece.” E com referência ao Frade e a Freira nos conta: “Na atitude piedosa de quem reza/ e como que num hábito embuçado/ pôs naquele recanto a natureza/ a figura de um frade recurvado – diz a lenda, uma lenda que espalharam/ que aqui, dentre os antigos habitantes/ houve um frade e uma freira que se amaram... – mas que Deus os perdoou lá no infinito/ e eternizou o amor dos dois amantes/ nessas duas montanhas de granito.” Outras obras destacam o Espírito Santo, por sua situação geográfica, pelas condições de seu solo apropriado a todas as culturas do país, pelos diversos fatores históricos da sua formação e evolução, que o convertem em centro de viva e intensa convergência, de imigração externa e interna – ardente crisol de raças e num dos mais ativos setores de intercâmbio psíquico da nacionalidade. Este conjunto rico de elementos e circunstâncias refletiu no espírito e inspiração do excelso Graça Aranha ao escrever um dos mais primorosos romances nacionais – Canaã – transmitindo em letras as belezas naturais daquele vale. Nas minhas limitações culturais jamais desprezei a leitura de obras e crônicas que dizem respeito a fatos históricos e folclóricos com saborosas lembranças do passado. Sou por intuição um saudosista autêntico e com muito respeito a admiração cito aqui cronistas e articulistas como Rubem Braga – Newton Braga – Renato Pacheco, meu grande mestre Ailton Bermudes, Ormando Moraes e Mauro Braga, com obras de requintes como a “A oferta e o altar” do colega Renato Pacheco, Itapemirim, do Mauro Braga, Seu Manduca e Por Serras e Vales do Espírito Santo – a Epopéia das Tropas e dos Tropeiros, de Ormando Moraes, dentre tantos outros os quais devoto respeito pelo sabor dos seus estilos.

O nosso pequenino Espírito Santo, em razão de sua área territorial e, bem assim de escassa população, se comparado aos demais Estados que compõem a região sudeste, torna-se muito grande no contexto nacional pelo labor da sua gente, pelo desejo de progredir e oferecer exemplos virtuosos de sua sociedade ao longo dos anos que se passaram, porém, a estrada da vida continua à nossa frente, em direção ao infinito como a nos orientar: “trabalha e confia “muito há que se fazer a exemplo de entidades culturais como o nosso Instituto Histórico e Geográfico, beneméritas na sua formação de dados para concretizar o maior e melhor conhecimento da nossa gente e desta terra que nos dá vida e nos abençoa pela celestial denominação de Espírito Santo.

Ao encerrar, felicito o amigo Ormando Moraes que conclui hoje suas atividades na presidência, deixando um rastro luminoso do seu profícuo trabalho em prol da instituição, ao tempo em que cumprimento o não menos amigo Miguel Depes Tallon, doravante o novo timoneiro deste Instituto, que com as luzes da sua cultura e espírito empreendedor conforta a todos nos na certeza de que não haverá solução de continuidade em nossos trabalhos.

De minha parte, dentro do âmbito de minha vida profissional dedicada ao estudo das ciências jurídicas e sociais, procurarei tudo fazer para merecer o gratificante e honroso título que hoje me é concedido, enchendo o meu coração de esfuziante alegria e agradecimento.

 

Tenho dito.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. N 47, ano 1996
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2013 

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