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Evocação - Por Theomar Jones

Professor Kosciuszko Barbosa Leão

Eu o vejo, em 1932, à mesa da sala de frente do “Ginásio São Vicente de Paulo”, com voz firme, clara, empostada, olhos claros que as lentes dos óculos não conseguiam ocultar, as mãos em gesticulações compassadas, ritmadas, um sorriso leve a intercalar-se, vez por outra, na seriedade de seu rosto.

Era a aula de Português do Prof. Kosciuszko Barbosa Leão.

Lá fora, o barulho dos freios e do tilintar das campanhias dos bondes, vozes múltiplas, gargalhadas, ditos chistosos, diversos pregões, frases de conversas – Olha “A Gazeta.. a..a...”

O tempo a passar, inexorável. Parti feito meus colegas – tínhamos nossos caminhos.

Depois, visito Vitória e revejo Kosciuszko, o grande “causeur”, o mestre da língua. Poeta, o versejador de fina sensibilidade. Orador, o magnetizador dos auditórios. Amigo, o companheiro das horas amargas, dos momentos difíceis, a escrever-me (3/5/1979): “Deixou-me, entretanto, apreensivo, a nota sombria referente a lágrimas suas, que “ainda não secaram”. O motivo deve ser grave. É que – ao contrário da criança e da mulher, que choram por tudo e por nada – o homem nunca tem razão para chorar. Digo-o paternalmente, arrazoando com veleidade de moralista: não justifico, num homem, se não a lágrima estética”.

Por fim, a repetir o nome de Jesus, silenciou, em definitivo e, aí, sim, ocultou a claridade de seus olhos. Viajou por outro caminho ao encontro de outra vida, “pois, sem as condições fatais do tempo e o espaço, / ser ou não ser supera o humano raciocínio”, diz Kosciuszko na poesia “Confissão” do seu livro “Meditações”.

Agora, recebo “Meu Inverno”, obra póstuma, 1979, versos de Kosciuszko Barbosa Leão, com a dedicatória da viúva: “Meu inverno” retrata a última estação da vida física de um poeta, cuja paisagem interior foi sempre primavera”.

A linguagem da oferta releva à personalidade de Dona Laura, a escritora,  amiga, a musa inspiradora do querido mestre.

Ela, em meu entender, ouvirá sempre o ressoar dos versos de “Bodas de Ouro” – Nossa tarde encantada/ É véspera triunfal da esplêndida alvorada,/ Pois a alma existe e, assim, ó meu amor, espera!/ Depois do inverno vem, é certo, a primavera.

Ela possui a consciência da beleza de um mundo de emoções, Dona Laura sente a grandeza de uma inteligência privilegiada, sobretudo assimila o que escrevi, faz pouco, e é bom repetir: verdade, que, dentro do homem há um mundo que não morre nunca, fica, permanece, é história, mesmo quando o homem que o revelou, fisicamente deixa de existir.

Kosciuszko está vivo nesta conceituação. Sua força de expressão é enorme. Comprova-a o poema “Asas”, para citar apenas um, dedicado, no seu último trabalho, a meu amigo Desembargador Carlos de Campos: “A justiça...Ah! não sei quais os desígnios seus / Aos nascidos sem asa a jornada das aves./ E a estrada rude aos que, nas asas inefáveis / Das grandes emoções voam do nada a Deus.”

Como em estado de premonição, fez o trabalho. Escreveu-lhe o prêmio, concluindo-o, observo, com os versos de Antero de Quental (do soneto “Na Mão de Deus”) – Na mão de Deus, na sua mão direita,/ Descansou, afinal, meu coração.

Conversei, em julho, com Dona Laura.

Vi-a triste, mas não a senti desesperada.

Muita saudade do insigne companheiro, mas, a dignidade quando a ele se referia a aflorar na palavra e nos gestos seus. O que a engrandece. Veneração ao esposo, sim! Orgulho perdoável de quem pode repetir, e de cor, com conotação adequada, os dois últimos versos do segundo terceto do soneto “Hora Sombria” - . . . verei, na minha noite, / Todo o esplendor do mundo do meu sonho.

 

Fonte: Jornal A GAZETA janeiro página 6 (não temos a informação da data)
Autor: Theomar Jones
Compilação: Walter de Aguiar Filho, setembro/2014
Nota do Site: O recorte de jornal foi doado pela afilhada de Kosciuszko, Maria Lucas Carvalho Brandão (Lutinha)

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