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Imprensa Escrita: Luz no fim do beco ou túnel sem saída? - Milson Henriques

O tema é farto. Eu poderia escrever dez páginas sobre a imprensa de Vitória dos últimos trinta anos. Até um livro. Contando de um tempo em que a gente suava na redação. Falta de ar refrigerado? Pergunta inocente, meu caro foca. Suava-se de calor sim, mas também de entusiasmo, vibração, de raiva do patrão mesclada com amor ao jornal. Eu poderia escrever sobre Osdiva Bruzzi, Carmélia, pioneiras feministas das mulheres na redação. Não das românticas que nunca pisavam naquele "antro" e mandavam entregar suas graciosas poesias para publicar nos róseos cadernos literários. Mas destas que um dia surpreenderam-se murmurando — "Porra! Meu texto tá bom pra cacete!" — com toda pureza que possui o palavrão dito na hora certa. Poderia escrever sobre os belos e perigosos tempos da ditadura (Tudo — mas tudo mesmo — que é bonito é perigoso. Assunto para uma futura crônica.), quando todos sabíamos que os que conseguissem sobreviver, um dia seriam considerados heróis (somos?). Contar dos jornalistas que envelheceram junto com suas máquinas de escrever e cujo amor por elas as humanizava. O frio computador atual facilita o trabalho, mas seus usuários não conversam com ele, entendem? É como se... (Acho melhor deixar este assunto pra uma futura crônica.) Eu poderia contar dos grandes jornalistas injustiçados, dos esquecidos. (Dias atrás fui olhado como um fóssil quando um jovem universitário soube que privei da amizade de Darly Santos. — "O da rodovia?" — perguntou embasbacado — "Mas então você conheceu um dos primeiros governadores do Espírito Santo?"). Poderia contar do tempo em que as dificuldades nos transformavam em uma grande família solidária. Ou dos jornais que desapareceram. Mas tenho certeza que a maioria dos convidados desta coletânea falará exatamente disso, lambendo-se de saudades. (Será que o que afasta a juventude da leitura — inclusive destes escritos — não é o excesso de lembranças de um tempo que ela não conheceu e por isso não a emociona? Assunto para futura crônica.) Por isso é melhor falar sobre a imprensa escrita atual que no meu entender está num beco sem saída. A gente assiste na TV à uma hora da manhã de hoje o último noticiário sobre o dia de ontem. Às sete horas assistimos outro noticiário contando as mudanças ocorridas durante as seis horas em que dormimos. Só depois vamos ler o jornal, que fechou a edição às 22:30 da noite de ontem com as notícias totalmente defasadas. E aí? Como apelar para o interesse do leitor? A hediondez dos crimes e a gratuidade do sexo & nudismo ficaram banalizadas pela repetição. Além do que, a televisão mostra tudo e com a vantagem do movimento. Daí os jornais criarem a mania de mitificar pessoas medíocres transformando-as em ídolos de pés de barro e depois derrubá-las com escândalos, para alegria do povaréu sedento de — mais — ignorância. A ânsia de faturar leitores está fazendo do jornal mais sério, um sério rival da revista Amiga. E tome de piranhada, tititis, Lady Di, Romário, Divine Brown. Leonardo Pareja, Adriane Galisteu, Edmundo, Vera Fischer e outras figurinhas carimbadas de ocasião.

Claro que existe o outro lado, a imprensa que ajuda, que denuncia. Embora, depois do escândalo que derrubou o ex-presidente Nixon e nossa versão "collorida", a ânsia de denunciar o fato muitas vezes interfira no fato e a própria imprensa passe a ser a vedete. Vide o assassinato de P.C. Farias, quando a busca do sensacionalismo fez quase todos os jornais forçarem a barra para que um crime passional virasse "queima de arquivo". Amordaçados durante vinte anos, nós da imprensa viramos ditadores e não  admitimos críticas, como, aliás, todo movimento oprimido que um dia chega ao poder, do Cristianismo ao Comunismo. (Assunto para uma futura crônica: — No próximo século, quando o bissexualismo for considerado o sexo ideal — duas opções é melhor que uma — os heteros sofrerão horrores com a discriminação.)

E a imprensa escrita capixaba, que afinal é o que nos interessa, como vai indo neste final de século? Também vai mal, obrigado. Os jornais estão excelentes na forma, parte gráfica impecável, a cor, a modernidade, a variedade... e o conteúdo? A profundidade? A análise da notícia, o acompanhamento do fato, a preocupação e o orgulho da informação correta e imparcial? Onde está o grande repórter? Podemos citar cinco grandes jornalistas atualmente no Estado?

Posso até vir a ser discriminado pela classe, mas tenho duas opiniões não muito agradáveis a ela. Primeiro, acho que repórter para escreverem jornal considerado grande — no conteúdo — precisa de uns cinco anos ralando em pequenos periódicos de periferia ou do interior. Segundo — correndo o risco de ser chamado de pelego de patrão — acho que o jornalista capixaba em geral está precisando de menos amor ao salário e mais à profissão.

Eu poderia escrever sobre a imprensa capixaba dos últimos trinta anos. Contando de um tempo em que a gente suava na redação. Suava de calor, mas também de entusiasmo, vibração, de raiva do patrão mesclada com muito amor ao jornal.

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Imprensa – Volume 17 – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo - Sidnei Louback Rohr
Diretor do Departamento de Cultura - Rogério Borges de Oliveira
Diretora do Departamento de Turismo - Rosemay Bebber Grigatto
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim - Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias - Elizete Terezinha Caser Rocha e Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial - Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão - Reinaldo Santos Neves e Miguel Marvilla
Capa - Amarildo
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e Encadernadora Sodré
Autor do texto: Milson Henriques
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018

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