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O discurso homossexual na literatura do ES - Parte II

Capa do Livro: Francisco Aurélio Ribeiro, ilustração de Attílio Colnago

Os anos 60 e 70: A luta pela afirmação do homoerotismo. Amylton de Almeida

 

... nas pracinhas, há milênios, todos os excluídos, de uma forma ou de outra, se reúnem, à espera da palavra? à espera do profeta? à espera da resposta?

 

Fry e Mac Rae citam o ano de 1968 como início da mudança de comportamento e dos costumes, no Brasil. Citam a atuação de Caetano Veloso, e o movimento do Tropicalismo, que, com a música “É proibido proibir”, e sua performance, inaugura um novo estágio da cultura brasileira, colocando em discussão o comportamento masculino x feminino e a separação entre política x vida cotidiana.

No inicio dos anos 70, em plena ditadura militar, Caetano, Gil, os Dzi Croquetes, Bethânia, os Mutantes, Gal, Secos e Molhados, “desorganizaram” um movimento de massa e “inauguraram um carnaval” nos comportamentos e mentes da sociedade brasileira. Chacrinha, velho guerreiro, enquanto “balançava a pança”, oferecia palco e platéia para sua divulgação.

De 1968 a 1978, viveu-se no Brasil e no resto do mundo, o movimento de contracultura pregando a vida em comunidade, a liberdade no uso de drogas e a liberação sexual. Durante esse período, proliferaram as lutas pelas causas: feminista, pacifista, ecológica, libertária. Esta retoma alguns temas do anarquismo, ideologia de origem mais antiga, do século XIX, e propõe a liberação de todos os velhos tabus, proclamando o direito ao prazer, ao divórcio, ao aborto, à eutanásia e à homossexualidade.

A literatura feita no Espírito Santo, até a década de 70, não registra o discurso homossexual ou a luta ocorrida pela sua emancipação. Amylton de Almeida (1946), escritor, jornalista, cineasta e crítico de cinema foi um dos precursores, em sua escrita, desse tipo de discurso. Em 1972, publicou, em edição reduzida a 28 exemplares, seu primeiro romance, Blissful agony. Seu texto foi considerado original, diferentes, estranho em relação a tudo que se escrevia na época. Embora tematize a passagem do tempo, Blissful agony retrata a angústia, o sentimento de perda, o tédio de viver em uma cidade provinciana como Vitória daquela época em oposição à Paris existencialista e revolucionária de 68. Mais do que o depoimento de uma “geração traída”, Blissful agony é o relato da angústia e da dor de calar o sentimento, para se “ouvir o coração do mundo”. Reeditado em 1988, é uma obra que inaugurou a modernidade e a “consciência de abismo” do mundo moderno nas letras capixabas.

Em 1977, Amylton de Almeida publica seu segundo romance, A passagem do século, uma delirante narrativa sobre o amor, a paixão e sua perda. Tendo como tempo ficcional o dia 31/12/1999, narra a passagem do século XX, que se vai juntamente com o amado. Walmir Ayala, na orelha do livro, datada de 18/08/76, assim se expressa: “Um livro corajoso e delicado, que não explora situações sensacionalistas, mas que eleva a um grau de alta dignidade existencial a análise de um amor convencionalmente proibido ou temerosamente ignorado pelas maiorias eróticas estribadas no preconceito e na limitação da liberdade do relacionamento. O homossexualismo, no caso deste livro de Amylton de Almeida, tem a mesma importância que a elucidação de sua verdade, fundamentalmente respeitável em qualquer plano  ético. Este tema ,hoje em dia tão debatido e exposto, revela o descontraimento de uma era assoberbada de catástrofes, de heterossexualismno corrompido e acidentado, o que facilita a pureza de visão de uma sociedade aguilhoada, a urgência de superar a hipocrisia de aparências fragilmente maquiadas. Então o tema sexo não fica bifrontal, ou pelo menos interessa pouco a sua bifrontalidade quando o leitor ou o analista não temem o problema (...) A única marginalidade visível neste sonho compacto e flamejante é o da defesa do direito do terror, da contradição, da condenação dionística entre seres que se analisam, se tocam e auscultam, querendo atingir o mais fundo: coração e razão, sangue e respiração, o luxo do amor.”

Sem ser panfletário, Amylton de Almeida realiza com qualidade literária um romance psicológico que tematiza o amor entre dois homens, sem culpa, retratando o sentimento, a angústia, a perda, a solidão. Somente em 1994, publica seu terceiro romance, cuja escrita iniciou na mesma época, Autobiografia de Hermínia Maria, completando a trilogia da dor e da angústia do ser. Sem fazer nenhuma apologia do discurso homossexual, Autobiografia de Hermínia Maria retrata a vida de uma família classe-média na então tranquila cidade de Vitória, de 1954 a 1964. A narrativa gira em torno da protagonista, Hermínia Maria, personagem-duplo de seu irmão (a foto do autor na capa é extremamente sugestiva) e registra o conflito entre classes sociais, identidade sexual e afirmação psíquica. O grande valor do livro é o trabalho formal com a linguagem, o processo de discursivização em que a narrativa é construída em lições, cadernos ou livros escolares.

Amylton de Almeida não fez de seus livros panfletos de afirmação da identidade homossexual, até porque a época não permitia. A censura só seria extinta, no Brasil, no final da década de 70. Sua maior preocupação era o trabalho estético, a construção literária das suas histórias. No entanto, sua vida, em Vitória, sobretudo a partir da década de 80, como ativista cultural e crítico de cinema, foi um legado às gerações mais novas do direito de ser arauto das liberdades, sobretudo das categorias discriminadas. Em 1981, foi um dos auxiliares das professoras Deny Gomes (UFES) e Neida Lúcia Moraes (DEC), na organização do Ciclo de Debates “Marginalidade na Literatura”, evento que lotou o Auditório do Colégio do Carmo, com quase mil participantes. De 24 a 28/08/1981, lá estiveram: Darcy Ribeiro, para falar sobre “O índio e a literatura”; Bernadette Lyra, “Espaço literário negro”; Amylton de Almeida fez, sem ter lido, o texto “O dia do enterro de Judy Garland”, enquanto jovens atores apresentavam textos de Hilda Hilst, Ernest B. Enriquez, Caron MaCcullers, Sá Carneiro, Mário de Andrade, Shakespeare, Fernando Pessoa, Garcia Lorca, James Baldwin, Tenesse Williams, Aguinaldo Silva, Sartre e dele mesmo. Foi um autêntico “happening”. Heloísa Buarque de Holanda falou sobre “A mulher e a literatura” e Helvécio de Siqueira e Silva sobre “O doente mental e a literatura”.

Em seu texto, Amylton de Almeida reconstrói a luta do movimento homossexual, a partir do dia 28/07/1969, dia do enterro de Judy Garland, quando os gays norte-americanos reagiram contra a agressão policial e criaram o “Gay Liberation Front”. Nele, afirma: “Por mais que se queira desvirtuar a luta reinvidicatória dos homossexuais apresentando-a como um produto de uma moda, não se pode esquecer que ela demonstra, precisamente, a imoralidade de uma sociedade que reprime qualquer manifestação de diferenças. (...) As opções eróticas são de incumbência apenas do indivíduo, e a sociedade que reprime, mutila, humilha e segrega, atenta contra a mais elementar concepção de direito humano”.

 

Fonte: A Literatura do Espírito Santo, uma marginalidade periférica, 1996
Autor: Francisco Aurélio Ribeiro
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2012 

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