Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

O Padeiro

"O padeiro" é considerada pela crítica literária uma das melhores crônicas de Rubem Braga.

O padeiro

Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento - mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a "greve do pão dormido". De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.

Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:

- Não é ninguém, é o padeiro!

Interroguei-o uma vez: como tivera a idéia de gritar aquilo?

"Então você não é ninguém?"

Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: "não é ninguém, não senhora, é o padeiro". Assim ficara sabendo que não era ninguém...

Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina - e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.

Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; "não é ninguém, é o padeiro!"

E assobiava pelas escadas.

Fonte: Para gostar de ler, Vol I -Crônicas . Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. 12ª Edição. Editora Ática . São Paulo.1989. p.63 - 64.

Links Relacionados:

>> Cachoeiro de Itapemirim  
>> Rubem Braga  

Matérias Especiais

Férias da garotada

Férias da garotada

Saiba a origem das brincadeiras de pique, o conhecido picolê, contadas por Renato Pacheco.

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Partido Republicano - Cisão

As divergências de interesses entre os grupos da elite capixaba ficaram nítidas no Congresso do Partido Republicano realizado em Vitória, em 1890

Ver Artigo
Clubes Republicanos

Sob o governo de Pedro II o regime parlamentar brasileiro, se não primou por grandes arrancadas de progresso material, foi contudo uma verdadeira democracia

Ver Artigo
Comparações e fatos alusivos a Proclamação da República

Discurso proferido por Robero Brochado Abreu, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha - Casa da Memória, durante as comemorações da Proclamação da República

Ver Artigo
Canudos e a consolidação da República - Por Hélio Athayde

Os brasileiros ainda questionam a sua forma e o seu sistema de governo, vergados sob o imenso peso de um “complexo de culpa coletivo”, que parece continuar rondando os seus espíritos

Ver Artigo
Proclamação da República

Embora as idéias republicanas já fossem agitadas no Brasil desde o período colonial sua propaganda ganhou força com a fundação do Partido Republicano, após a Convenção Republicana de Itu, 1870

Ver Artigo