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Os Santos também morrem - Ao Dr. Délio Etienne Dessaune

Capa - Vitória Propaganda

Sim, os santos também morrem e nosso "santo" Délio Etienne Dessaune morreu! Já estava muito velhinho, doente, vindo por fim a falecer. Havia já algum tempo que eu não o via, mas ele estava sempre presente em minhas orações.

Por uma dessas incríveis coincidências da vida, eu estava batendo à máquina, no meu livro de lembranças, a parte em que eu narrava o episódio da doença do meu filho, que nasceu com um problema que poderia deixar-lhe terríveis seqüelas de caráter irreversível, e que, com a orientação do Dr. Délio, teve cura "milagrosa".

Escrevia eu sobre esse caso, quando soube do seu falecimento. Enquanto chorava a perda desse amigo tão querido, deixei que os meus pensamentos vagassem pelo passado e resgatassem lembranças adormecidas no fundo da memória.

Dr. Délio Dessaune era também um grande amigo da família de meu pai. Saíam às vezes em grandes caçadas nas matas do rio Doce e do sul da Bahia. Voltavam com os carros carregados de laranjas-baía, cocos, cacaus, arcos e flechas de índios que lhes serviam de guias nas brenhas das matas e, também, vários barriletes repletos de peças de caça, assadas e conservadas na banha. Eram jaós, veados, pacas, tatus e tantas outras iguarias que, por algum tempo, davam novo sabor às nossas refeições.

Dr. Délio foi também o nosso médico, quando ainda éramos crianças. Quando algum de nós adoecia, papai logo o chamava e aquelas que estavam boas iam esperá-lo, às escondidas, atrás de uma pedra que ficava à beira da ladeira que dava acesso à casa. Assim que elas o avistavam, começavam a rir imitando a sua estranha e inconfundível risada.

Depois de examinar o doente, ele fazia uma revisão em toda a meninada e quando papai perguntava: — Então, Délio, como estão as crianças?

— Ótimas, Seu Lauro, ótimas! Não vê como estão rindo?

Após a consulta, o indispensável cafezinho com bolinhos ou pasteizinhos feitos na hora, enquanto os dois botavam a "política" em dia.

Assim que ele se retirava, levávamos um tremendo "pito" pela falta de consideração demonstrada para com o médico amigo. Guardei com carinho as minhas lembranças de volta na memória. Enxuguei o pranto e fui prestar-lhe a minha última homenagem. Quanta gente lá estava, também, com esse mesmo propósito! Como era querido o nosso "santo" Délio! E parecia mesmo enterro de santo. Em cada grupinho, alguém contava a "cura milagrosa" de algum ente querido. E todos, todos afirmavam a sua bondade incansável. Um médico à antiga. A qualquer hora do dia, da noite, de madrugada, fosse lá a hora que fosse em que se precisasse dele e o chamasse, lá vinha ele, sempre alegre, bem-humorado, rindo, sempre rindo aquela sua risada inconfundível.

Só de vê-lo, as crianças já se sentiam melhor, e as mães também! Sabíamos que ele daria um jeito! Com a sua "sabedoria chinesa", ele tudo curaria...

Certa vez encontrei-o em Guarapari e falei-lhe com orgulho: — Dr. Délio, o senhor não imagina como está lindo o meu filho! Alto, forte, inteligente e belo! E isso eu devo ao senhor!

Tomei-lhe as mãos e beijei-as reverentemente, agradecendo-lhe como a um santo: — Obrigada, doutor, sempre quis fazer isso, mas nunca tive a oportunidade. Obrigada, doutor!

Lá no cemitério, ao ver as suas mãos cruzadas sobre o peito, veio-me o desejo de beijá-las de novo, mas o respeito humano me conteve. Beijei-as em pensamento e o seu espírito, já liberto da carne, por certo compreendeu a minha timidez.

Beijo-as em pensamento agora ao prestar-lhe esta homenagem. Dr. Délio, o senhor terá sempre um lugar muito especial no meu coração, já que foi o "instrumento de Deus" para salvar a vida de meu filho.

Obrigada, doutor!

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA - Volume 15 - Personalidades de Vitória — Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES, 1996.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo - Sidnei Louback Rohr
Diretor do Departamento de Cultura - Rogério Borges de Oliveira
Diretora do Departamento de Turismo - Rosemay Bebber Grigatto
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim - Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias - Elizete Terezinha Caser Rocha e Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial - Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão - Reinaldo Santos Neves e Miguel Marvilla
Capa - Vitória Propaganda
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e Encadernadora Sodré
Autora do texto: Beatriz Monjardim F. Santos Rabelo
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018

Personalidades Capixabas

Personalidades do Espírito Santo - Guilherme Santos

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Vivia os sonhos da juventude em Vila Velha, em 1927, com 11 anos seus amigos de infância eram: Gil Veloso, Dinah Almeida, Oswaldo Aguirre, as irmãs Samorini, Lauro Miranda, Nair Lacourt e tantos outros

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