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Praia do Canto ontem e hoje (1998)

Praia do Canto - Av. Saturnino de Brito próximo ao Iate Clube

Chrisógono Teixeira da Cruz nasceu no coração de Vitória,na rua Barão de Monjardim, num tempo em que a Praia do Canto era um lugar tão distante do centro quanto Guarapari. Hoje, 70 anos depois, ele se recorda, com nostalgia, da época em que passava férias de verão numa casinha que seu pai alugava na Praia. Há 40 anos, Chrisógono trocou o Centro pela Praia do Canto, buscando a tranqüilidade e a qualidade de vida que o centro não tinha mais.  Hoje, ele, que foi prefeito de Vitória na década de 70, está preocupado com o futuro do bairro que  escolheu para morar. Nessa entrevista, ele fala sobre os caminhos que a Praia do Canto está trilhando.

Como o senhor vê o desenvolvimento da Praia do Canto?

A Praia do Canto foi criada para ser dormitório dos ricos que trabalhavam no centro. Depois, com o advento do transporte individual (começou-se a ter automóveis, tudo ficou muito perto), era melhor morar na Praia do que no centro. Antes dos automóveis, chegar à Praia era uma viagem. De bonde, então, era uma luta.

Quanto tempo demorava?

Ah, demorava uma hora por aí...Se uma pessoa saísse do centro às 7 horas, chegava na Praia lá pelas 8. Parava muito, o bonde saía do trilho, saltava todo mundo e era um tal de empurra o bonde, bota o bonde no trilho. Era um negócio...Era uma África para chegar. Então, ninguém queria morar na Praia. Tanto que o governo, praticamente, dava os lotes na década de 30. Bastava comprar um selo para requerer na secretaria da Agricultura. Pagava-se muito pouco pelo lote e tinha-se a obrigação de construir uma casa num determinado tempo.

Como foi o início do bairro?

As primeiras casas foram construídas à beira da praia, depois foi ampliando mais. Eu me lembro que nós morávamos no centro e meu pai alugava uma casa na Praia para minha mãe vir passar o verão com a gente. A casinha ainda estava lá...Antes de 1964, o gabarito da Praia do Canto era de no máximo, 3 andares e sem elevadores. E daí foram nascendo uma série de decretos, emendas, até o surgimento do PDU, há 15 anos, mais ou menos. Os prédios da Praia, nessa época, eram todos residenciais. Depois, deixaram a Praia do Canto ser invadida por prédios comerciais.

Mais ou menos o que está ocorrendo hoje na Enseada do Suá?

Não, a Enseada não. Ela é residencial. Comercial só os lotes próximos ao Palácio do Café que permitem prédios altos, o resto é tudo residencial...É, mas isso já foi rompido, já começou um tumultozinho. Estão fazendo restaurantes, clínicas em alguns pedaços.

Hoje qual é o bairro mais residencial de Vitória?

Não tem. Camburi, que foi inicialmente só residencial, já começou a ser invadida. Jardim Camburi foi controlado com o gabarito de 3 andares, mas já romperam isso.Não houve pressão urbana contra. Não que eu seja contra prédios altos, o problema é o uso do solo. O que me incomoda é ter tudo misturado.

E na Praia do Canto?

O que perturba é o crescimento de prédios comerciais muito além do que deveria ser projetado. A quantidade de lojas deveria ser restrita ao uso da população que mora ali, como nos EUA. Foram deixando construir edifícios comerciais, atraindo gente de todos os lugares, com um grande movimento de pessoas de outros bairros, automóveis. Hoje virou um horror. Sexta à noite é um inferno, aquelas batucadas nos botequins.

Isso influenciou o crescimento da violência?

Aí cresce tudo, quando você tem tumulto de gente que você não conhece. E onde há pessoas desconhecidas o bandido atua com maior facilidade. Basta andar ali no Triângulo das Bermudas para ver a quantidade de automóveis de outros municípios.

Então, o bairro residencial deve ser mais ou menos como uma cidade do interior?

Exato. Defendo a cidadezinha do interior porque se conhece todo mundo. Se aparece alguém estranho, todo mundo fica de olho, o cara não consegue nem ir ao banheiro público que tem sempre alguém olhando para ele.

O senhor vê alguma forma de melhorar isso?

Não, não vejo mais. Pode até tentar estancar um pouco  isso para o bairro não ficar abandonado. Porque, se não, o que acontece? Todo esse patrimônio que você tem aqui, particular e público, passa a não valer nada. É o caso do centro da cidade. Lá você compra um imóvel por 1/3, ou menos, de um imóvel da Praia. E todo aquele patrimônio que o governo implantou (pavimentação, luz, telefone, água) com dinheiro da gente, dos impostos, é praticamente abandonado. Vai apodrecendo. Já deve ter mais de 20 anos que não se faz um prédio no centro da cidade.

O senhor acha que, daqui a alguns anos, a Praia do Canto venha se transformar no que o centro é hoje?

Pode sim, o povo vai procurar outro lugar. Isso não está perto, mas já está acontecendo. Já tem gente saindo, e que não compra mais ali. Querem fugir para outras regiões.

O senhor fugiria para outro bairro?

É difícil...acho que ia comprar um zepelim e ficar lá em cima. Ou um foguete desses americanos. Ficaria dando a volta por cima e de vez em quando desceria.

O senhor não vê possibilidade de melhoria na Praia do Canto?

Não é melhoria. Você vê o pedaço de comércio estragar, esclerosar o bairro. Você tem remédios como no corpo humano, que estancam aquilo ali. Tem que pensar: “vou defender esse pedaço que ainda tá bom”. É não deixar isso correr solto.

Conter as construções?

Não digo as construções. Você pode ter as construções, pode escolher, ou residencial, ou só comercial. Então, é uma opção da população.

A Associação de Moradores tem um papel importante para conter o crescimento urbano?

Claro que tem, apesar de no Brasil, nós não temos forte esse princípio associativo, social. Você vê que uma das associações mais resistentes contra o que eles querem é a de Jardim da Penha. Tenho um amigo que mora na Suíça que me contou que um dia ele foi tomar banho às 11 horas da noite e o vizinho tocou a campainha, dizendo que àquela hora não podia porque a água que caía fazia barulho. Na Europa ou na América do Norte há uma defesa do modo de vida, isso é um negócio longo, mas tem que começar.

O senhor acha que a Associação de Moradores da Praia do Canto está começando a se integrar?

Ela tem tentado. Não tem conseguido, mas já andou um pouco. Está numa velocidade de 29 porque o povo não está habituado a isso. O sujeito está dentro de casa vendo novela e deixa de ver um negócio que é importantíssimo para ele (uma reunião). Então continuam a crescer esses fatores que vão tirando as condições de boa vida.

O que as autoridades competentes podem fazer para conter o que o senhor chama de degradação da Praia do Canto?

Aí é que tem um problema. Começa uma pressão de vários lados, imobiliária, comercial. Uma pressão que o poder público não tem força para segurar. Porque o que é o poder público? O que é a autoridade aleita? É um sujeito em quem a maioria votou. E a maioria quer ganhar dinheiro e pressiona. Por exemplo, na região da Enseada do Suá, pela própria origem do projeto, não adianta fazer um edifício residencial que ninguém compra. A pressão é feita assim.

Como aconteceu com o centro de Vitória?

Isso, como aconteceu com o centro. Um belo dia o valor imobiliário caiu tanto por causa da degradação, que apareceu o poder público como a revitalização do centro.

 

 

Fonte: Jornal da Associação de Moradores da Praia do Canto – 1998
Fonte de Pesquisa: Casa da Memória do ES
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2011



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