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Remo: O Braço Forte do Esporte Capixaba - Por João Arruela Maio

O Remo capixaba ganha o bicampeonato Sulamericano em Valdivia, no Chile, 1952. A chegada dos atletas Arruela, Harry e Chiquito parou a cidade de Vitoria!

A vida é um arquivo vivo recheado de lances e acontecimentos que marcam cada época de nossa existência. O esporte no mundo manteve acesa a chama da competição pacífica através do lema imortal das Olimpíadas, que estabeleceu: o importante não é vencer, é competir.

A humanidade aplaudiu os heróis da maratona, os atletas que saltavam em distância, em altura, levantavam pesos, atiraram dardos e corriam como antílopes graciosos em provas de velocidade.

Suas vitórias olímpicas enchiam os povos de orgulho.

Não sei se por causa desse nato sentimento olímpico, filho que sou de David Francisco Maio, homem devotado ao mar, bem cedo comecei a prática do esporte de remo, na Praia do Suá, onde ficava a Colônia de Pesca e vivi com a minha família.

Recordo-me bem, hoje em dia, dos positivos sentimentos que brotavam em mim remando naquele local da baía de Vitória, extasiado pelas belezas do mar, da paisagem, do sol enfeitiçado que derramava seus raios nas águas ainda não poluídas, criando cintilações que formavam um ofuscante e cegante lençol de ouro, tendo ao fundo o lendário Convento da Penha.

Li em algum lugar, certa vez, que a vida se originou no mar. Isso talvez explique o fascínio que o mar sempre exerceu no espírito humano.

Em sua obra O remo através dos tempos, Henrique Licht, desportista gaúcho, conta que "para os homens pré-históricos, os rios, lagos e mares representavam obstáculos extremamente difíceis de serem vencidos. Impossível afirmar se as primeiras experiências de navegação foram apenas tentativas para vencer as correntes líquidas ou se motivadas por acontecimentos imprevistos, como ataques de animais perigosos, inundações ou incêndios. De qualquer modo, em todas as hipóteses, a criatividade foi estimulada para encontrar uma solução favorável, e a ideia básica de como vencer as águas foi sem dúvida influenciada por algo que flutuasse e se deslocasse ao fluxo das correntes".

A verdade é que o homem venceu esses obstáculos e, a partir da construção das primeiras balsas, chegou à conquista de barcos seguros, velozes e de fácil manobra.

Dentre os povos que mais avançaram no transporte marítimo estão os fenícios, considerados os primeiros e bem sucedidos remadores do mundo antigo, utilizando barcos a remo e a vela, nos quais exploraram o mar Mediterrâneo, as regiões do mar Vermelho, da Arábia, da Somália e da Índia Meridional, indo até às ilhas Canárias, a oeste.

A História registra que Enéias, príncipe de Tróia, promoveu uma série de festividades para reverenciar a memória de seu pai Anquises, e dentre essas festividades destacou uma disputa reunindo quatro embarcações escolhidas entre as melhores da armada, manobradas por jovens de 17 anos pertencentes às famílias da aristocracia. Cloante venceu essa disputa, contornando em primeiro lugar um grande rochedo batido por fortes ondas e fustigado pelos ventos.

Quem não leu na obra Odisséia, de Homero, as proezas de Ulisses, o herói grego, enfrentando com seus barcos os perigos e os desafios do temido e desconhecido oceano? Barcos incríveis a velas e a remos, lutando contra as armadilhas do deus Poseidon, ou Netuno; e enfrentando os cantos fatais das sereias.

As grandes conquistas humanas foram realizadas por exímios e imbatíveis marinheiros e seus comandantes, corajosos lobos do mar, como o foram os descobridores de novas terras, Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral.

E quem não acompanhou os relatos dos feitos épicos de almirantes como Nelson e Villeneuve, e da grande batalha entre ingleses, franceses e espanhóis que resultou na derrota da invencível armada da Espanha?

Ou da grande batalha naval em que a esquadra de Otávio (o romano), bem inferior, infligiu fragorosa derrota aos barcos da rainha Cleópatra e de seu aliado Marco Antônio?

Ou o feito épico de Pompeu, o romano, que no ano 67 a.C., com seus quinhentos barcos, matou mil piratas e aprisionou outros vinte mil, que infestavam a região do Mediterrâneo?

O mar sempre fascinou o espírito aventureiro e guerreiro do homem. O notável escritor Júlio Verne eletrizou a humanidade com o seu livro Vinte mil léguas submarinas, contando a aventura do capitão Nemo num submarino, antes mesmo dessa embarcação ter sido inventada.

O Brasil também teve tradição nos mares. Sua imensa costa atlântica favoreceu a navegação de cabotagem. Na Marinha de Guerra, o marujo brasileiro notabilizou-se na batalha naval do Riachuelo, ocorrida em 11 de junho de 1865. Comandava a esquadra brasileira o almirante Francisco Barroso da Silva, e a esquadra paraguaia, o almirante Pedro Inácio Mesa, sendo os paraguaios fragorosamente derrotados.

Em 1361 foi realizada a Regata de Veneza, vencida pelos frades de São Salvador, regata que foi suspensa devido à guerra de Chioggia, e que teve seu reinicio em 1441, por ocasião do casamento de Jacoplo Foscari com Lucrécia Contarini.

Em 1493 realizou-se uma regata em Veneza com a participação de mulheres remadoras.

Em 1829, aconteceu a prova máxima do remo na Inglaterra, disputada entre os barcos de oito remos, das Universidades de Oxford e Cambridge.

O histórico das conquistas humanas em barcos de competição, de cabotagem ou de guerra, é imenso.

Nos tempos modernos os esportes náuticos destacam as competições de pilotagem no iatismo ou na disputa dos remos nas Olimpíadas.

Nos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960, as provas de remo foram realizadas no lago Albano, em Castel Gandolfo, com novo sistema de balizamento, aprovado no Congresso da FISA em 1959.

O remo brasileiro se tornou famoso mundialmente e, de certa forma, me sinto feliz em ter podido participar dessa gloriosa escalada brasileira, nas disputas enfrentadas pelo remo de competição.

Em 1952, por exemplo, na disputa do Campeonato Continental, na raia de Valdivia, em Santiago, no Chile, no dia 2 de março daquele ano, participei da vitória do nosso barco de dois remos com patrão, junto com Franciso Augusto Furtado (patrão) e remando com Harry Mosé, quando abrimos caminho para a conquista do Troféu Ariovisto Marcos de Almeida Rego, conquistado definitivamente em 2 de maio de 1954, na raia da lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, durante a disputa do 3º Campeonato Sul-Americano de Remo. Lá estive remando com Harry Mosé e tendo como patrão Francisco Augusto Furtado.

 

Competir é uma paixão

 

Nasci em 24 de julho de 1929.

Senti desde cedo inclinação pelos esportes náuticos, o que resultaria na minha paixão por competir.

Quando se faz alguma coisa com o amor que eu e meus companheiros fizemos, os resultados tendem a ser consagradores.

Não foi à toa que logramos obter vitórias que colocaram o Espírito Santo e o Brasil no "podium" dos vencedores.

Paixão pelo remo e pelas cores do Álvares Cabral, clube náutico fundado em 2 de julho de 1902, tendo como grande presidente Alceu Aleixo.

O Álvares Cabral era a razão que nos levava às competições, em busca de novos troféus, de tal sorte que a nossa "vida" permaneceu ligada a esse clube que ainda vibra em nosso coração.

Parodiando a torcida do Flamengo, clube onde também remei, dizemos: "Uma vez Álvares Cabral, Álvares Cabral até morrer."

A garagem do Álvares Cabral ficava na Vila Rubim, perto de onde se localiza hoje a ponte Seca. Era o "território" dos que se dedicavam ao remo, porque ali também se localizava a garagem do Náutico Brasil, nosso rival, junto com o Saldanha da Gama.

Tempos felizes, tempos de glórias, a juventude capixaba dedicando-se a um esporte nobre como o remo, competindo seriamente, dando um exemplo de maturidade cívica e de dedicação ao Estado.

Cito Harry Mosé, Cid Monteiro Martinez (conhecido por Canelão), como modelos de atletas conscientes e dedicados ao progresso do esporte náutico.

Eram grandes remadores participantes das competições: Emílio Semer, Dezi Correia de Moraes, Moacir Cruz, Manoel Correia, Wilson Freitas, Agenor Correia, os irmãos Costa, Cara-pau, Ruy Pimentel, Rezende Ribeiro de Rezende (hoje reitor da UDF de Brasília), Jair Coser, Jayme Navarro de Carvalho, Asdrúbal Gomes de Aguiar, Caranguejinho, Mussum, Osvaldo Viola e outros.

A minha grande alegria era ver a felicidade de meu pai e de minha família, após as minhas consagradoras vitórias.

O reconhecimento nacional do remo espírito-santense enchia de orgulho o nosso povo, nos colocando nos braços da fama. Domingo de regata era domingo de festa na cidade, o povo tomando toda a orla da baía para vibrar com os barcos que conduziam as cores dos clubes da nossa cidade. Vitória se enfeitava de muitas cores, e os remadores capixabas nunca a decepcionaram.

A rivalidade era tão grande, o espírito de competição tão vital, sentíamo-nos tão responsáveis por vencer que, se fôssemos derrotados, sofríamos após as provas, muitos sumindo das ruas e das praças por muito tempo, envergonhados.

Os clubes náuticos davam todo apoio aos seus atletas, mas os governos, não. O governador Jones dos Santos Neves veio em socorro do remo capixaba em 1952, encomendando um barco na Alemanha, que infelizmente chegou às vésperas da prova em Helsinque, na Olimpíada na qual fomos participar. Ficamos quinze dias sem remar, mas saímos na frente nos 1.200 metros. Não conseguimos manter o ritmo e perdemos.

A Olimpíada de Helsinque projetou o remo capixaba internacionalmente, tanto que fomos convidados a remar numa regata que aconteceria na Alemanha, mas não pudemos aceitar o convite.

Comecei a remar em 1945 e já em 1947 acumulava alguns títulos. Foram nove troféus seguidos.

Quando nos preparávamos para conquistar o decacampeonato de remo, eu e Harry tivemos um problema com a diretoria do Álvares Cabral e nos transferimos para o Flamengo, no Rio de Janeiro, onde nos consagramos campeões cariocas e brasileiros. A saudade do calor da torcida capixaba nos fez voltar ao Espírito Santo em 1956.

Em 1952, com Harry Mosé, disputei o "quatro-com" do Brasil no Sul-Americano da Boa Vizinhança e ficamos em segundo lugar, sendo as provas realizadas no Rio de Janeiro.

Como remador guardo inesquecíveis lembranças daqueles tempos de muita luta, muito suor e muitas alegrias. Quem passou pelo que eu passei, que os meus companheiros passaram, pode se orgulhar de ter vivido uma vida pautada na disciplina, na obediência, na aceitação dos bons princípios.

Noto que hoje em dia falta ao jovem o gosto por atividades esportivas de competição, a maioria cuidando do corpo por questão de estética ou por simples vaidade. Faltou, talvez, o estímulo dos pais e dos próprios clubes que possivelmente não fazem uma difusão correta do esporte náutico, num grau de importância como antigamente. Falta apoio oficial na valorização dessa modalidade esportiva que tantas glórias deu ao Espírito Santo e ao país.

Por questão de justiça, não posso deixar de citar o ex-governador Francisco Lacerda de Aguiar (Chiquinho), que, numa venda simbólica, propiciou ao Álvares Cabral a área de terreno que hoje possui, entusiasmado na época com as vitórias consagradoras que obtive ao lado de Harry Mosé.

Para um desportista com a bagagem de triunfos que acumulei, foram preciosos o apoio dos familiares, dos amigos, dos fãs e, sobretudo, da minha esposa, Oneyda Viola, sem cujo incentivo, dedicação e carinho provavelmente não teria alcançado o êxito demonstrado durante toda a minha carreira. "Dona Oneyda", como a chamo carinhosamente, foi a musa das minhas principais vitórias, por gostar do esporte náutico com a mesma paixão que eu sempre demonstrei. Além de tudo ela é cabralista como eu.

 

O futuro do nosso remo

 

O remo capixaba tem futuro?

Às vezes me faço essa pergunta, depois de tanto ouvir a mesma indagação de várias pessoas.

O remo do Espírito Santo tem futuro, sim. Falta tão-somente maior apoio, maior difusão, maior incentivo. Encontra-se atualmente no governo o Dr. Vitor Buaiz, um esportista, um remador nato, daqueles que curtem esse esporte e o amam com sinceridade.

O presidente do Álvares Cabral, João Valbom, junto com o seu vice-presidente e toda a diretoria do clube, trabalha por um objetivo maior e mais consagrador para o nosso remo.

O Saldanha da Gama, tendo à frente Marcelo Dessaune e Romualdo Gianordoli (pai e filho), busca contribuir para o maior êxito dos seus remadores.

A diretoria do Náutico Brasil acompanha essa onda de otimismo.

E, agora, a Desportiva Ferroviária vem também participar do revigoramento do remo capixaba.

Eis por que, sinceramente, acredito no futuro dos atletas que estão sendo preparados para os novos triunfos do nosso remo de competição.

Creio, também, no esforço que vem sadiamente realizando a Prefeitura Municipal de Vitória, pelo seu prefeito Paulo Hartung, e através das Secretarias Municipais de Cultura e Turismo e de Esportes.

Como supervisor da Escolinha de Remo da PMV, procuro incentivar os professores e os atletas na busca da perfeição na modalidade, passando para eles toda a minha experiência.

Esse trabalho da Prefeitura Municipal de Vitória é importante para o fortalecimento dos esportes náuticos no Estado. O espírito lúcido e esclarecido do prefeito Paulo Hartung, felizmente, teve o necessário alcance de buscar levantar o remo estadual, para recolocá-lo na condição que sempre teve de vencedor estadual, respeitado em nível nacional e internacional.

Estou confiante no futuro do nosso remo. Faço um veemente apelo aos meios de comunicação no sentido de projetar e divulgar no Estado essa nobre modalidade esportiva. Apelo que também faço à Assembleia Legislativa Estadual e à Câmara Municipal de Vitória, e até à iniciativa privada.

Se esse apelo for atendido, em pouco tempo o remo capixaba alcançará a mesma projeção conseguida por Arruela e Harry Mosé, dentre outros.

Para finalizar, vale a pena transcrever este pensamento de Pierre de Coubertin, transcrito no mural dos Jogos Olímpicos do Japão, em 1964: "O mais importante, nos Jogos Olímpicos, não é vencer, mas competir. Porque o essencial na vida não é tanto vencer, mas lutar."

 

Fonte da Foto:

Carlos Benevides Lima Junior‎ publicou no grupo FOTOS ANTIGAS DO ESPÍRITO SANTO, no Facebook.
O Remo capixaba ganha o bicampeonato Sulamericano em Valdivia, no Chile, 1952. A chegada dos atletas Arruela, Harry e Chiquito parou a cidade de Vitoria!

 

ESCRITOS DE VITÓRIA — Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Diretor do Departamento de Cultura - Rogerio Borges De Oliveira
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Conselho Editorial - Álvaro Jose Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Bibliotecárias - Lígia Maria Mello Nagato, Elizete Terezinha Caser Rocha, Lourdes Badke Ferreira
Revisão - Reinaldo Santos Neves, Miguel Marvilla
Capa - Remadores do barco Oito do Álvares Cabral, comemorando a vitória Baía de Vitória - 1992 Foto: Chico Guedes
Editoração - Eletrônica Edson Malfez Heringer
Impressão - Gráfica Ita
Fonte: Escritos de Vitória, nº 13 – Esportes- Prefeitura Municipal de Vitória e Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, 1996
Autor: João Arruela Maio
Nascido em Vitória (ES). Comerciante.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2020

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