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Uma festa para Hermógenes – Por Berredo de Menezes

Hermógenes Lima Fonseca

Tinha que haver uma festa para Hermógenes. Não uma festa de despedida, porque a gente não se despede, nunca, do que é eterno dentro de nós. Mas uma festa de ver, de relembrar, de acordar no coração, ao vivo e em cores, o sorriso largo de Hermógenes, com aquele gosto doce da maresia que só os mares e o rio de Itáunas sopram para beijar o rosto dos seus eleitos. E Hermógenes era um deles, que para ali corria sempre, no exílio voluntário do sítio Pixingolê, tentando encontrar as suas raízes de índio — como ele às vezes se dizia — para esquecer a estupidez, transbordante de nossa pobre e infeliz civilização.

Como não aceitaria uma festa que fosse para ele – poeta, escritor, pesquisador e professor de folclore — para todos nós a Comissão Espírito-santense de Folclore preparou, com a sabedoria dos que inventam, a posse de sua nova diretoria, com a exibição da Banda de Congo Amores da Lua, convite que Hermógenes não recusaria, nunca, pela oportunidade de abraçar velhos amigos, como Reginaldo Salles — presidente da Banda — e tantos outros companheiros de dedicação e amor ao nosso folclore.

Tudo combinado e acertado, com a conivência entusiástica do presidente Ormando Moraes e de toda a diretoria do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, as portas da histórica entidade se abriram para homenagear o maior conhecedor das festas populares mais bonitas do nosso Estado. E para ali acorreram amigos de todos os tempos, como Renato Pacheco, com quem trabalhou 50 anos na Comissão do nosso folclore, ao lado de outro baluarte, o saudoso professor Guilherme Santos Neves, que, não podendo vir pessoalmente, por motivos insuperáveis, se fez representar por um dos seus filhos mais ilustres Luiz Guilherme — e outras dezenas de personalidades também ilustres.

Empossada a nova diretoria, com Eliomar Mazoco na presidência e Reginaldo na vice, Renato Pacheco brindou a todos com um discurso de poeta, desenterrando páginas belíssimas de nossa memória cultural, inclusive para justificar, poeticamente, - por que ele e o nosso Hermógenes haviam entregue as armas e os brasões à nova geração, para se dedicarem, de corpo e alma, ao culto surdo da brisa nos mares de Camburi, ou nas margens bucólicas do Itaúnas, no Pixingolê do "Dr. Armojo".

De longe, eu e Luiz Guilherme sentimos o marejar nos olhos do nosso Hermógenes, que, convidado a "fazer um discurso", recuperou-se prontamente e disse quase um século de sabedoria que até o silêncio quis ouvir: "Senhoras e senhores, tenho dito."

A festa começa aí, com alegria transbordando em todos os sorrisos e até no clarão de duas pequenas lágrimas que Hermógenes, com sabedoria de chinês, conseguiu disfarçar inteligentemente, abraçando-se ao seu irmão de congo Reginaldo, que fez levantar toda a assistência, para acompanhar o canto mágico de sua Banda Amores da Lua.

Iniciava-se, ali, a festa de despedida de nosso irmão Hermógenes Lima Fonseca, que, ouvindo as próprias raízes, parecia viajar em outros tempos, vendo seu pai (Manoel) dançando na Folia Reis do Boi, ou ele próprio participando, feliz, do Auto de São Benedito ou de uma memorável exibição do Ticumbi, que ele soube exaltar como ninguém.

E, com a alegria de quem recebe merecidamente, o galardão de presidente de honra da Comissão Espírito-santense de Folclore, Hermógenes exorbitou toda a felicidade do seu fim de vida naquela festa: dançou, cantou e chorou, no ombro de amigos, inclusive do velho e queridíssimo Clementino, companheiro do "Partidão", quando trocaram abraços e recordações dos nossos dias de "clandestinidade" nos porões de duas ditaduras.

Ao nos despedirmos dele, em sua última festa e em nosso último abraço, ainda pudemos ler, num olhar firme e confiante, a frase que ele não disse mas o silêncio gritou mais forte: "É, companheiro, acabei de ganhar, aqui, meu passaporte para a Eternidade." Mas ao invés de ressentimento, ou de qualquer outro vestígio de dor, o que transbordava, até no seu rosto, era a certeza alegre de quem vai, para ficar, eterno, no coração dos seus amigos.

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Personalidades de Vitória – Volume 15 – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES, 1996.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo - Sidnei Louback Rohr
Diretor do Departamento de Cultura - Rogério Borges de Oliveira
Diretora do Departamento de Turismo - Rosemay Bebber Grigatto
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim - Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias - Elizete Terezinha Caser Rocha e Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial - Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão - Reinaldo Santos Neves e Miguel Marvilla
Capa - Vitória Propaganda
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e Encadernadora Sodré
Autor do texto: Berredo de Menezes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018

Personalidades Capixabas

André Carloni

André Carloni

André Carloni nasceu em Bolonha, na Itália, em 28 de janeiro de 1883, e chegou a Vitória em 1890, com sete anos de idade – veio com os pais, Zama Carloni e Marcina Malagute Carloni, e irmãos

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