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Vitória, amor à primeira vista – Por Berredo de Menezes

Vitória em 1908 (foto) era ainda mais Cidade Presépio do que quando o autor aqui aportou, em 19

Foi há quase meio século, vindo de São Luís do Maranhão para o Rio de Janeiro, que experimentei a alegria inesperada de conhecer a então bucólica Ilha de Vitória, graças à ameaça de tempestade que obrigou o comandante de nosso navio – um Ita vindo do Norte – a ancorar por um fim de tarde e uma noite no velho Cais de Paul, de onde descortinava, em frente, aquele belíssimo prédio de nossa majestosa Alfândega, hoje apenas lembrança a iluminar nossa saudade.

Guiado por um rebocador, o nosso Ita singrou o canal sob os acordes mais belos do pôr-do-sol e, já de passagem pela Ilha dos Guimarães – hoje mais conhecida por Ilha da Fumaça – era fácil compreender, com o surgimento de milhares de pontos luminosos a enfeitarem a solidão no escuro, porque a nossa Ilha ganhara apelido e fama de “Cidade Presépio”.

O deslumbramento daquela paisagem tomou conta do corpo todo. Ao fundo, - ao voltarmos os olhos para os lados do mar – na popa do navio, o céu parecia incendiar-se, com imensas nuvens negras anunciando um temporal. E em frente, ornamentada de pequenos morros, aquela imensidão de pontos luminosos nos induzindo a acreditar que Deus escolhera aquele pedaço do mundo para plantar, com muito amor, seu pequenino presépio.

Foi amor à primeira vista. Paixão de não se esquecer, nunca mais, mesmo que o vento perca as asas, principalmente depois que a gente descobre, vindo de um calor de quase quarenta-graus, que o “vento-sul” consegue soprar, até nos verões mais escaldantes, como aquele – janeiro de 1948 – a certeza de não existir, em nenhuma outra parte do mundo, fenômeno climático tão singular como esse inebriante vento que, acariciando o nosso rosto pela primeira vez, nos escraviza ao seu perfume pelo resto da vida, multiplicando no coração, onde quer que a gente se encontre, o desejo de senti-lo a qualquer instante do dia ou da noite, pois ele tem sabor de coisa eterna ou de saudade velha, que se renova, nos degraus de cada crepúsculo, pela esperança de acordar, no corpo e na alma, o perfume de sândalo e alfazema que um dia a gente bebeu, de joelhos, nas curvas mais excitantes da mulher amada.

Içada as âncoras, nas fraldas do amanhecer, as fumaças de sono da cidade, como se fossem lenços acenando adeus, tangiam os sinos da alma num convite – quase – desafio de aqui voltar, novamente, para descobrir os seus encantos, os mistérios do seu azul e a solidão pachorrenta do Penedo, ajoelhado no mar, na sua prece diária de acordar a aurora.

A cidade ficou, inteirinha, como um presépio visto em sonho, iluminando o coração.

Concluí, anos depois, os meus estudos jurídicos na velha “Cidade Maravilhosa”. Fui bolsista do governo frânces, via Sorbonne, na “Cidade Luz”. Mas o chamamento de Vitória, pela força quase divina do seu “vento sul”, acabou ganhando contornos de coisa irreversível, predestinação que nem o sono ousa esconder.

Voltei, finalmente, em gôzo de férias, nos dias finais de dezembro de 1956, quando Vitória se preparava, como uma noiva de encantos requintadíssimos, para os Festejos de Natal e Ano Novo.

Após dez dias de mar e intermináveis passeios de bonde pela cidade, vivificando lembranças e saudades de minha eterna São Luís, me convenci, pelo milagre do Amor que não escolhe hora de chegar, de que aqui estava o meu destino, ou o porto novo onde ancorar as esperanças. E fiquei, alimentando sonhos.

Pela indulgência generosa do seu povo, cheguei até a governar essa Cidade e aproveitei a chance de perder, para sempre, aquela nostalgia de coqueiro das praias de minha terra: plantei coqueirais minúsculos em toda a orla marítima – de Camburi à Curva da Jurema – e agora, quando a saudade chove no coração, em viagens pelo mundo, é o “vento-sul” de Vitória – minha “Cidade Presépio” -, quem solfeja e inunda, com acordes de violino, a alma triste do poeta, contando as horas de voltar e ver, como naquele fim de tarde quase meio século atrás, a solidão de pedra do Penedo, ajoelhando nas águas, pedindo a Deus que não morra, nunca, a vocação de Presépio que a cidade guarda, como um símbolo.

Como já tenho um lugar certo onde ancorar a solidão dos ossos, em Santo Antônio, sei que serei feliz, depois da vida, como semente de um sonho no Presépio de Amor da Eternidade.

 

Escritos de Vitória – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES, 1997
Prefeito Municipal: Paulo Hartung
Vice-Prefeita Municipal: Luzia Alves Toledo
Secretária Municipal de Cultura: Cláudia Cabral
Sub-secretária Municipal de Cultura: Verônica Gomes
Diretor do Departamento de Cultura: Joca Simonetti
Adm da Biblioteca de Adelpho Poli Monjardim: Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias: Elizete Terezinha Caser Rocha, Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial: Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão: Gilson Soares
Capa: Ângela Cristina Xavier
Editoração: FCAA
Impressão: Gráfica ITA

 

Fonte: Escritos de Vitória, nº 18 – Cidade Presépio, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo – PMV, 1997
Texto: Berredo de Menezes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2018

 

Berredo de Menezes,
Nascido em Caxias (MA)
Professor Universitário, advogado
Ex-prefeito e vereador de Vitória
Autor, entre outros, de Catedral dos vácuos, A surdez dos clarões e Clarividências do nunca.

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