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Vitória virou praça de guerra para proteger as minas

Tinha fortaleza para tudo quanto é lado - Ilustração: Genildo Ronchi

As lavouras foram abandonadas, os serviços urbanos negligenciados. Os piratas na espreita. O ouro tinha que ficar na moita. E havia o possível contrabando do metal, pelo porto da capital. Aí foi decretado: vamos fechar o Espírito Santo. E assim se fez. E foi a noite.

Com a febre do ouro, o êxodo para a região das minas atingiu níveis inacreditáveis. Brancos e negros, ricos e pobres, clérigos e leigos, funcionários, proprietários rurais e negociantes urbanos partiram em debandada para a região das minas.

A astúcia, o egoísmo, a competição desenfreada tomaram conta dos ânimos. Dessa maneira, a decadência econômica cresceu nas Capitanias. As lavouras foram abandonadas, os serviços urbanos foram entregues à própria sorte. E o mais grave: corsários e piratas observavam de longe os portos abandonados.

Portugal preocupava-se com a possibilidade de novos ataques de potências estrangeiras. Depois da invasão francesa no Rio de Janeiro e suas terríveis conseqüências; depois das invasões holandesas e o caos que se estabeleceu em toda a Colônia, a notícia do ouro na região das minas deveria aguçar a cobiça dos estrangeiros. Era preciso cautela. O terror dominava a corte portuguesa.

O Espírito Santo continuava servindo de barreira para o contrabando do ouro. O Conde de Sabugosa mandou o engenheiro Nicolau de Abreu fortificar a Vila de Vitória. Corria o ano de 1726.

O Forte de São João já existente (sofrera reparos em 1702, por ordem do Governador-Geral do Brasil, D. Rodrigo da Costa) foi ampliado e melhorado. Um novo forte foi construído: o Forte de São Tiago, aos poucos apelidado de São Diogo, na comunicação entre a Praça Costa Pereira com a Cidade Alta, no centro de Vitória.

O Fortim Nossa Senhora do Monte do Carmo, cujas notícias são de 1677, também é melhorado. Sobre as ruínas desse forte, existe hoje o Hotel Sagres.

Na quadra de confluência das ruas General Osório e Nestor Gomes, foi construído o Forte de Santo Inácio, conhecido como São Maurício, por ostentar, no nicho do portão, a imagem de São Maurício.

Luiz Serafim Derenzi, em Biografia de uma ilha, registra: "Vitória era verdadeira praça forte com seus inúmeros soldados pobretões, ganhando $640 réis mensais. Mal vestidos e obrigados a comprar os uniformes nos armazéns da Bahia. O contingente militar era aparatoso: uma companhia de infantaria paga, com 28 soldados; doze companhias de Ordenanças, uma companhia de artilheiros com 36 soldados, mas sem oficial entendido em armamento."

Registros históricos dão conta de que esses fortes só dispararam em continência a autoridades.

Quanto mais chegavam notícias dos tesouros das minas, mais aumentava o pavor do governo de Lisboa sobre possível abordagem marítima por esquadras estrangeiras.

Em 1776, outro engenheiro militar, o sargento-mor José Antônio Caldas, é incumbido de rever as fortificações. Constrói também um fortim na Ilha do Boi. Luiz Derenzi informa: "Ao findar o século, sob o governo do Capitão-mor, Coronel João Mongiardino, o militarismo atinge verdadeiro apogeu bélico. Havia na Capitania as seguintes corporações:

1 - Regimento de Infantaria Auxiliar, composta de 7 companhias, das quais cinco em Vitória;

2 - Esquadrão de Cavalaria, com 100 homens;

3 - Companhia de Artilharia, com 61 homens;

4 - Terços de ordenanças com efetivo de 1.185 homens;

5 - Uma companhia de homens pretos, com 97 praças".

Com referência ao Forte de Piratininga, construído em Vila Velha, assim escreve o engenheiro Nicolau de Abreu ao seu superior, o vice-rei: "Cumprindo ordem de nove de abril de 1734 de V. Excia. com toda a individuação e clareza expendo as obras e reparos, que mandei fazer na Capitania do Espírito Santo quando nela estive por ordem de V. Excia. No forte de São Francisco Xavier ou de Pertininga, chamado também de Barra mandei levantar seus parapeitos por estarem muito demolidos; fazer sua esplanada, uma garita, casa de pólvora de abóbada, quartel para os soldados, reparar outro, sua alpendurada, reformar sua portada e entrada, ou subida"... (Doc. n° 251 - Arquivo Histórico Ultramarino/Lisboa).

A coroa portuguesa e seus delegados no Brasil estavam convencidos de que qualquer ataque de corsário ou de delegações estrangeiras à procura das jazidas de ouro teria o Espírito Santo como base de desembarque. Daqui seguiriam em direção às Gerais. Dessa maneira, veio a proibição de se fazerem estradas que ligassem a Capitania do Espírito Santo à região das minas. E também a preocupação em fortificar a Vila de Vitória.

Numa hora propícia à expansão do Espírito Santo, as circunstâncias impediram a Capitania de conquistar o próprio território.

 

O Espírito Santo continuava como sentinela à possível evasão do ouro.

 

Fonte: Jornal A Gazeta, A Saga do Espírito Santo – Das Caravelas ao século XXI – 19/08/1999
Pesquisa e texto: Neida Lúcia Moraes
Edição e revisão: José Irmo Goring
Projeto Gráfico: Edson Maltez Heringer
Diagramação: Sebastião Vargas
Supervisão de arte: Ivan Alves
Ilustrações: Genildo Ronchi
Digitação: Joana D’Arc Cruz    
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2016

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