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A explosão dos movimentos sociais na Grande Vitória na década de 70

A explosão dos movimentos sociais na Grande Vitória na década de 70

"Depois de 34 anos da última greve dos operários da construção civil, aconteceu ontem o mais inflamado piquete já realizado por uma classe em greve no Estado, quando mais de três mil trabalhadores marcharam por aproximadamente 13 quilômetros em uma operação arrastão, a partir do Ginásio do Colégio Salesiano - onde esperavam respostas das negociações, do comando de greve, na DRT que devem ser concretizadas hoje - passando por Gurigica, Santa Lúcia, Praia do Canto, até atingir o objetivo: parar as operações da Terceira Ponte". (Jornal A GAZETA, 06/09/1979).

Este não é um fenômeno isolado dos últimos anos da década de 70. É a retomada à nível nacional das grandes manifestações populares, depois de 15 (quinze) anos de silêncio e refluxo dos movimentos sociais.

Influenciados não só pelas grandes jornadas grevistas do ABC paulista, - ampliadas posteriormente para todo o país -, mas também pelas transformações econômicas e sociais ocorridas no Estado, os trabalhadores capixabas entram novamente em cena para manifestar suas insatisfações frente às difíceis condições de vida trabalho. Não é mera obra do acaso que exatamente os operários da construção civil dão início a este processo: a Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST) está em fase de construção. Na década de 70, inicia-se no Estado a implantação dos chamados Grandes Projetos (Aracruz; CST, etc.), com todas as consequências advindas do processo de industrialização a toque de caixa, engendrando contradições tanto na esfera da produção quanto na reprodução da força de trabalho.

As acirradas contradições urbanas, a influência do forte movimento operário dos grandes centros urbanos brasileiros, a experiência histórica acumulada, fez com que o movimento social emergente na década de 70 adquirisse contornos próprios e qualidade nova tanto no que se refere às formas de luta e organização, como na natureza da sua relação com o poder constituído. Ele preserva a sua independência orgânica e política em relação ao Estado e avança na superação de um estágio puramente economicista e corporativista. A participação dos movimentos populares nos grandes acontecimentos políticos nacionais, como a Campanha pelas Diretas e as demais lutas por liberdades democráticas e sindicais; a natureza das reivindicações, no que se refere a uma nova política urbana, atingindo os setores da habitação, transportes coletivos, saúde, etc.; as propostas envolvendo uma nova política salarial; e a criação de comitês de solidariedade, são apenas alguns exemplos que revelam um estágio novo, que extrapola as lutas de caráter puramente imediatista e revela a interferência do movimento nas questões mais gerais da sociedade.

No caso da Grande Vitória, apesar de grandes avanços já mencionados, os movimentos sociais urbanos esbarram em limitações decorrentes do próprio processo de formação e desenvolvimento econômico do Estado. Um deles se refere a existência de um operariado urbano industrial ainda pouco numeroso e pouco concentrado e que apesar da experiência dos seus antepassados, pelo fato de ter entrado no processo produtivo mais recentemente com a implantação dos Grandes Projetos nos anos 70 - período de forte repressão e, portanto, com pouca oportunidade de participação e crescimento -, ainda está bastante desagregado no que se refere à sua organização. Outros setores, como ferroviários, portuários, funcionários públicos, apesar do acervo de experiências históricas, estão dando os primeiros passos no campo da retomada da sua organização.

As experiências nos grandes centros urbanos, principalmente no ABC paulista, vêm mostrando que a existência de um movimento operário e sindical forte influi decisivamente no crescimento dos movimentos populares dos bairros. A conexão entre eles traz saldos organizativos e políticos importantes, contribuindo para o crescimento do nível de consciência dos moradores, levando-os a uma compreensão maior sobre a sua condição de trabalhadores e não somente de consumidores de bens de serviços agenciados pelo Estado.

Outro fator característico da região, e que tem reflexos no grau de consciência e organização, está relacionado com o grande número de pessoas do campo que imigraram para a Grande Vitória e a experiência anteriormente acumulada por estas pessoas. O pequeno proprietário, ligado à produção do café principalmente, que imigrou para a Grande Vitória, acumulou na sua experiência de vida a prática da produção individual e familiar, sem o vínculo de assalariamento, e que, em termos, satisfazia as suas necessidades mínimas de consumo. Esta prática vai ter reflexos à nível da sua consciência e formação, gerando uma concepção individualista no enfrentamento dos problemas e que só será superada na medida em que se desencadeia um processo de deteriorização das suas condições de vida em função da política de erradicação do café, da entrada do grande capital no campo e da sua expulsão para os centros urbanos.

Dá-se início a um processo crescente de urbanização na Grande Vitória, com a ocorrência de forte fluxo migratório atraído pela propaganda em torno da industrialização.

Em 1960, a população do Estado era predominantemente rural (72%). Quatorze por cento (14%) da população total concentrava-se na Grande Vitória, que possuía 198.000 habitantes. Em 1980, a população da Grande Vitória atingia 35% da população do Estado.

Na realidade, a indústria em si vai absorver pequeno número de trabalhadores especializados. A grande maioria é absorvida na construção civil, comércio, prestação de serviços, administração pública. Em 1977, o Setor de Serviços na Grande Vitória absorvia 70,83% da população economicamente ativa, enquanto o Setor Indústria absorvia 17,74%.

Esses trabalhadores, mais os desempregados, biscateiros, "donas de casa'" vão se fixar nos chamados bairros populares, designação que envolve as favelas, invasões, bairros e vilas da periferia e conjuntos habitacionais.

Esses bairros, sem fugir ao que ocorre em escala nacional, têm como característica a ausência ou precariedade de serviços e equipamentos urbanos, como rede de água, luz, esgoto, creche, posto de saúde, que somados aos baixos salários e inflação, agravam violentamente as condições dessa população, gerando um estado crescente de pobreza e miséria social.

Tal quadro é decorrente de uma política urbana que consiste basicamente na utilização da cidade com vistas à prática especulativa, visando em última instância, a acumulação e reprodução do capital. Os recursos públicos são aplicados dentro de uma orientação que prioriza o atendimento dos interesses privados, em detrimento dos serviços públicos de consumo para os trabalhadores. Dessa forma, a inexistência e deficiência de equipamentos e serviços básicos, os baixos salários, as difíceis condições de emprego e custo de vida, além da concentração de uma grande heterogeneidade de setores sociais habitando nas mesmas subcondições, faz com que a passividade, o conformismo e a individualidade dêem lugar à participação e a tomada de consciência dos moradores dos bairros sobre suas necessidades de sobrevivência.

É dentro de um contexto de grande adensamento da população na Grande Vitória e de acirramento das contradições urbanas, tanto à nível de consumo de bens e serviços - saúde, transporte, educação -, como a nível da produção - baixos salários, desemprego, condições de trabalho que surgiram os movimentos sociais urbanos do final da década, de 70 na Grande Vitória, tendo continuidade e crescimento até os dias de hoje, e que tiveram na greve da construção civil de 1979 a expressão máxima do que já ocorreu no Estado em termos de mobilização de massa.

Os movimentos sociais se estenderam à diversas categorias e bairros populares. Ocorreram, neste período, as greves dos motoristas e trocadores de ônibus, dos professores universitários e secundários, e dos médicos, além de dezenas de invasões, cuja violência policial, presente em todas elas, encontrou forte resistência dos moradores e apoio·dos mais vastos setores da sociedade. Embora caracterizado pela espontaneidade e explosividade, frente às precárias condições de vida, de trabalho e baixos salários, a experiência, e a própria necessidade no decorrer das lutas, fizeram com que os trabalhadores e moradores dos bairros desenvolvessem inúmeras formas de organização a partir da criação de estruturas mais estáveis e, permanentes, como foi o caso, Associações de Moradores, da Federação das Associações de Moradores da Serra, comissões e fóruns unitários Comissão do Movimento de Transporte Coletivo Vila Velha, Comissão de Unificação dos Movimentos Populares da Grande Vitória, Comissão de Saúde da Serra-, além da tomada, pelas oposições, de entidades sindicais e de bairros há anos sob o. controle de diretorias atrasadas e pelegas (Movimentos Comunitários e Sindicatos).

A pequena força do movimento operário industrial propriamente dito, o grande peso numérico dos demais setores sociais, incluindo os não assalariados, desempregados, "donas de casa", etc., faz com que movimentos populares dos bairros assumam, no contexto geral das lutas sociais da Grande Vitória, um peso extremamente importante, pois conseguem congregar a ampIos setores populares e representar, de fato, uma força dentro da conjuntura.

Novas e ricas experiências vêm se conformando nos dois últimos anos no Espírito Santo, que merecem tratamento e estados especiais. As transformações conjunturais, que vêm ocorrendo no país, nos anos recentes e a decorrente adoção por parte do poder público de novas estratégias de relação com os movimentos sociais requer pelo lado do movimento, uma permanente revisão das suas diretrizes e métodos de intervenção. As práticas de envolvimento da população, no planejamento e execução das políticas; a criação de instrumentos com Conselhos Comunitários, visando a participação da população na administração pública; a manutenção da autonomia política e orgânica dos movimentos em relação ao Estado, são questões de suma importância a serem analisadas dentro da nova conjuntura política do país.

 

Fonte: Revista IJSN Instituto Jones dos Santos Neves – Ano IV Nº 2 -1985
Autora: Nildete Virgínia Turra Ferreira - Assistente Social, Presidente do Sindicato de Assistentes Sociais no E. S., Técnico do IJSN
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2021

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