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As dores e alegrias da velha senhora - Por Fernando Achiamé

Fernando Achiamé - Historiador e Escritor. Pertence à Cadeira 17 da AEL

Pensar a Academia Espírito-santense de Letras – AEL nas proximidades do seu primeiro centenário significa lembrar-se de uma velha senhora com suas dores, achaques e também com as recompensas trazidas pela idade. Já disseram que envelhecer exige coragem, muita coragem para enfrentar problemas e desafios que uma longa existência impõe à carne e ao espírito. Esse conceito possui eficácia para os seres humanos, e também para instituições, do mesmo modo dotadas de instâncias físicas e imateriais.

Nossa Academia compartilha com entidades congêneres do país e do estrangeiro situações que se assemelham e precisam ser superadas para garantir sua sobrevivência. É notório que a AEL caminha aos trancos e barrancos desde os primeiros vagidos em 1921, partejada por Sezefredo Garcia de Rezende, Alarico de Freitas e Elpídio Pimentel, que foram acolitados pelo bispo d. Benedito Paulo Alves de Souza, Arquimimo Martins de Matos, Afonso Correia Lírio e tantos outros idealistas. A motivação maior para a criação da Casa, certamente comum a outras agremiações de cunho associativo mundo afora, pode ser resumida numa palavra: sociabilidade. Historiadores, antropólogos e sociólogos já se debruçaram sobre esse fenômeno social antigo como o vento sul, procurando compreendê-lo por variados prismas. Fenômeno que assumiu características próprias na contemporaneidade, que viu surgir as diversas fases do capitalismo e da Revolução Industrial.

De fato, a noção de sociabilidade sintetiza bem a congregação de interesses que aproximam os membros de associações religiosas ou leigas no ambiente político-social burguês. E na vida literária? Pessoas que possuem alguma intimidade com a arte da palavra, prática eminentemente solitária, procuram se juntar. Sobretudo as que fazem da produção de textos sua razão de viver; sejam eles de cunho literário nos seus diversos gêneros, sejam narrativas não-ficcionais vinculadas às ciências e às profissões liberais. As associações literárias utilizam um estratagema que reúne pessoas com interesses assemelhados e, ao mesmo tempo e de modo não-contraditório, as distingue das outras que vivem na mesma sociedade. O modelo original, a Academia Francesa, foi depois emulado no país pela Academia Brasileira; e em ambas não se exige que seus integrantes cultivem com exclusividade as letras. Esta última palavra foi acrescentada ao nome da entidade nacional, mas não impediu que indivíduos de diferentes origens artísticas e profissionais nela ingressassem. Situação parecida, somente que em ponto menor, ocorreu com a academia sediada em Vitória. Contudo, os diletantes amadores das belas-letras e os escritores em tempo integral predominaram nas academias brasileira e capixaba. Entre seus associados, sobressaíam os formados em direito e que seguiram carreira na advocacia ou no poder judiciário (juízes, promotores, desembargadores), circunstância que correspondeu muito bem ao bacharelismo vigente na vida política nacional e estadual na época em que aqueles grêmios foram fundados. Situação que na província capixaba mais se prolongou e de modo marcante.

Ainda está para ser realizada uma história abrangente da Academia Espírito-santense de Letras. Recentemente, teve começo a utilíssima iniciativa voluntária do acadêmico Getulio Pereira Neves de transcrever e publicar, talvez de modo virtual, a totalidade das atas da AEL – as iniciais já foram impressas em 2009, graças aos esforços do acadêmico Francisco Aurelio Ribeiro, seu presidente de honra. Concluída a obra, estará bastante facilitado o trabalho de reconstituir a história referente à Casa de Kozciuzko Barbosa Leão. Além das atas, existem na Academia outras fontes primárias importantes à disposição dos pesquisadores interessados na sua história: documentos contidos nas pastas dos acadêmicos falecidos ou vivos, correspondência ativa e passiva, fotografias, publicações avulsas e periódicas... E que podem ser associadas a outras fontes: entrevistas com pessoas que detêm informações sobre a Casa e os seus ocupantes; documentos e jornais existentes em distintos acervos.

Determinados temas serão tratados de modo inescapável, quando se concretizar uma narrativa historiográfica completa da AEL. Um deles: as razões para a criação da Academia com apenas 20 cadeiras, número ampliado após alguns anos para 30 e logo depois para 40. As escolhas dos patronos e dos acadêmicos também se revestem de significados que, por certo, iluminarão a vida experimentada por uma agremiação quase centenária. Outro tema a considerar: as trocas de guarda, ou seja, as gerações que se sucederam nos quadros da instituição com suas peculiaridades e pontos em comum. Outros temas também a pesquisar: as incidências entre os acadêmicos de profissionais de diversos campos, oriundos de diferentes etnias, de múltiplos municípios capixabas, e de outros estados da federação. O início da presença feminina na AEL acompanhou a mudança ocorrida em âmbito nacional. Todavia, no estado capixaba, aconteceu a criação da Academia Feminina Espírito-santense de Letras em 1949, de início como protesto por nenhuma mulher ocupar um lugar na AEL, mas que resultou em acomodação do problema; que, afinal, foi superado por ocasião da posse de Judith Leão Castelo Ribeiro na cadeira 12 dessa Academia, em princípio da década de 1980.

Como todas as instituições neste mundo de Deus, a nossa também vivenciou altos e baixos – eles próprios serão indícios para nos informar quais motivos os originaram, suas durações e consequências. Além de ajudar a resolver enigmas até intrigantes. Por exemplo: as causas de a AEL ter demorado tanto tempo para publicar com regularidade sua Revista. Ou as dificuldades para conseguir uma sede própria, afinal instalada de modo limitado nas dependências de uma edificação concebida para ser residência unifamiliar. Outras questões a desafiarem os estudiosos do nosso passado acadêmico: por que, no decorrer de tantos anos, as administrações estaduais e municipais pouco ajudaram a Academia? E por que se perderam partes dos acervos bibliográfico e arquivístico da entidade?

Na história da AEL, não pode ficar de fora o vasto “anedotário” respeitante à sua já longa existência. O recolhimento de anedotas, casos, relatos (mesmo que sem identificar os protagonistas) sem dúvida lançará luz sobre os caminhos tomados e os desvios evitados na trajetória da nobre organização. Por que certos escritores que nasceram ou viveram no Espírito Santo não entraram na Academia? Disputas pessoais? Malquerenças oriundas de intrigas fora dos muros acadêmicos? E as brigas e desavenças “interna corporis”? Por motivos ideológicos? Curtos-circuitos nos entrechoques de estrelatos artísticos? Quais os tipos de “lenhas” que mais se colocaram na fogueira das vaidades? E sem se esquecer de avaliar situações inusitadas envolvendo literatos. Houve os que criticavam a Academia capixaba e que, no entanto, a ela gostariam de pertencer. Houve também aqueles que ingressaram a contragosto na agremiação literária e, depois de empossados, a ela deram as costas – nunca a frequentaram, não honraram suas anuidades, nem participaram de suas iniciativas mais corriqueiras. Existiram até pessoas que por vaidade (melhor dizendo, por pretensa humildade que mal disfarçava suprema vaidade) procuraram se distinguir no meio social, recusando sistematicamente convites para preencher uma vaga no sodalício. Sem contar casos de escritores que, por idiossincrasias pessoais, brigaram com a Academia ou com sua diretoria antes mesmo de serem eleitos e, teimosos, desistiram de pleitear uma cadeira. Também se conheceram intelectuais que, por convicções íntimas e sentimentos sinceros, não se sentiriam à vontade no convívio acadêmico.

Resta constatar que, de forma semelhante às congêneres, nossa associação sempre teve pessoas e pequenos grupos que “carregaram o piano”, que se constituíram em “faz-tudo”, que mais se dedicaram às atividades acadêmicas – incentivando os encontros e reuniões, promovendo publicações avulsas ou periódicas (a Revista da AEL), resolvendo questões burocráticas ou legais, elaborando projetos, preenchendo formulários, desejando, cogitando, sonhando...

Deus há de querer, muitos de nós sonharemos e obras serão iniciadas e concluídas para avançar ainda mais o prestígio da literatura e da cultura no território do Estado do Espírito Santo. Muitos desafios se apresentam à veneranda instituição no curto prazo – reformar as instalações da sede; manter a secretaria, o arquivo e a biblioteca em funcionamento permanente e à disposição do público; organizar tecnicamente o arquivo com o arranjo e a descrição das séries documentais; catalogar e classificar (além de restaurar no que for preciso) os exemplares do seu precioso acervo bibliográfico; aprimorar e diversificar as publicações; e tantas outras iniciativas a exigirem providências... e verbas.

Com incômodos próprios da idade, essa velha senhora sempre se renova e assiste impassível aos imortais se sucederem em suas cadeiras... E prossegue em direção a mais cometimentos importantes com ajuda daqueles associados realmente participativos e abnegados. Apesar de todos os percalços vividos, de todas as dores e achaques que sofre, a AEL cultiva também alegrias – continua a desfrutar de prestígio e respeito por parte da sociedade capixaba, cujas lideranças têm consciência de que a maioria dos acadêmicos se dedica a honrar os valores da nossa terra.

Vida longa e produtiva à Academia Espírito-santense de Letras!

 

Fonte: Revista da Academia Espírito-santense de Letras / 100 anos – Vol 26. (2021) - Vitória
Autor: Fernando Antônio de Moraes Achiamé Historiador e Escritor. Pertence à Cadeira 17 da AEL
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2022

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