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Características Naturais do Espírito-Santense - Por Eurípedes Queiroz do Valle

Capa do Livro de Eurípedes Queiros do Valle

As 10 mais expressivas

 

1) A saudação. Trata-se de uma exclamação de cunho amistoso, usada para saudar amigos e conhecidos. É representada por um “Ei!” pronunciado com uma en­tonação especial de voz, misto de surpresa e alegria. Tão característica é esta maneira de saudar que Dom José Montarcé, que foi por muitos anos Cônsul da Argentina em Vitória, dizia que quando desejava, em Buenos Aires, rever amigos e ter notícias do Espírito Santo, ia ao Restaurante “La Emiliana”, daquela Capital (Calle Corrientes 1431), preferido por brasileiros, e ali era fácil identificar o capixaba pela maneira de saudar os conterrâneos. (Carta daquele diplomata ao autor, datada de setembro de 1965. Arquivo particular).

2) Imperativo de dignidade. Em pleno regime ditatorial, instalado no País após a Revolução vitoriosa de outubro de 1930, quando as garantias individuais foram suspensas e a insegurança no exercício de qualquer função pública era geral, o Tribunal de Justiça do Estado mandava arquivar, sem tomar conhecimento, um ofício do famoso DIP. (Departamento de Imprensa e Propaganda), enviando um retrato do Sr. Getúlio Vargas com a “su­gestão” de “ser o mesmo aposto em solenidade pública e em lugar de destaque, na sala das sessões”. Aos Juízes de Direito que foram sumariamente demitidos na ocasião, o mesmo Tribunal, por unanimidade, concedeu-lhes mandado de segurança para que voltassem às suas funções até que fossem apuradas, regularmente, as faltas que lhes eram atribuídas. O saudoso Ministro Laudo de Camargo, do Supremo Tribunal, ao tomar conhecimento dessas atitudes do Tribunal capixaba, chamou-o de “Tribunal singular” (Discurso com que agradeceu as homenagens que lhe foram prestadas em Vitória por ocasião de sua visita ao Tribunal, em setembro de 1952).

 

3) Reserva natural com o desconhecido. O cuidado de se mostrar reservado e cauteloso com estranhos e desconhecidos tem feito com que no Espírito Santo os chamados “contos do vigário” e outras fraudes conhecidas, sejam raras. Os “descui­distas” e “punguistas” encontram no Estado um campo muito estreito para as suas “atividades”, como se pode verificar pelas estatísticas criminais (Estatísticas Crimi­nais in “Anuário do I.B. G.E”. Anos de 1965-69).

 

4) O Bom-humor natural. A vis-cômica capixaba é conhecida. Admira realmente a facilidade com que o menino de rua ou o simples homem do povo concebe e aplica um apelido faceto ou uma alcunha chistosa. Muitos dos que correm como de origem carioca nasceram na Praça Oito Setembro, centro da Capital, onde se reúnem estudantes, litera­tos, artistas, políticos, homens de negócios e desocupados (Dicionário Informativo do Estado do Espírito Santo. Ed. Vitória. 1959. Verbete “Psicologia do Apelido”.)

 

5) Culto do passado. O capixaba venera e respeita, de modo particular, os seus antepassados. O fato é de fácil verificação pelo visitante. Basta atentar para o número de seus monumentos públicos. As Escolas Públicas, os Grupos Escolares, os Colégios, Ginásios e Educandários em geral, recebem sempre os nomes de antigos Mestres falecidos. Os Poderes Públicos, o Executivo como o Legislativo e o Judiciário man­têm em suas sedes, Galerias de seus membros desaparecidos. Todas as Comarcas do Estado estão sob a égide de um Patrono escolhido entre Juízes e Advogados de nota falecidos. Esse culto pelo passado é mantido igualmente pelas Associações culturais, Clubes Sociais, Clubes Esportivos, Associações de classe, etc.

 

6) O sentimento de solidariedade. Um Prefeito da Capital. (Dr. Solon Bor­ges-1963), cedeu certa vez, o carro oficial em que se dirigia para o seu trabalho na Prefeitura, para que uma pobre mulher desconhecida que desmaiara em plena rua, fosse conduzida, sem demora, ao Pronto Socorro. Pagou depois, de seu bolso, um carro de praça para levá-lo ao destino. Recente estatística demonstrou que, em relação à sua população, a cidade de Vitória é uma das capitais brasileiras em que se registra maior número de Instituições, Associações, Asilos, Orfanatos, Casas de assistência e proteção a menores, cegos, velhos, incapazes, retardados, doentes, pobres e desvalidos (Anuário Estatístico. 1968. (Departamento Estadual de Estatística. Ano-XIV.N.14).

7) Público exigente. É conhecido dos profissionais do Teatro e dos espetáculos públicos, o rigor e exigências da plateia capixaba. Artistas como Leopoldo Fróes, Pro­cópio Ferreira, Vicente Celestino e outros, de renome nacional, já foram vaiados em Vi­tória por enxertarem em suas peças e representações, velhas piadas e anedotas conheci­das. Os estudantes, sobretudo, vingam-se dos oradores e conferencistas maçantes e de pouca ciência, retirando-se discretamente, um a um, até deixá-los falando sozinhos...

 

8) A reação contra as zumbaias e salamaleques. Um Presidente de Estado (Cel. Nestor Gomes(1920-24) logo no início de seu governo, recebeu de certa Insti­tuição de Caridade a comunicação de ter sido dado o seu nome à mesma. Informado de que aquela era a terceira mudança, agradeceu a homenagem, mas pediu que fosse conservado o nome de seu antecessor, “para evitar que a direção da Casa tivesse o trabalho de mudá-lo novamente quando deixasse o governo”. O Presidente Graciano Neves, homem de ciência, austero e culto, não suportou, por muito tempo, os sala­maleques palacianos. Um ano e pouco depois de sua posse, renunciou ao governo. Escreveu, a propósito, excelente livro de fundo histórico, social e satírico a que deu o título de “Doutrina do Engrossamento” (Ed. Liv. Flores e Mano. Rio. 1935, 2ª edição).

 

9) Educação Política. As discordâncias entre correntes de opinião, raramente influem nas relações pessoais ou sociais de seus chefes partidários. Inúmeros são os exemplos de confraternização após renhidas campanhas e lutas partidárias. O saudo­so Bispo Diocesano D. Luiz Scortegagna, mesmo antes do movimento ecumênico dos últimos Concílios, deu admiráveis exemplos públicos dessa educação. Ao ter conhe­cimento, certa ocasião, de que determinado líder protestante, homem de bem, estava sendo vítima de injusta campanha difamatória, não vacilou em visitá-lo para levar-lhe pessoalmente a sua solidariedade e o seu protesto.

 

10) Honestidade pessoal dos Governantes. Os que não levam para o poder bens de fortuna terminam os seus mandatos, em regra, pobres como entram. O Coronel Henrique Coutinho, depois de Presidente e Senador da República (1890 e 1905), pleiteou um lugar de Coletor estadual para poder viver. O Presidente Nestor Gomes também. (1920-24). Ao deixar o Palácio, findo o seu mandato de Presidente e depois de ter sido Senador Federal, aceitou pequeno empréstimo em dinheiro de um amigo, seu antigo Secretário de governo para um tratamento de saúde no Rio de Janeiro, fortemente abalada com as estafantes ativi­dades administrativas. Ao falecer, num hospital de Belo Horizonte, os amigos se cotizaram para lhe dar um sepultamento condigno. (“A vida de velhos governantes capixabas” Artigo do jornalista Escobar Filho em “A Notícia” da cidade de Colatina de 4-12-1966).

 

Fonte de estudo: “Esboço histórico dos costumes do Povo espírito-santense”, Padre Francisco Antunes de Siqueira. Vitória. 1944. “Vultos Capixabas” por Orminda Escobar Gomes. Vitória, 1951. “Pequeno Dicionário Informativo do Estado do Espí­rito Santo” de Euripedes Queiróz do Valle, Edg, Vitória. 1959. “Homens e Cousas do Espírito Santo”. Prof. Amancio Pereira. Edç. Vitória. 1897.

 

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Fonte: O Estado do Espírito Santo e os Espírito-santenses - Dados, Fatos e Curiosidades (os 10 mais...) - 4° Edição (Reedição da 3ª ed. de 1971)
Autor: Eurípedes Queiroz do Valle
Compilação: Walter de Aguiar Filho, Maio/2022

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