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Cemitério dos Escravos - Por Francisco Aurélio Ribeiro

Cemitério dos Escravos - Fonte: Inventário da Oferta Turística do Município de Guaçui / 2005

João Cabral de Melo Neto, em seus poemas nordestinos, fala dos cemitérios pernambucanos; “Por que isolar estas tumbas/ do outro ossário mais geral/ que é a paisagem defunta?”. Seus versos voltam-me à memória, após ter visitado, num tour promovido pela Prefeitura, os cemitérios de Guaçuí, durante o 1º Festival de Inverno promovido pela SPDC/ UFES, naquela cidade sulina, de 26 a 31/07.

Guaçuí foi colonizada nas primeiras décadas do século passado por desbravadores paulistas e mineiros, acompanhando o ciclo do café que se desenvolveu pelo Vale do Rio Itabapoana. Ao final do século, poucas, mas grandes fazendas, com seus coronéis e barões que se enriqueceram com a cultura do café e a escravização dos africanos, desenvolveram-se na região.

Fomos visitar a fazenda do Castelo, cuja enorme casa colonial ainda resta de pé, desafiando o tempo e a falta de conservação. Fazenda onde moraram milhares de pessoas ao final do século XIX e primeira metade do século XX, e que hoje resiste solitária, impedindo a aproximação de curiosos e viajantes que vêm conhecer o fausto e a opulência do passado, com suas porteiras trancadas a chave.

Lá visitamos o secular cemitério da fazenda, cuja capela primitiva, com preciosos vitrais, não mais existe. Todavia, do lado esquerdo, estão sepultados os antigos donos da fazenda, com suas tumbas de granito e estátuas de mármore de Carrara, floreiras de puro mármore do início do século, restos do que ainda no foi saqueado pelos ladrões de cemitério.

Do lado direito, numa área bem maior, estão sepultados os mortos descendentes dos italianos que vieram substituir a mão-de-obra escrava, enterrados em sepulturas simples e túmulos sem qualquer ostentação. Certamente ali estão enterrados, também, os sonhos de muitos imigrantes que para ali vieram sonhando com uma terra em que seriam donos e encontraram a fome, a exploração dos antigos escravocratas e muita saúva.

Alguns quilômetros à frente, do outro lado da estrada, à beira do caminho de terra batida pelos muitos pés que a pisaram, sobrevive ao tempo o cemitério dos antigos cativos.

Distante dos túmulos suntuosos dos patrões, o cemitério é marcado por um quadrado formado por quatro gigantescos cáctus, a marcar a paisagem com a memória de aridez e sofrimento por que passaram seus antigos moradores. Nenhum túmulo existe. Certamente, nem caixões cobriam os corpos dos negros mortos pelo sofrimento e o trabalho árduo. Apenas algumas pedras, três toscas cruzes e uma capelinha ao chão marcam aquele lugar sagrado, campo santo para orações dos descendentes dos antigos cativos, que ali descansam em paz, com certeza.

A história pode ser preservada por fontes oficiais, documentos escritos, registros históricos ou pela memória dos seus habitantes. Segundo Foucault, não existe uma História apenas, mas as histórias dos homens. Talvez não encontremos o registro oficial do “Cemitério dos cativos”, em Guaçuí. Mesmo porque, tratados como animais, os negros não tinham registro oficial de nascimento ou morte. Mas a sua Memória existirá enquanto durarem aqueles quatro cáctus apontando para o céu e os passantes, indicando-nos que ali estão sepultados os trabalhadores que, até o final do século passado, construíram a riqueza do Império Português e de seus descendentes. Por outro lado, marcarão, também, como símbolo, a própria vida dos negros que ali estão sepultados. “Mortos ao ar livre, que eram, hoje à terra livre estão”, nos reconfiram João Cabral. Nós, que sobrevivemos, não podemos fechar os olhos aos que morreram, para que existíssemos. Não preservar sua memória é matá-los, mais uma vez.

 

(Guaçuí, julho de 1993).

 

Fonte: Das Cidades e suas Memórias (crônicas de viagens), 1995
Autor: Francisco Aurélio Ribeiro
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2012 

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