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Frei Pedro Palácios e a Virgem Ss. da Penha - Por Orminda Escobar Gomes

Artista: Benedito Calixto, pintada no ano de sua morte em 1927

POEMA

 

O TEMPORAL

 

Polida, a superfície imensa do oceano!

O tempo vai... Do sol, os raios osculavam —

Suavemente, a quilha do navio. Estavam

— Tomados de alegria, os nautas. Soberano

 

Orgulho dominava o pobre ser humano!

Porém, alteia as ondas, o tufão, e... travam

Os elementos, luta. Incautos, não contavam

Com a fúria da matéria, a raiva do tirano.

 

Blasfêmias, gritos, ais.. terríveis, lancinantes...

Ressoam pelo espaço... Os vagalhões, constantes

Estouram, vergastando aquela gente brava!

 

Palácios ajoelha... Humilde, eleva o olhar

Ao céu... e arroja, após, a capa sobre o mar...

O temporal passou... Ardentemente, orava!...

 

II

A GRUTA

 

Ufana, entrava a nau, na barra de Vitória

ao longe, a serrania; e, perto... graciosas

Esparsas — emergindo — as ilhas. Espumosas,

As vagas, num vai-vem contínuo... A trajetória,

 

Traçada de além-mar, chegava ao têrmo... e a glória

Do Lusitano audaz, se expande em belicosas

Canções que faz ouvir, nas plagas luminosas...

— Narrando, com ardor, seus feitos... sua história...

 

Um firmamento azul, sem nuvens, refletindo

na limpidez do espelho da enseada... Lindo

cenário, a marujada exausta, deslumbrava!

 

Saltando, do reinol, encontra a porta aberta...

E o frei vagando, só, na praia — já deserta —

Distante vê, na gruta, o abrigo que buscava.

 

III

O QUADRO

 

— Poético... ideal!... Estrelas pontilhavam

O pálio azul safira desta terra. A brisa

Ao impelir, de manso, a barca que desliza

Cicia, brandamente. A tiritar pescavam

 

Praieiros, na restinga ou no alto mar. Cuidavam

Tenazes, enfrentar a vida rude. Frisa

A face da baía, quase sempre lisa

Veloz gaivota ou garça. As aves pipilavam

 

Alegremente. Afim de esquadrinhar a praia

Risonha — onde a gemer o vagalhão desmaia —

Saiu da furna, o frei, ao despontar da aurora.

 

Depois galgou o monte a pesquisar... e, atento,

De assombro cheio — olhando o pico, no momento...

Entre as palmeiras, viu — O Quadro da Senhora!

 

IV

O PANORAMA

 

— Palácios se prostrou, em pranto, soluçando...

Foi esta a vez primeira em que se deu tal fato;

Mas, deram-se outros mais, a lenda o diz. No mato,

Angustiado, então, errava procurando

 

O corpo castigar — o espírito elevando...

Porque razão a Santa, a Virgem-Mãe, com este ato

Sua alma torturava? Era, ele, um insensato?!

Não! Não! Era um devoto... eterno, suplicando!...

 

Depois, surpreso... o frei, de pé, sobre o rochedo

Extasiado... olhava — as franças do arvoredo

E o horizonte, o espaço, o sol que tudo inflama...

 

A serra, o vale, o rio — em curvas — caprichoso...

A gleba, a planta, a flor... O céu maravilhoso

Soberbo, sem rival! Sublime — o Panorama!

 

V

A ESCOLHA

 

"Somente aqui, eu sei, a Virgem quer ficar!"

Suave, tênue luz, o dia anunciava...

Também a nuvem de ouro, a gota que brilhava.

E a orquestração dos sons dispersos pelo ar...

 

Levanta-se ondulando, em fúria, o torvo mar!

Nesta hora matinal, um barco navegava

Mercê do abismo hiante... o vendaval soprava...

Horrível transe! irá a nave soçobrar!

 

"Senhora! Ouvi... ouvi! Deveis servir de guia

A quem — vagando incauto — o pego atrai... Seria

Um grande, imenso, bem — a Vossa permanência

 

No cimo desta escarpa!... Aqui o peregrino

Virá com fé e ardor — a Deus cantar um hino

E a Vós, Mãe! suplicar — amor, graça e clemência!”.

 

VI

A CAPELA

 

Palácios concebeu um plano: deveria

Perseverante e calmo um culto iniciar

No cume da montanha... E, logo, foi rezar

Curvado, ante o Painel da Virgem-Mãe, Maria!

 

O povo, curioso, ouvindo o que dizia

O frei; e vendo-o, após, as pedras carregar

Ao ombro já crestado... o bom exemplo dar ...

Se aproximava, humilde e o braço oferecia

 

Batendo a mata — a fim de preparar caminho

No monte -- transformado em singular cadinho —

Primava cada qual em bem servir. Só Ela,

 

Com a proteção de Deus podia conceder

Tal graça, tal favor... e, muito mais, prover

O que preciso foi... Assim, fez a Capela.

 

VII

O ÊXTASE

 

— Entusiasmo intenso, estranho, irreprimível!

O nobre coração do frade sublimava!

Da Virgem, Mãe de Deus, a festa celebrava

Com toda a devoção e pompa indescritível!

 

Em tudo agia alegre e prestimoso. Incrível

Atividade a sua. A todos exortava

Da Penha, na igrejinha, à súplica... Exultava

De unção, de crença e amor — sincero inextinguível!...

 

O quanto conseguiu, pasmava! E os que o viam

— Semblante iluminado! — apenas suporiam

Que a santa aspiração do frei chegara à meta...

 

Depois... do altar, em frente... um leigo, consternado.

Palácios encontrou, inerte... ajoelhado!...

N'um êxtase infinito... Ah! se extinguira o Asceta!

 

Fonte: Lendas e Milagres no Estado do Espírito Santo (Poesias 1551-1950) – Prêmio Cidade da Vitória, 1951
Autora: Orminda Escobar Gomes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2021

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