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Guananira - Por Marilena Soneghet

Mestre Álvaro visto do Morro do Moreno

Todo ilhéu vive impregnado de mar, sol e céu. É uma relação profundamente amorosa.

Para nós, capixabas, esse abraço do mar é puro aconchego. Quase um ninho. Em torno da ilha, lá pela Estrada do Contorno, não é o "açudão danado de grande" - como disse o caipira ao ver o mar pela primeira vez -, o que vemos; é só um a/braço desse mar, o suficiente para cingir a ilha com ternura e trazê-la ao continente, num eterno namoro.

De aspecto totalmente diferente do das praias de areias douradas do lado leste, ali o manguezal extenso, de rica fauna, com sururus, mexilhões, camarões, caranguejos, peixes vários, possui uma floresta de troncos e raízes expostas retorcidas, através de cuja folhagem, que os raios do sol mal trespassam, entre silêncio e solidão, brincam luzes, sombras, silhuetas. Brinca a vida!

Dali, a espraiar-se, algumas campinas verdejantes e, logo, palafitas, o casario, o comércio, o movimento intenso até chegar-se - por um lado ao porto, pelo outro às praias e ao mar. Ao mar, mar, mar e mais mar a alongar nossa vista aos confins de um céu pincelado dos mais belos azuis. De madrugada, em laivos dourados; ao sol a pino, em azul profundo; ao entardecer róseo, lilás e - imprevistas e inacreditáveis, entre nuvens -, nesgas de céus esmeraldinos, translúcidos, como se o olho verde de Deus viesse dar uma espiadinha. A cada momento mutantes luzes, claridades, nuvens viajeiras. E o vento...

Ah, os ventos que brincam pela ilha, levantam areia, silvam, despenteiam, derrubam, travessos, as roupas do varal, sacodem palmeiras, sopram frios do sul, trazem chuva, vêm quentes do norte e do nordeste assoviando cantigas. Os ventos do mar afoitos, selvagens!...

E chegamos à orla. Vestida como uma fortaleza com sua muralha de arranha-céus, quem sabe no afã de defender-se - ainda - de velhos conquistadores: holandeses, franceses (que hoje vêm como turistas - e são bem-vindos) sim, porque "conquistadores" dons juans não faltarão para essa donzela faceira, cheia de charme e poesia.

Charme e poesia que se repetem subindo escadarias e ladeiras, aninhando-se nos morros de coloridas casinhas, varandas, balcões, que lá do alto se extasiam com a visão única de suas sensuais sinuosas enseadas, seus filhotes de ilha, a beleza feérica de luzes ao anoitecer.

Charme e poesia que lhe conquistaram o epíteto de "cidade presépio". Assim é! Um lindo presépio onde um povo acolhedor, simpático, educado e pacífico (por vezes um pouco reservado) vive e constrói seu dia-a-dia com garra.

Se de um lado é o mar, é o mar, é o mar e o sem fim de horizontes, que atrai o olhar, do outro, são os morros, os morros, os morros e as serras.

Morro do Martelo, Morro da Fonte Grande, Pedra dos Olhos, Pedra da Cebola, Morro da Piedade, e emoldurando a paisagem, o Penedo, de sentinela, o Moreno de tantas travessuras, o Morro do Convento, o Mestre Álvaro com ares de avô e, complacente olhar (põe chapéu, tira chapéu de nuvens, comandando as chuvas)... a Serra do Mar a azular o infinito - que infinito é o olhar de sonho que vagueia e amorosamente viaja sem sair do lugar.

Sim; eu me desmancho em louvores. Porque como todo capixaba sou enamorada; sou "coruja" dessa ilha deliciosa - nossa ilha maravilha (brilha, trilha, bilha, filha, milha, pilha, quilha, novilha. cartilha, lentilha... e haja "ilha"! ) porque para louvá-la são "precisas" todas as palavras - não apenas no sentido de precisão, mas no de exatidão. Porque na minha cart/ilha (ouve filha), no quilha do amor que sustenta esse barcoração que nos navega por m/ilhas e m/ilhas, Vitória, nossa Guananira - como a chamavam os índios - era e continua a ser a "ilha do mel" - doçura que se espraia, que invade a Grande Vitória, que cativa a quem desse mel prova - e comprova seu feitiço e seu quebranto.

Morei uma vida no coração de Vitória, ao lado do Carmo (colégio que frequentei dos quatro aos dezessete anos), me vesti de anjo nas procissões, pulei carnaval no Clube Vitória, andei de bonde pra baixo e pra cima, brinquei e namorei no Parque Moscoso, pulei corda na pracinha, desci ladeira em carro de rolimã (atropelei o professor de inglês - Luis Von Schilgen), tomei banho de mar na Praia do Suá, mansa que nem, sorvete no Bob's, dei uma "esticada" no Blitz, fiz "footing" toda arrumadinha e cheirosa pela Jerônimo Monteiro, assisti Eva Tudor no Teatro Glória, "Tarde demais para esquecer" no Cine Santa Cecília, fui professorinha no "Ernestina Pessoa", entusiasta bandeirante - "semper parata" -, aluna da "Fafi" (onde era a faculdade), casei na Igreja de São Francisco (na capela particular do Arcebispo, então Dom João Batista da Motta e Albuquerque), depois sumi pelo mundo com a nova família que formei (tivemos cinco filhos), levando sempre a saudade imensa, o visgo do mel, o sal do mar, o calor do sol, o vento nos cabelos (por isso jamais estou penteada), os lampejos do mar nos olhos, o amor no coração.

Vitória, te amei, te amo, te amarei. E, mesmo que jamais voltasse, seria tarde demais pra te esquecer!

 

Fonte: Vitória, Cidade Sol – Escritos de Vitória nº 25, Academia Espírito-Santense de Letras e Secretaria Municipal de Cultura, 2008
Autora do texto: Marilena Soneghet, nasceu em Vila Velha – ES, em 1938. Formada em Pedagogia. É pintora, poeta e cronista. Pertence à AFEL.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2020

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