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Kallima

Diná - Autor: Attilio Colnago, Fonte: Escritos de Vitória, Porto-1994

Os guindastes eram como garras de metal suspendidas, rasgando o céu escuro. Os telhados iam e vinham, imensos, içados de correntes, balançando no espaço, misteriosamente desciam dentro dos porões negros. Um ou outro apito como um uivo cortava a madrugada.

O menino metia o rosto entre as grades para espiar o vulto dos navios como massas sombrias fincadas no espelho oleoso da água. O vigia do porto lhe dava uma moeda que juntava com outras para comprar um pãp com café e salame no Cavalo de Aço.

Ali perto, Diná andava pela calçada, entre outros travestis. Com as unhas pintadas de vermelho vivo combinando com o batom, a mini-blusa de malha apertada sobre o short comprado na Vila Rubim.

Vez em quando, um carro parava e alguém sussurrava alguma coisa de dentro. Diná desaparecia, para voltar mais tarde, ajeitando o aplique dos cabelos, retocando a pintura. O menino se enrodilhava, dormitava até que a sirene da rádio-patrulha o acordava. Via Diná falando com os policiais. Um deles tinha dado a Diná uma bala deflagrada para encravar nos saltos dos sapatos em que Diná se equilibrava.

Quando o dia vinha amanhecendo, as luzes do porto se apagando, o menino acompanhava Diná ao quarto da pensão onde se amontoavam os pertences dos dois em bolsas de papelão amassado.

Diná se estirava no estrado, o menino ficava no chão. Era quando Diná falava do marinheiro filipino por quem tinha se apaixonado, mas que nunca o navio voltou.

À tardinha do outro dia, o menino via Diná se movendo debaixo do reflexo amarelado da lâmpada, arrancando os pelos do rosto com pinça, vestindo a faixa ajustada sob o short, disfarçando com pó compacto a cicatriz de cigarro sobre o bico do peito direito.

Tudo recomeçava. Iam para a calçada e os olhos de Diná tinham aquela mancha cinzenta ainda mais triste e mais forte quando iam para a calçada e tinham fome e, às vezes, chovia e o menino tiritava embrulhado num pedaço de cobertor e na rua deserta nenhum carro, nem mesmo a rádio-patrulha passava. Só o barulho surdo de algum navio sendo descarregado no porto e Diná que tossia.

Então, aquela noite, Diná apertou o ombro do menino e apontou o navio que entrava, puxado pelos rebocadores, majestosamente, lentamente e encostava no cais. O navio enorme, sob a lua, com todas as luzes acesas, enquanto Diná apertava o ombro do menino, apontando o navio e rindo e chorando e o rosto de Diná que brilhava extasiado e Diná que dizia: “É ele. É o Kallima de novo atracando”.

Foi assim que o menino aprendeu que os navios têm nome. Como as flores, os cachorros, os gatos, os passarinhos eo jardim das delícias.

 

 Fonte: Escritos de Vitória – Porto,1994
Autora: Bernadette Lyra
Ilustração: Attilio Colnago
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2012

 

 

Literatura e Crônicas

Vitória, cidade portuária

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