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Padre Pé-de-Vento

Padre Cleto Caliman

Fonte: Revista Viagem e Turismo – Outubro de 2003

Quem chega a Venda Nova do Imigrante, região das montanhas do Espírito Santo, vai ouvir: “Já conhece o Padre Cleto?” Nós conhecemos. Ele parecia uma figura frágil dentro de um casaco de lã e uma boina cobrindo a cabeça. Logo se transformou numa metralhadora giratória: “Será que não tem um lugarzinho para mim na revista?” O velho padre Cleto Caliman é um pé-de-vento. Diz que já zanzou por França, Espanha, Portugal, Alemanha e Itália. Faz questão de demonstrar que é um poliglota. Desanda a falar em espanhol, italiano e francês. Só não teve jeito de aprender inglês. “E também falo português com indiscreta infâmia.” Os seus quase 90 anos o ensinaram a rir de si mesmo.

Além de pé-de-vento, tem fama de festeiro. A Festa da Polenta, o maior evento da cidade, saiu de sua cabeça branquinha, em 1978. Flamenguista roxo, no período em que serviu numa arquidiocese do Rio de Janeiro, sempre dava um jeitinho de ir ao Maracanã. Afirma que viu o milésimo gol do rei Pelé. A alegria faz parte da vida do padre pé-de-vento.

Esse texto foi transcrito da revista Viagem e Turismo, em outubro de 2003, no que foi talvez uma das últimas entrevistas do padre Cleto, que veio a falecer em 6 de fevereiro de 2005, em Vitória – ES, aos 90 anos.

Quem foi padre Cleto Caliman

Padre Cleto Caliman nasceu em Lavrinhas, no velho casarão da família, no dia 9 de outubro de 1914. Primogênito de 16 filhos do casal Fioravante Caliman e Maria Carnielli, foi garoto vivo, irriquieto e levado, transcorrendo a infância, armando arapuca e dando trabalho a seus pais.

Aos dez anos, o seu pai o matriculou como primeiro aluno interno do Instituto Salesiano Anchieta, junto com Marcelino Falqueto, em Virgínia, hoje Jaciguá, município de Vargem Alta. Naquela época não existia o primário em Venda Nova e os pais tinham que recorrer aos colégios religiosos, o que explica tantos padres e freiras nas famílias locais.

O desprendimento não foi fácil. Para os conhecidos, ele sempre contava como chorou ao partir. O menino Cleto não imaginava que só iria rever a família 13 anos depois.

Ao concluir o primário, ele foi para o Ginásio São Manuel, em Lavrinhas, São Paulo. Saiu de lá aos 16 anos e, naquele mesmo Estado, foi fazer o noviciado em Campinas. Aos 23, lecionou nos colégios São Joaquim e Liceu Coração de Jesus. Em 1939, começou a cursar teologia.

Sacerdócio

A ordenação sacerdotal de padre Cleto se deu em 8 de dezembro de 1943, no Santuário do Coração de Jesus (SP) pelas mãos do bispo missionário Dom Pedro Massa. A sua primeira missa foi em Venda Nova, no Natal daquele mesmo ano.

Padre Cleto realizou-se plenamente em sua caminhada de salesiano, sacerdote e homem. Os 62 anos de educador falam mais alto que qualquer lógica humana.

O progresso de Venda Nova muito se deve a padre Cleto Caliman. Em nove décadas de vida, ele dedicou 62 anos ao sacerdócio e à arte de fazer política de buscar benfeitorias para Venda Nova e por onde passou.

O espírito progressista e os bons contatos foram o que tornaram muitas de suas realizações possíveis. Para viabilizar as obras, padre Cleto mantinha relações diplomáticas com os políticos da época, como o governador do Espírito Santo Cristiano Dias Lopes.

Pessoas que acompanharam a sua trajetória contam ainda que a construção da BR-262, na década de 50, também teve o dedo dele. Graças a sua interseção, o ministro Mário Andreazza decidiu pela passagem da rodovia federal por Venda Nova. Com vistas ao progresso do lugar, conseguiu a façanha de trazer a BR para uma região tão montanhosa, quando havia no Estado a opção de caminhos com menos altitude.

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